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Elias Andreato retorna aos monólogos para declarar devoção pelas palavras

Espetáculo 'O And@nte' estreia nesta quinta-feira, 18, no Teatro Eva Herz, em São Paulo

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

18 Outubro 2012 | 03h12

Palavras constroem o mundo. Não servem apenas para traduzir o que se vê. Ou para expressar o que se pensa. Antes, o que um indivíduo pensa é um amálgama dos discursos que incorporou ao longo da vida. Foi a partir do manejo das palavras que Elias Andreato concebeu O And@nte, espetáculo que estreia hoje no Teatro Eva Herz.

A obra, que o ator também escreveu e codirige, tem no verbo a sua força motriz. "A palavra escrita tem, para minha geração, um valor diferente. Repensando a minha trajetória, vejo que o que ficou na minha cabeça foram palavras", conta ele. "Fragmentos do que a gente viveu, sentiu, viu. Pensei, portanto, em catar essas palavras, em recolher aquilo que o ser humano possui de melhor."

Em essência, o procedimento não difere daquele que Andreato utilizou em sua criação anterior, o monólogo Doido. Ali, o artista fazia uma colagem de referências. Revisitava os anos passados em cima do palco e as escolhas profissionais tomando emprestada a voz de poetas, dramaturgos e escritores: Shakespeare, Fernando Pessoa, Albert Camus. O percurso por essas falas era aparentemente aleatório. Seu resultado, porém, emergia carregado de pessoalidade.

Com O And@nte, Andreato também tece o seu rendilhado de vozes alheias. Mantém o tom de desabafo. Brinca com as palavras, seus sons e significados, à maneira de Manoel de Barros e Guimarães Rosa.

Mas elege um personagem distanciado da sua imagem de ator: um catador, homem que alterna momentos de loucura e lucidez. Criatura errante, a perambular com seu carrinho atulhado de quinquilharias, ele não se dedica a recolher lixo - o refugo da sociedade de consumo -, mas pensamentos.

Loucura. "Queria uma figura mais popular, com a qual o público tivesse uma identificação imediata", justifica Andreato. O seu catador está impregnado das lembranças dos loucos que conheceu na infância. De seres anônimos da cidade. Também despontam traços de desajustados que sempre o intrigaram.

Arthur Bispo do Rosário é uma das referências mais evidentes. Os seus conhecidos bordados estão claramente presentes no figurino, que é assinado pelo próprio ator. Faz-se lembrar ainda pela sua arte, que surge do lixo e da sucata. A oscilação constante de Bispo entre a loucura e a genialidade também pode ser decalcada como meio de entender a proposta lançada pela peça.

Na sua História da Loucura, o francês Michel Foucault investigava como a figura do louco mereceu diferentes tratamentos ao longo da história. Em algum momento, tornaram-se figuras proscritas, a serem apartadas do convívio social. Mas nem sempre foi assim. Antes, já foram vistos como detentores de um saber secreto, capazes de ter acesso a verdades que não eram reveladas aos homens ditos "normais".

A loucura deixou um rastro na trajetória artística de Elias Andreato. Particularmente nas criações em que aparece sozinho em cena - este é o seu oitavo solo.

Em Diário de Um Louco, mergulhava no texto de Nikolai Gogol para encarnar um personagem condenado a "ouvir e ver coisas que ninguém ainda viu e ouviu". Mais adiante, estreou Van Gogh, no qual interpretava o atormentado pintor holandês. Esteve também em Artaud, Atleta do Coração, montagem sobre o ator e diretor que passou boa parte da vida em hospitais psiquiátricos.

"Tenho fascínio por esses personagens que podem falar qualquer coisa, que podem tornar evidente essa loucura que somos nós", diz o intérprete. Para ele, trata-se de uma discussão necessária. "O papel do artista é questionar. E, de repente, a gente se transformou nessa coisa arrumadinha, de bom gosto, enquadrada. O louco ainda pode ser alguém que propaga as verdades que ninguém quer escutar."

O AND@NTE

Teatro Eva Herz. Livraria Cultura. Avenida Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, 3170-4059.

5ª, às 21 h. R$ 50. Até 13/12.

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