Eliana: de ingênua e bobinha, não tem nada

Simples seria dizer que Eliana é uma menina de sorte. Bonita e comunicativa desde criança, para ela foi fácil entrar na TV. Mas, vamos parar para pensar só um pouco. Quantas meninas como Eliana passaram pela TV? E quantas ainda estão? Três. Mas, dessas três, quantas têm futuro na TV? Eis o mérito de Eliana. A menina de sorte que começou com o grupo Patotinhas, que dançou lambada no Banana Split, hoje rouba audiência daquele que a descobriu. Quando Silvio Santos a convidou no ar para ser a nova apresentadora do SBT mal sabia que, anos depois, seria ela quem iria roubar pontos da sua audiência. Silvio hoje bem sabe que há três meses Eliana mantém aos domingos a vice-liderança para a Record com o seu Tudo é Possível. Tanto que o patrão mudou a grade - mais uma vez - e há três semanas partiu para o embate direto para ver se consegue vencer aquela que um dia foi sua pupila. 3 x 0 para a novata. Faz bem Eliana em dizer que uma menina de sorte não fica 16 anos no ar, faz bem você em deixar o preconceito de lado, as entrevistas que leu e as fotos que viu nas revistas de celebridades. De ingênua e bobinha, Eliana não tem nada. Você acha que a fase das apresentadoras loiras de programas infantis acabou? Não sei. Sei que as crianças mudaram. As crianças de 16 anos atrás tinham outra educação, outro acesso. Hoje é uma loucura, criança de 3 anos mexe no computador! Acho que não poderia permanecer cantando a famosa música escolar, a música dos dedinhos... Essa consciência eu sempre tive. Acho que em tudo na vida você tem que evoluir. Eu já estava com o público adolescente, mas mudei também por que a proposta (de um programa adulto) casou muito com minha questão pessoal. Estava casando, queria desacelerar um pouco depois de ficar 16 anos no ar por 2, 3 horas por dia. Para mim foi uma oportunidade de respirar, trabalhar com mais tranqüilidade. Você sempre foi politicamente correta. Isso fazia parte do pacote que você tinha de cumprir para ter uma boa imagem? Não, não era nenhuma máscara. Sei que há pessoas que precisam disso, que gostam de coisas que não condizem com o trabalho. Mas eu não. Comecei a trabalhar com 12 anos e sempre fui disciplinada, não que eu não me divertisse. Eu me divertia e muito, saía e muito, mas sabia aonde ir e com quem ir. Não por medo de ser flagrada porque não bebo, não fumo e sempre namorei. Não acho absurdo quem namora bastante, isso não é demérito para um grande profissional. Mas, olha, acho que é bacana ser politicamente correta (risos)! É claro que não sou nenhuma santa, mas porra louca nunca fui mesmo. O que mais te impressionou quando entrou para a TV? Foi o Silvio Santos. Imagina, ele era o ídolo de casa, todo domingo almoçávamos macarronada assistindo ao Silvio. Foi quando o conheci que pensei: "Pôxa, estou mesmo na TV". Estava nas Patotinhas e depois conheci o Gugu (Liberato) que precisava de uma menina para o Banana Split. Mas fiquei só oito meses porque voltei a fazer o programa do Silvio Santos e ele, no ar, começou a perguntar se o público gostava de mim. Depois me fez o convite: "Você gostaria de ser apresentadora?" (imita a voz). Foi um momento ímpar da minha vida. E como é sua relação com o Silvio Santos? Sempre foi muito boa. Mesmo porque sempre fui dedicada. Me mostra o que tenho que fazer, de que maneira, a que horas preciso chegar que vou e faço. Todas as conquistas que tive foram minhas. Não tinha ninguém por trás, não tinha família rica, pelo contrário, sempre ajudei minha família. Morávamos no Jardim Paulista, mas só porque meu pai era zelador de um prédio. Estudei em colégio estadual e depois fiz faculdade privada (de psicologia, que não concluiu) porque já podia pagar. Morar ao lado de crianças ricas foi opressor? Foi uma experiência ótima porque sabia exatamente onde era meu lugar. Brincava nos apartamentos de quatro dormitórios e voltava para meu apartamentinho de um dormitório. Brincava com as bonecas da época, mas voltava para minha casa e tinha os meus brinquedinhos que não eram tão novos, já estavam meio capenguinhas. Mas foi bárbaro para eu entender, valorizar ainda mais o que eu tenho hoje. Não sou nada mimada. As crianças hoje são bem mais consumistas. Como lida com isso sabendo que tem criança que quer brinquedo da Eliana e não pode comprar? Tenho mais de 160 itens que variam de calçados, brinquedos, livros, CDs, jogos, roupa, material escolar... Lido com isso tendo principalmente vários produtos com vários preços. Tenho uma boneca que custa R$ 100 e também uma que custa R$ 15. Hoje ampliei esse horizonte de licenciamento porque recebemos propostas para lançar produtos para mulheres. Estou lançando hidratante antiestrias e xampu. Um novo universo, sem fim... Olha, tudo que eu lanço tem de ter uma verdade dentro de mim. Por que não lancei um creme antiestrias antes? Porque era uma coisa que não tinha a ver, meu público era infantil. Hoje é outro. Acho que quando você faz uma coisa séria você quer mesmo que não tenha fim. Eu não tenho empresário por trás de mim, sou eu. Muitos profissionais não têm escritório para trabalhar, para criar, eu tenho. Não estou brincando com o que faço. Quero permanecer como apresentadora por muitos e muitos anos e sei que essa nova fase me dá um futuro muito mais promissor. Você não acha que capa de revista de celebridades desgasta a imagem do artista? Se a pessoa está disposta a falar, tem veículo que queira ouvir e público que queira ler. Qual é o problema? Acho que a minha privacidade sempre foi respeitada no limite que eu coloquei. Não me arrependo de nada. O que me incomoda são as mentiras, ponto. Fim de namoro, começo de namoro, é notícia? Cada veículo com sua finalidade. Hoje falando com você sei com que público estou falando, são outros interesses. Tem aquela história que falam: "Ah, o artista só fala com esse tipo de veículo (de celebridades) porque ali ele nunca vai ser colocado em uma situação difícil." Isso nunca existiu na minha vida, nunca fugi da raia. "Ai, não vou dar entrevista senão vou falar besteira." Nunca. Não sou contra fazer nenhum tipo de revista que eu possa mostrar minha beleza, minha casa ou a minha felicidade ao lado do meu marido... Sou contra fazer só isso. Aí acho que as pessoas deixam de conhecer quem você realmente é. E tenta balancear como? Por exemplo, quando me casei. Depois de tanto tempo as pessoas assistindo a sua vida, porque é um reality show, as pessoas queriam participar do meu casamento, a própria emissora queria estar no casamento. E isso não foi permitido. Não era uma festa de badalação, havia poucas celebridades mesmo porque tenho poucos amigos "celebrities". Era um casamento, não um evento. Acho que dou uma abertura limitada, controlada. Não é aquele oba-oba: "Vem, gente, vamos lá todo mundo, come aí, bebe aí." Nunca. Como sobreviver em um reality show? Normal porque convivo com isso há muitos anos. Mas sei viver sem isso. Aliás, se tem uma coisa que mais sei é saber desde pequena qual é o meu lugar real. Faço até uma analogia com minha infância. É a mesma coisa que acontece quando estou na frente das câmeras e quando estou em casa. Aqui eu não me coloco como "a apresentadora que vai abrir as portas da sua casa para sua família". Não. E se um dia tiver que interromper minha profissão vou estar fazendo outra coisa muito feliz. Acho que é necessário trabalhar, não exatamente nesse ramo que faço. Não te espantaria não causar o mesmo impacto que causa em lugares públicos? Eu vou à feira, ao cinema... não vivo em uma redoma. A minha carreira faz parte da minha vida, não é minha vida. Nos oito meses que fiquei fora do ar estava trabalhando muito no meu programa, produzindo, criando... Quando as pessoas falavam que eu não ia voltar para a TV ficava pensando: "Será que só existo se estiver sob os holofotes?" Não! Tem uma profissional aqui que vai muito além da imagem, tem uma profissional aqui que rala, que vê fitas e mais fitas para achar um programa bacana. E as pessoas não viam a profissional, só viam a imagem. E, se a imagem não estava no ar, ahhhhh, ela não está fazendo nada. Mas estava trabalhando como nunca trabalhei, fato que hoje está dando resultado. Mas não acha que revistas de celebridades exploram justamente essa imagem, esse engodo? Faz parte da publicação. Mas quem me conhece de fato, profissional da área, sabe que sou muito mais que uma pessoa bonita que teve sorte na vida. Isso não te faz ficar 16 anos à frente de um programa. E passei por vários desafios. Passei 7 anos em uma emissora e fui para outra quando essa nova emissora não é o que é hoje. Sabia que lá poderia crescer e cresci. Nada na vida é por acaso. Assim como não é por acaso que os meus produtos fazem sucesso, não é porque eu tenho um marketing muito bom. Não é. É por muito trabalho. Não tenho problema algum em falar com um jornal aqui e amanhã sair em uma capa de revista para mostrar minha beleza. Sei do meu conteúdo, pena quem não sabe. É, aquela imagem ingênua na capa da revista... Ingênua? Não. Bobinha? Nem pensar. Boa sim, boazinha nem pensar. Às vezes as pessoas acham que a gente é boba, mas comigo não é assim. Sou do bem, mas sei dos limites de cada um. A ingenuidade passou longe.

Agencia Estado,

23 de abril de 2006 | 14h49

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