ROLAND SCHLAGER
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Elfriede Jelinek lança ‘Desejo’ no País e fala de feminismo, política e futebol

Escritora austríaca venceu o Prêmio Nobel de Literatura em 2004

Marília Kodic - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2013 | 21h06

Criticada ferozmente na imprensa de seu país pelo caráter supostamente pornográfico de sua obra, a austríaca Elfriede Jelinek tem o segundo livro lançado no Brasil. Desejo, que chega às livrarias em setembro, trata das vulgaridades e ganâncias de uma (estereotipada, porém crível) sociedade machista. Sua primeira obra lançada no Brasil foi A Pianista, em 2004, adaptada ao cinema em 2001 por Michael Haneke (A Professora de Piano). Portadora de uma fobia social que a impediu de comparecer à entrega do Nobel, Jelinek falou por e-mail ao Estado.

Desejo trata do relacionamento entre homem e mulher do ponto de vista hegeliano de mestre e escravo. A ideia de mulheres como seres oprimidos e submissos ainda faz sentido hoje em dia?

Continuo a ouvir que essa ideia seria ultrapassada, um feminismo obsoleto. Não vejo dessa forma. Em alguns casos, a igualdade realmente foi alcançada, mas vejo apenas como conquistas ocasionais, progressos pontuais. Talvez as mulheres já tenham alcançado a igualdade de direitos no Brasil, ou os brasileiros estejam confiantes de que isso vá acontecer. A relação marido-mulher como senhor-servo não tem solução. Enquanto a mulher tiver todo o trabalho doméstico, como cuidar de crianças e idosos, nada poderá mudar. Nenhum país teria PIB o suficiente para pagar a dívida dos serviços não remunerados (e não reconhecidos) feitos pelas suas mulheres. Meu método na literatura é dizer coisas presentes de forma exagerada para polarizar ainda mais as questões. Gostaria de reforçar a mulher como ferramenta política, tenho feito muito isso em minha vida, mas tenho percebido que é em vão. Estou totalmente resignada.

Em A Pianista, vemos na protagonista, que tem traços declaradamente autobiográficos, algo da teoria da sublimação de Freud (a arte como repressão do instinto). A sra. relaciona esse princípio psicanalítico à sua vida?

O homem não é capaz de se subjugar a uma autopsicanálise. Para isso, ele precisa de um analista. Mas pesquisei bastante sobre esse assunto e sou uma seguidora da teoria da sublimação. Por isso, queria evidenciá-la de alguma forma e mostrar para onde ela pode conduzir alguém, se levada ao extremo.

O livro vendeu 2 mil exemplares no Brasil, um número bom se considerada a densidade da obra e o número de leitores no País. Como avalia essa recepção?

Infelizmente sei muito pouco sobre o Brasil. Em todo caso, sempre é representado como um país fortemente sexualizado, cheio de entusiasmo pela vida e sem grandes frustrações no que diz respeito a desejo e a sexualidade. Vemos sempre fotos de Copacabana com mulheres quase nuas, usando fios-dentais, muito conscientes do que estão fazendo. Parece o paraíso. No entanto, esse não é o lugar para a sublimação. Portanto não sei como um livro que relata apenas o fracasso de uma mulher brilhante que descarrilou em sua vida, chega a um país tão liberal como o Brasil, onde tudo é permitido e não é necessário sublimar.

De Kafka a Peter Handke, a literatura austríaca sempre teve forte tradição crítica. Acha que isso ocorre por não haver relevantes pensadores políticos no país?

Não temos nenhum filósofo político na Áustria. Os artistas, que foram atacados e o são até hoje, foram os portadores de resistência à situação política. Sobre o atual governo, eu não quero dizer nada. Ele é (tudo é) melhor que a coligação de direita que governou em 2000 e causou danos terríveis ao país, sentidos até hoje.

Além de conterrâneos e contemporâneos, a senhora e Michael Haneke são ambos partidários do fazer artístico por meio das facetas, digamos, mais sombrias do ser humano. Como avalia a adaptação A Professora de Piano?

É um filme maravilhoso! Como em todos os casos de adaptação literária bem-sucedida, ele acrescenta algo ao romance, enriquece-o – talvez tenha interpretações sobre o texto em que nem eu mesma havia pensado. Acho sempre fascinante quando outro artista dá ao texto dimensão tão nova que nem mesmo o autor original seria capaz de imaginar. Eu certamente sou mais irônica do que Haneke, que é muito sério e diz que a comédia nunca foi a dele. Eu ironizo tudo, obsessivamente, inclusive em minha vida pessoal.

No filme Cisne Negro (2010), a relação entre mãe e filha e a tensão sexual são muito similares às de A Professora de Piano. Vê essa semelhança?

Aqui podemos voltar novamente à teoria da sublimação de Freud. A recusa, a destruição da sexualidade da filha (e sua substituição por meio da atuação artística, em ambos os casos) a conduz logicamente para uma incapacidade de sobreviver. Mas acho que nele se encontra o trivial, pois é um filme comercial que aborda apenas a questão central de uma totalidade mais complexa.

Na peça Sports Play (ainda sem tradução no Brasil), a senhora associa o esporte à guerra. O Brasil, próxima sede da Copa do Mundo, é um claro exemplo da histeria causada pelo culto ao futebol. Qual sua crítica à obsessão com o esporte?

Minha preocupação é o endeusamento de atletas famosos, de um lado, e o desprezo pelo fazeres intelectual e artístico, de outro. Incomodo-me com a histeria, a violência e agressão geradas por fãs de times de futebol. Usa-se o fanatismo como válvula para dar vazão à agressividade que é latente na sociedade. A agressão das massas é resultado das frustrações diárias decorrentes de suas circunstâncias de vida – isso certamente é um problema no Brasil: a constante falta de dinheiro, o uso de drogas, etc, que se transformam em violência. A transformação de frustração em agressão é um dos princípios básicos da psicologia.

A mescla de vozes narrativas e o uso de metáforas na sua obra pode ser frustrante para o leitor médio. Incomoda-a que, por demandar alto esforço intelectual, sua produção acabe ficando restrita a determinado público?

Sei que minha maneira de escrever pode levar a uma atitude negativa e hostil do leitor. Mas isto é, principalmente, um problema de tradução. Meu trabalho com a linguagem talvez represente um obstáculo para a recepção de meus textos em países que não falam alemão. Para expressar jogos de linguagem e trocadilhos, uso um método de composição criativa – estudei composição e, em vez de trabalhar com o material musical, trabalho com a linguagem composicional. Eu escrevo literalmente o que está em meus nervos.

 

Trecho

“A mulher pula, envergonhada com seu corpo que se debate, para dentro do vento. Ela se fez carne e habitou entre nós. Servir à fome, em todos os sentidos, assim tem sido a prática janela aberta de sua taberna (pague e leve sua bebida): deixar-se gastar para o marido, para o filho, acomodada nas suaves rédeas dos dois. Ela tenta isso apanhando ar em sua rede de pesca. Veste depressa seu roupão e, de pantufas, começa a socar com o pé o caminho coberto de neve. Antes ela ainda tem que colocar as xícaras e aparelhos dentro do armarinho, para uma emergência. Ela está sob a água corrente e escova da porcelana os vestígios de sua família. Assim a mulher se conserva, nos ingredientes de que é feita.”

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