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Eletrochoques literários

Ia arrumar meus livros, mas fui capturado por um clássico do terror para crianças

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 03h00

É hoje!, bradei, munido do mais assertivo de meus pontos de exclamação – e corajosamente mergulhei no universo de pó e ácaros em que meu escritório se acha convertido. Convertido? Que nada, a furna sempre foi assim. Até por isso, decidi botar ordem nesse antro do papel impresso empoeirado. Pandemia, pensei, tem lá suas compensações, e uma delas é uma disponibilidade para, quando menos, disfarçar a má impressão que possa causar, nas lives de que tenho participado, o caótico cenário às minhas costas.

Era hoje..., murmurei para mim mesmo, acabrunhado, quando, no final do dia, abandonei, vencido, o campo da batalha que não houve. Se ao menos fosse a primeira vez... Nessas empreitadas, recorrentes, sempre começo animadíssimo, para minutos depois me engastalhar na leitura de algum livro aberto ao acaso, e nisto vai-se o dia, e com ele os melhores propósitos de amenizar o caos. Nessas horas, chego a desejar um incêndio, e me volta o desabafo de um amigo, enredado em igual situação: “Quando me separei, deixei para trás metade dos meus livros – e o problema, agora, é não ter de quem me separar...”.

Qualquer coisa, nessas jornadas heroicas, me desvia do objetivo, põe a perder o planejado. Já me peguei, empoleirado na escadinha do escritório, a revisitar um romance de Scott Fitzgerald, pinçado para limpeza apenas, mas temerariamente aberto numa página qualquer, página essa que me levou a outra, e a outra, enquanto o dia se escoava. Não chega a ser consolo pensar que fui talvez a primeira pessoa a ler Fitzgerald no alto de uma escada, com uma estopa na mão e o risco de despencar numa barafunda de livros, caixas, pastas e trastes amontoados no chão. Na verdade, o que então me interessou, sem que eu me desse conta, não foi bem a prosa de um de meus amores literários mais antigos, e sim a garimpagem de passagens que assinalei, ó crime, com tinta de caneta, no deslumbramento da primeira e sôfrega leitura, aos 17 anos. 

*

Também nesse departamento nostalgia devo ter regredido, pois na mais recente tentativa de arrumação, faz uns dias, encalhei de saída numa prateleira onde envelhecem livros infantis – e, numa folheação vadia, de lá não saí. De certa maneira, o mesmo acontecia quando, na adolescência, eu me fechava, sozinho, do escritório doméstico de meu pai, para avidamente catar, por detrás de seus compêndios de odontologia, algumas obras excitantes, embora católicas, de educação sexual. Inesquecível, o Amor e Paz da dona Maria Madalena Ribeiro de Oliveira, sobretudo o volume 2, sob medida para moças à beira do matrimônio e suas implicações carnais. 

Mas voltemos ao setor infantil de minha biblioteca, na qual, por detrás dos livros, nada existe que remotamente constitua combustível para a lubricidade. 

Por motivos não apenas literários, gostaria de ter aqui os mesmos exemplares que li quando menino, cuidadosamente encapados pela minha mãe com papel manilha inglês, cada um deles etiquetado e numerado na lombada. De nossa bibliotequinha inesquecível, manuseada sucessivamente pelas dez crias do dr. Hugo e da dona Wanda, tudo o que pude salvar é um desmilinguido exemplar de João-que-Chora e João-que-Ri, da Condessa de Ségur. Não há indicação de quando foi impressa a obra, a 39.ª, na numeração da mamãe; mas na folha de rosto este leitor, distante ainda da caneta com que macularia tantos livros, cuidou de registrar, a lápis, não só seu nome como sua idade – 10 anos – e o endereço, completo ao ponto de arrematar-se com um “América do Sul”.

Pena que não tenha aqui aquele exemplar de João Felpudo, livro do qual já falei – e muito mais falarei, pelas marcas que sua leitura deixou em mim e, posso apostar, em tantos de meus contemporâneos, que o leram na tradução de Guilherme de Almeida, ou na outra, mais antiga, de Olavo Bilac.

Também nisso diferente das anteriores, a edição que tenho, feita com o habitual capricho da editora Iluminuras, tem tradução de Cláudia Cavalcanti, e traz, como subtítulo, a informação de que se trata de “histórias divertidas com desenhos cômicos do Dr. Heinrich Hoffmann”. 

Histórias divertidas? Desenhos cômicos? Jamais seria esta a avaliação do leitor menino que fui, para quem João Felpudo ficaria sendo, ao contrário, um arrepiante livro de terror para crianças. E pensar que o dr. Heinrich Hoffmann era psiquiatra. Coisa de louco. Eletrochoques literários para a garotada. 

Imagino a reação que terá tido o Karl Hoffmann, 3 anos de idade, para quem o pai, como presente de Natal, escreveu e ilustrou essas dez histórias, publicadas em 1845 e celebrizadas sem tardança ao redor do mundo. Também no Brasil, o livro fez sucesso. Por um bom tempo deixou de ser impresso – até reaparecer, faz uns dez anos, na esmerada edição da Iluminuras. Li e recomendo. Mas não venham dizer que é leitura para crianças. Até me vem vontade de mandar a conta: hei, dr. Hoffmann, o senhor me deve grana & lágrimas que pinguei na terapia!

Fricote? Então veja as histórias exemplares que ele imaginou para manter o filho longe do mau caminho. 

A tragédia da Paulinha, que mesmo advertida gostava de brincar com o fogo, e acabou reduzida a um montinho de cinzas, ao lado do qual, no desenho do dr. Hoffmann, choram a Mimi e a Lili, suas gatinhas. João, mais atento ao voo das andorinhas que ao chão onde pisa, vira o “João de Nariz Empinado” que um dia cai nas águas de um rio e por pouco não se afoga. O Gaspar, que não gosta de sopa, morre, previsivelmente, de inanição, e em seu túmulo o dr. Hoffmann desenhou uma sopeira. 

Que castigo dar a outro Gaspar, que, em companhia do Luís e do Guilherme, debocha de “um mouro de inimaginável pretume” a caminhar na rua? O Sábio Nicolau, que lhes passara um pito, vai mergulhar os três num tinteiro, do qual saem “muito mais negros que o mourinho”. Ainda tiveram mais sorte que o Conrado: surdo às advertências da mãe, ele segue chupando o dedo – até que venha um alfaiate com sua enorme tesoura e lhe corte os dois polegares, tudo ilustrado com cruel naturalismo.

Mas eis que João Felpudo, que em menino me roubava o sono, agora rouba a cena do cronista. Igualzinho ao que acontece toda vez que me disponho a arrumar os livros, e o primeiro que abro bota tudo a perder.

 

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