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Sérgio Augusto
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"Elena Ferrante"

A vida é curta e ficção com mais de 300 páginas e menos de 50 anos de carreira, só com muita e confiável recomendação. Vai daí que, entre os dois maiores fenômenos literários do momento – o norueguês Karl Ove Knausgaard e a italiana Elena Ferrante –, fenomenais sobretudo porque best sellers exaltados por seus pares e pela crítica, acabei optando pela italiana. As damas na frente. A Itália também. A saga explicitamente autobiográfica de Knausgaard (em seis volumes, três já traduzidos pela Companhia das Letras, de leitura viciante, asseguram-me todos os que nela mergulharam) ficou para depois. Um vício de cada vez. 

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 02h00

Embora Ferrante publique livros há 24 anos (sete ao todo até hoje), só me interessei por ela em 2013, quando James Wood teceu-lhe loas num longo artigo para a revista The New Yorker, com um título almodovariano, “Women on the Verge”, pois mulheres à beira de um ataque de nervos é o que não falta nos romances dela. Alimentando a curiosidade, o mistério que a escritora criou em torno de sua verdadeira identidade, mantida em inescrutável segredo. 

Todos conheciam a verdadeira face e o verdadeiro nome de Stendhal, Mark Twain, Lewis Carroll, Malba Tahan e dezenas de outros pseudônimos famosos. De Elena Ferrante, nem um velho retrato desbotado como o de Thomas Pynchon já se viu. Mais que arredia ou reclusa, como Salinger e Trevisan, sempre foi e pretende continuar sendo uma absoluta incógnita, como B. Traven, autor de O Tesouro de Sierra Madre, cuja identidade só foi revelada muito depois de sua morte pelo cinegrafista mexicano Gabriel Figueroa.

Já fizeram de tudo para descobrir quem afinal é “Elena Ferrante”, segredo compartilhado por meia dúzia de íntimos, entre os quais Sandro Ferri, dono da Edizioni E/O e única interface dela com a mídia. Assim tem sido desde sua primeira obra de ficção, L’Amore Molesto, publicada em 1991 e adaptada ao cinema por Mario Mertone, quatro anos depois. “Já fiz o suficiente por esta história, escrevi-a”, justificou-se por carta à editora. Nada de palestras, lançamentos, debates, premiações, impôs no parágrafo seguinte. Livros, depois de escritos, dispensam seus autores, acrescentou. 

O que dela se sabe foi ela própria quem revelou, em esparsas e comedidas entrevistas por escrito. Nasceu (em 1943) e cresceu em Nápoles, morou algum tempo na Grécia, formou-se em literatura clássica, pode ser mãe, até avó, e parece estar sozinha atualmente. Vive de ler, traduzir e ensinar. É em Nápoles, confluência de diversos mundos, o grego, o latino, o oriente, a Europa medieval, moderna e contemporânea, que suas histórias – austeras, límpidas, francas, lúcidas – brotam, se desenrolam ou terminam. 

Nega que só use o anonimato para ocultar a natureza autobiográfica de seus romances, mas admite um “desejo neurótico de intangibilidade”, fundamental para o seu jeito de criar. Escrever protegida pelo anonimato não só lhe assegura liberdade total como obriga o leitor a permanecer focalizado única e exclusivamente em sua obra, não em sua figura, em sua persona pública, para comparações devidas e indevidas. Isenta de badalos, tornou-se a autora mais barata – e com a maior margem de lucro – do mercado editorial. 

Um jornalista do jornal L’Unità, que deve achar que escrever bem e encarar uma saga seja um privilégio masculino, apontou o escritor Domenico Starnone como o autor dos romances assinados por “Elena Ferrante”. Starnone negou com veemência, até para não passar por “um idiota que dispensou as glórias de uma consagração literária sem precedentes na Itália dos últimos 50 anos ou mais”. A prosa de Ferrante, sempre narrada por uma mulher, é indisfarçavelmente feminina, antípoda perfeito da literatura fofinha e sensível entre aspas, e tão próxima de Elsa Morante (sua musa inspiradora) quanto de Lydia Davis, por sinal, uma de suas inúmeras admiradores nas letras anglo-americanas. É notável a influência de A História, crônica ficcional da Itália do pós-guerra contada por Morante a partir dos movimentos da vida cotidiana, sobre a tetralogia napolitana que Ferrante começou a publicar em 2011 e ano passado chegou ao fim, com Storia della Bambina Perduta

Dessa tetralogia, que cobre 60 anos da vida de duas amigas e da história da Itália entre 1944 e nossos dias, só o primeiro volume foi aqui traduzido pela Editora Globo, Minha Amiga Genial (331 págs., R$ 32,60). Não posso opinar pela qualidade da tradução, já que, estimulado por James Wood e pelos elogios unânimes à tradução para o inglês de Ann Goldstein, baixei Ferrante no kindle, com o selo da Europa Editions. 

Assustei-me, à primeira vista, com o elenco de personagens listados na abertura de L’Amica Geniale: Infanzia, Adolescenza como num programa de teatro: a família Cerullo (e seus cinco membros), a família Greco (e seus quatro integrantes), nove famílias ao todo, mais alguns professores e Gino, o filho do farmacêutico. Imaginei-me consultando constantemente as primeiras páginas, para situar esse ou aquele personagem. Em bom italiano: non è bisogno. Na narrativa escorreita e hipnótica de Ferrante, há sempre um providencial e nada intrusivo aposto a esclarecer quem é quem. 

Lenuccia ou Lenù, nascida Elena Greco, filha de um contínuo da prefeitura municipal, é a “amiga brilhante” de Lina ou Lila, nascida Rafaella Cerullo, sua vizinha de cima, filha de um sapateiro. Brilhante porque teve mais condições financeiras de largar a Nápoles pobre, primitiva, patriarcalista, violenta, dialetal e infecta do final dos anos 1950, para estudar longe dali e até virar escritora. Na verdade, quem mais brilha, fascina e desconcerta no primeiro dos quatro volumes da saga é Lila. Elena, evidente alter ego de Ferrante, é quem narra os vaivéns dessa complexa amizade, que depois continuaria em Storia del Nuovo Cognome (2012) e em mais duas histórias. 

Minha Ferrante favorita talvez seja I Giorni dell’Abbandono, seu segundo romance, de 2002; The Days of Abandonment, na versão em inglês. Começa numa tarde de abril, em Turim, quando Olga, uma mulher de 38 anos, é subitamente abandonada pelo marido, que a troca por uma jovem 20 anos mais nova. O que se segue é uma pequena tragédia burguesa desbragadamente feminista, ao longo da qual Olga se abastece de indignação e ódio para escrever histórias sobre mulheres de fibra, intensas, ricas espiritualmente, cientes dos seus direitos, mas objetos de rupturas inesperadas e sujeitas a vários tipos de subserviência. 

“Conheço-as bem e isso afeta o modo como escrevo”, revelou Ferrante a seu editor. Se acaso descobrirem que ela é um homem, ninguém ficará mais surpreso do que eu. 

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