Epitácio Pessoa/ Estadão
Epitácio Pessoa/ Estadão

Eletricidade ao vivo com Meneses e Maria João

Violoncelista e pianista lançam o primeiro CD de uma rica parceria

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2013 | 02h16

Há músicos que, com o tempo, transformam-se em ilhas solitárias. A este grupo pertencem alguns dos maiores pianistas da história da música, pela própria natureza que o instrumento lhes impõe. Do outro lado, ficam os músicos que amadurecem necessitando cada vez mais do contato com outros parceiros, que lhes renova o gosto e a paixão de fazer música. Neste caso estão os músicos de instrumentos melódicos.

Mas sempre há transgressores. Do lado dos pianistas, os casos mais evidentes, na atualidade, são os de duas das grandes damas do piano atual: Martha Argerich, 72 anos, e Maria João Pires, de 69. Ambas privilegiam a prática da música camerística em detrimento dos recitais. Do lado dos instrumentos melódicos, sem dúvida Antonio Meneses, 56 anos, é um exemplo claro. Ele ainda faz concertos com orquestra, mas parece cada vez mais enfastiado com os ensaios apressados com orquestra.

Na música de câmara a palavra pressa não existe. Quando dois ou mais músicos reúnem-se para preparar um programa e tocá-lo em público, o gesto é o da genuína paixão pela música. E isso transparece no cada vez mais essencial duo formado por Meneses e a "João".

Em seu primeiro CD capturado ao vivo em janeiro de 2012 no Wigmore Hall, em Londres, os dois parecem se entrosar cada vez mais, criando música que combina intimidade com intensidade. A intimidade é dada pelo próprio gênero que nasceu como música praticada nas casas depois do jantar pelas famílias, no século 18 europeu; a intensidade deve-se à qualidade excepcional dos dois músicos.

No centro do repertório, estão duas peças mais longas para duo - a sonata Arpeggione de Schubert, de 1824, e a primeira sonata para piano e cello de Brahms, de 1862. São obras já gravadas centenas de vezes. No que se distinguem estas leituras ao vivo? Ora, na eletricidade do concerto ao vivo; na articulação amorosa do piano com o violoncelo; no modo como Meneses e a João evitam excessos, mas não renunciam a uma musicalidade refinada. Na Arpeggione, por exemplo, ele faz aflorar o modo sutil como Schubert trata o instrumento de seis cordas inventado nos anos 1820, afinado como um violão mas tocado com arco. Em vez de fazer da encomenda um "show-off" do arpeggione, trata-o com discrição, mas explora os arpejos e a sonoridade mais chorosa, que fica evidente mesmo quando tocada no violoncelo.

Na sonata de Brahms, Meneses obtém sonoridades comoventes, principalmente no registro grave. E a João? Cada vez mais sutil, mais visceral. Numa entrevista de anos atrás, ela me disse que se sente deslocada no século 21. Gostaria mesmo é de ter vivido no século 18, um tempo simples, onde a prática da música era algo natural, do dia a dia. Antonio, de seu lado -e principalmente depois de iluminado pela parceria de vários anos com o magnífico pianista Menahem Pressler no Beaux Arts Trio, como também me confessou em entrevista recente -, parece encontrar no reino camerístico o leito natural de sua musicalidade cada vez mais emocionante.

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