Elevado Master

O documentário Elevado 3.5 chega aos cinemas no momento certo, em que o polêmico Minhocão foi condenado por decreto: pode ''desabar'' em 15 anos

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

        

“A nova solução de sistema rodoviário da cidade”. Assim o então prefeito Paulo Maluf, em 1969, apresentou o projeto que há um mês teve sua demolição decretada por Gilberto Kassab

 

 

 

 

 

 

 

Todos os dias, milhares de automóveis circulam pelos 3,5 quilômetros do Elevado Costa e Silva, o controverso "monumento" ao urbanismo desenfreado que ditou a maneira como a capital paulistana se formou.

Visto de cima, o Minhocão parece de fato embrenhar-se pela chamada Selva de Pedra. Visto de baixo, parece exibir as entranhas de um bicho urbano caótico e desumano. E visto da varanda? Da janela de quem sabe que o caos urbano não só mora, mas passa literalmente ao lado?

São essas as visões que o documentário Elevado 3.5 revela ao longo de seus 72 minutos. O filme, vencedor do festival É Tudo Verdade 2007, chega ao cinema em época mais que oportuna, um mês após ser decretado pelo prefeito Gilberto Kassab que o Minhocão deve ser demolido - o que, segundo previsões, só ocorrerá dentro de 15 anos.

O decreto fez ressurgir uma discussão que teve início antes mesmo de sua construção nos anos 70. Lugar do Minhocão é embaixo da terra? Ou é possível apresentar soluções que o humanizem e contribuam para a revitalização da qualidade de vida da cidade, sem que para isso seja preciso enterrar um elevado? A população, tanto a que passa por ele quanto a que convive, é a favor?

Soluções urbanísticas à parte, a equipe de diretores e produtores do documentário deu uso inédito e simbólico ao Elevado no último domingo e o transformou em sala de cinema (veja abaixo). Uma estrutura com tela, 500 cadeiras, sistema de som e, claro, projetor de cinema, foi montada no viaduto, no ponto que cruza a Rua Helvétia com a Avenida São João. Diante da ideia, muitas surpresas. As 500 pessoas esperadas viraram 2 mil. Transeuntes subiram o Elevado e moradores dos prédios vizinhos pararam para ver o filme passar sobre a passarela. "Não estava entendendo, mas resolvi sair na varanda para checar. Quando vi que ia começar um filme, apaguei a luz e fiz até pipoca. Adorei a ideia!", declarou um morador "da varanda" ao lado da tela.

Emoção. Em vez do caos diário, o que se viu foi uma sessão metalinguística para cinéfilo e urbanista nenhum botar defeito. "Deveria haver mais ações assim. Este lugar, ainda que feio, é parte da cidade. Em vez de ponto de viciados em crack, que ocorre durante a noite, após o Minhocão fechar deveria haver mais atividades como esta", opinou o balconista Guilherme Veríssimo. "Jamais imaginávamos que viria tanta gente. E mais: não esperava que a interação fosse tão grande. Todo mundo parou e se emocionou com as histórias das pessoas que retratamos", comentou a diretora Maíra Bühler ao fim da pré-estreia inusitada.

Vale lembrar que nenhum dos diretores do filme - além de Maíra, João Sodré, Paulo Pastorelo - é cineasta de formação. Ela é antropóloga. Eles, arquitetos. "Nosso histórico contribuiu para que nossa filmagem fosse calcada em uma pesquisa muito bem embasada. Além de termos convivido com o local - tínhamos um escritório na Santa Cecília -, nosso olhar se voltou sempre para o fator humano e não somente para o caráter arquitetônico da questão", comenta Sodré.

Foi esse fator humano que deu cara e uso novo a esse mal controversamente necessário. São pessoas "comuns" de várias origens e moradores de prédios vizinhos que ganham voz e rosto em Elevado 3.5. Pessoas que dividem seu dia a dia e humanizam o Elevado de diferentes formas.

Em uma referência clara, o filme é quase um Edifício Master sobre muitos edifícios. "O trabalho do Eduardo Coutinho sempre nos inspirou. Quisemos revelar quem são os moradores que "têm janela para o Elevado", que eles abrissem as portas de casa para nós e contassem como aprenderam a viver e a se afeiçoar a ele", explica Sodré.

Ao iniciar o filme com reportagem de época sobre "a nova solução de sistema rodoviário da cidade e São Paulo", apresentada por Paulo Maluf, então prefeito de São Paulo, e, ao mesmo tempo, dar voz a personagens, como dona Gerda (cantora que defende a construção de um camelódromo embaixo do Minhocão), ,o documentário Elevado 3.5, mais que levantar um assunto, faz verdadeira arqueologia da memória paulistana.

Nas telas.

Minhocão também foi cenário de filmes como O Signo da Cidade, de Bruna Lombardi

PARA ENTENDER

O nome dele é... Costa e Silva

O Elevado Presidente Costa e Silva é uma via expressa elevada que se estende por 3,5 quilômetros da Praça Roosevelt, centro de São Paulo, até o Largo Padre Péricles, na Barra Funda. Idealizado pelo prefeito Faria Lima nos anos 60, foi construído e inaugurado em 1971, durante o a gestão de Paulo Maluf. com o intuito de desafogar o trânsito no centro da cidade. Há um mês, o prefeito Gilberto Kassab decretou sua demolição, que já havia sido proposta por prefeitos como como José Serra e Marta Suplicy.

 

 

 

 

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