Eletro Selva

Gabi Amarantos, a rainha do indie de Belém, vai parar em uma grande gravadora

STEFANIE GASPAR , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2012 | 03h09

Gaby Amarantos começou na igreja. Aconselhada a deixar o coro católico por ser "muito expressiva" e transformar toda apresentação em performance, abandonou as odes religiosas para se focar em outro objetivo: representar a música moderna de Belém do Pará, que trouxe elementos como riffs acelerados e batidas eletrônicas para o tradicional movimento brega. A partir desse pensamento, compartilhado por outros artistas paraenses da safra dos anos 2000, nasceu o tecnobrega, ritmo que consagrou Gaby e impulsionou o sucesso de sua primeira banda, a Tecno Show.

"Na época da Tecno Show, só fazíamos versões de hits internacionais e músicas brasileiras para tocar nas rádios e nas aparelhagens (caso de Hoje Eu Tô Solteira, versão em português para Single Ladies, de Beyoncé). Nada era autoral. Além disso, era um trabalho musicalmente pobre, só comigo, um tecladista e alguns bailarinos", contou ela poucos dias antes do lançamento oficial do novo álbum, que chega às lojas esta semana.

Sob a direção de Miranda e produção de Felix Robatto, ex-guitarrista da banda paraense La Pupuña, o primeiro solo de Gaby, Treme, quer ser um trabalho que consegue equilibrar as origens populares da cantora com a ambição de ser o abre alas para uma carreira nacional. "Quero vender discos, quero que todo mundo me ouça", diz, sem pudores. "Quero ser mainstream. E é por isso que nesse disco fui além do tecnobrega. É uma junção de sons da periferia."

Para Gaby, sua música simboliza a nova geração de artistas paraenses que estão expandindo as fronteiras geográficas ao fazer com que sons regionais façam sucesso no Brasil. "A música paraense deixou de ser regional. Nossa geração faz um pós-tudo. O tecnobrega tem elementos do funk, do miami bass, da house, do techno e influências de artistas como Pet Shop Boys e New Order, tudo junto criando um caminho novo."

Em Treme, resgata seus principais sucessos de palco (como Faz o T e Xirley, homenagens às aparelhagens de Belém), homenageia suas origens bregas (Merengue Latino, de Ronaldo Silva, que Gaby descreve como techno lambada), entra no sertanejo (Coração em Pedaços, de Zezé Di Camargo e Luciano), retorna ao tecnobrega (Pimenta com Sal, com participação de Fernanda Takai), passa pelo forró (Bebadoida) e encerra com o electromelody (Galera da Laje). São quatro canções autorais: Gemendo, Faz o T, Ela Tá no Ar (com Felipe Cordeiro) e Eira, além de colaborações com Iará Rennó e Thalma de Freitas (Quando Acontece a Chuva), Dona Onete (Mestiça) e Maderito, da Gang do Eletro (Galera da Laje).

A música de Gaby surgiu nas aparelhagens de Belém, gigantescas festas populares nas quais uma música que se transforma em hit hoje daqui a alguns meses já foi substituída por várias outras. Nas festas, os DJs batalham pela atenção do público com remixes, versões autotunadas e mashups ultra rápidos, gravando os sets na hora e vendendo os CDs ripados a R$5 no fim da noite. Herdeira direta desse desvio da indústria tradicional, Gaby afirmou que não vê contradição em assinar com uma grande gravadora. "A Som Livre (da Globo) respeitou a nossa visão de mercado e concordou com nossos termos - não vamos colocar o álbum para baixar, mas disponibilizaremos várias faixas inéditas na web. Não vamos virar as costas para a indústria na qual nascemos", garantiu.

Agora com música na novela das sete (uma de suas novas faixas, Ex Mai Love, é o tema de Cheias de Charme, da Globo), DVD ao vivo prestes a ser lançado (gravado por Vincent Moon, do projeto La Blogotheque) e CD nas lojas, Gaby dá risada do futuro. "Quem diria que a nova cara da música brasileira viria da Amazônia?"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.