Elias Andreato retorna aos monólogos em 'O And@nte'

Palavras constroem o mundo. Não servem apenas para traduzir o que se vê. Ou para expressar o que se pensa. Antes, o que um indivíduo pensa é um amálgama dos discursos que incorporou ao longo da vida. Foi a partir do manejo das palavras que Elias Andreato concebeu "O And@nte", espetáculo que estreia nesta quinta-feira no Teatro Eva Herz.

AE, Agência Estado

18 Outubro 2012 | 10h17

A obra, que o ator também escreveu e codirige, tem no verbo a sua força motriz. "A palavra escrita tem, para minha geração, um valor diferente. Repensando a minha trajetória, vejo que o que ficou na minha cabeça foram palavras", conta ele. "Fragmentos do que a gente viveu, sentiu, viu. Pensei, portanto, em catar essas palavras, em recolher aquilo que o ser humano possui de melhor."

Em essência, o procedimento não difere daquele que Andreato utilizou em sua criação anterior, o monólogo "Doido". Ali, o artista fazia uma colagem de referências. Revisitava os anos passados em cima do palco e as escolhas profissionais tomando emprestada a voz de poetas, dramaturgos e escritores: Shakespeare, Fernando Pessoa, Albert Camus. O percurso por essas falas era aparentemente aleatório. Seu resultado, porém, emergia carregado de pessoalidade.

Com "O And@nte", Andreato também tece o seu rendilhado de vozes alheias. Mantém o tom de desabafo. Brinca com as palavras, seus sons e significados, à maneira de Manoel de Barros e Guimarães Rosa.

Mas elege um personagem distanciado da sua imagem de ator: um catador, homem que alterna momentos de loucura e lucidez. Criatura errante, a perambular com seu carrinho atulhado de quinquilharias, ele não se dedica a recolher lixo - o refugo da sociedade de consumo -, mas pensamentos.

"Queria uma figura mais popular, com a qual o público tivesse uma identificação imediata", justifica Andreato. O seu catador está impregnado das lembranças dos loucos que conheceu na infância. De seres anônimos da cidade. Também despontam traços de desajustados que sempre o intrigaram.

A loucura deixou um rastro na trajetória artística de Elias Andreato. Particularmente nas criações em que aparece sozinho em cena - este é o seu oitavo solo. Em "Diário de Um Louco", mergulhava no texto de Nikolai Gogol para encarnar um personagem condenado a "ouvir e ver coisas que ninguém ainda viu e ouviu". Mais adiante, estreou "Van Gogh", no qual interpretava o atormentado pintor holandês. Esteve também em "Artaud, Atleta do Coração", montagem sobre o ator e diretor que passou boa parte da vida em hospitais psiquiátricos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O AND@NTE

Teatro Eva Herz - Livraria Cultura (Avenida Paulista, 2.073, Conjunto Nacional). Tel. (011) 3170-4059. 5ª, às 21 h. R$ 50. Até 13/12.

Mais conteúdo sobre:
teatroElias Andreato

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.