Elenco garante o bom coração

Quase bom - será que existe a categoria? E quando o filme não é bom, é médio? Deixando de lado especulações tolas, O Bom Coração, de Dagur Kani, possui qualidades que não passam despercebidas. A maior é justamente o trabalho do diretor islandês com o elenco, em especial os protagonistas: Brian Cox e Paul Dano. Eles são ótimos e, de alguma forma, o duo bate na tela como um confronto geracional - dos personagens como dos atores. O Bom Coração é belo e triste. O que prejudica é o desfecho, um tanto tolo - ou improvável?

, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2010 | 00h00

O título estabelece um duplo sentido, uma metáfora, como o espectador não tarda a descobrir. O personagem de Dano possui um bom coração, no sentido de ser intrinsecamente bom, mas ele também é saudável. Isso é importante porque Dano e Cox se conhecem no hospital, onde o outro se recupera de um ataque do coração. Cox possui um bar de alcoólicos anônimos e terminais. Para ele e seus seguidores, não existe volta. Todos têm o projeto de beber até morrer. Dano é o típico inadaptado. Passa pela vida sem um projeto, sem uma ligação consistente. Não é por acaso que vive tentando se matar.

Cox, no que pode ser uma contradição ou um paradoxo, decide salvar o garoto e o acolhe em seu bar. Talvez espere que Dano seja seu seguidor, e mantenha o negócio atuante. Ambos terminam por interagir e mudar a vida um do outro. O bar tem regras - não acolhe mulheres. Mas entra na vida de Dano e na de Cox, uma aeromoça que tem medo de voar. Ela muda tudo na ligação de ambos e até no bar. Começa com uma mudança simples, nas cores.

O diretor, pouco conhecido no Brasil, é filho de um escritor famoso em seu país. Vive na França, mas fez o filme em Nova York, com bom sentido da ambientação local. Há uma interessante galeria de personagens bizarros, os frequentadores do bar, todos mais ou menos à deriva. É um filme melancólico, e o público tende a fugir da definição "triste". Principalmente numa época dessas do ano, em que há um forte apelo sentimental. Mas o elenco vale. Um outro desfecho (qual?) talvez ajudasse mais.

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