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Elegia o gênio

Documentário de Chris Marker resgata o legado de Alexandre Medvedkine

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

25 de setembro de 2011 | 03h09

Para falar sobre Elegia a Alexandre, o melhor é dar voz ao próprio diretor Chris Marker. Ele, o cinéfilo brasileiro, com certeza, sabe quem é. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard diz que Marker foi um dos grandes renovadores do curta e do documentário, na França. Seus filmes sobre Pequim, a Sibéria e Cuba tornaram-se clássicos, embora colados demais à realidade, exatamente o contrário de uma obra de ficção (científica) tão bem feita quanto La Jetée, de 1962. Já o Alexandre talvez necessite de apresentação.

Alexander Ivanovitch Medvedkine permanece um dos mais secretos autores do cinema. Veja o que diz Chris Marker, na apresentação de Elegia. No original, o filme chama-se Le Tombeau d'Alexandre, O Túmulo de Alexandre, no sentido de monumento. "Foi um cineasta russo nascido em 1900. Aquelas marcas que os pais fazem no batente das portas para medir o crescimento dos filhos, o século as fez em sua vida: tinha 17 anos na época da insurreição de outubro; aos 20 anos, na guerra civil, estava na cavalaria vermelha com lsaac Babel; tinha 38 anos no período dos processos stalinistas, quando seu melhor filme, A Felicidade, foi acusado de bulcharinismo; aos 41, durante a guerra, estava na linha de frente, empunhando uma câmera, e quando morreu, em 1989, em meio à euforia da Perestroika, estava convencido de que a causa do comunismo, à qual havia consagrado a vida, encontrava ali seu desfecho."

E Marker prossegue: "Nada mal como fio condutor para explorar a tragédia do nosso século. Sua energia, a coragem, as ilusões, desilusões, os comprometimentos, as brigas com os burocratas, as iluminações proféticas, a cegueira, voluntária ou não, o humor inabalável e a luz devastadora que a ruína da URSS lança retrospectivamente sobre toda a sua vida são as mesmas de toda uma geração, e foi o retrato dessa geração que tentei pintar através do retrato de um amigo". Pode ser que, melhor que assistir a Elegia a Alexandre, talvez fosse descobrir A Felicidade. Pois, se há um culto a Medvedkine, passa por esse filme de 1934. O que Alexander Ivanovitch fez antes se perdeu, ou foi destruído pela censura do stalinismo, com quem viveu à turras. O documentário é belo e o personagem que resgata, magnífico.

Logo após o triunfo da revolução de 1917, Medvedkine, fervoroso adepto do socialismo, inventou o cine-trem. Lembram-se de Pacha, o jovem revolucionário, que virava o brutal Skolnikov em Doutor Jivago, de David Lean? Skolnikov percorria a União das Repúblicas Socialistas a bordo de seu trem blindado, espalhando o terror em nome da revolução. O trem de Medvedkine era outra coisa. De certa forma, ele colocou o cinema da URSS nos trilhos. No trem equipado com câmera, laboratório e sistema de projeção, Medvedkine englobava o processo completo de realização e distribuição de um filme. Nas paradas, falava com as pessoas, ouvia suas críticas, fazia os filmes com elas e fazia avançar a revolução.

Foi um sonhador, que acreditava no comunismo como o estágio supremo do bem-estar social, uma espécie de nirvana terrestre (e racional). A Felicidade é isso, uma das grandes obras da era de ouro do cinema soviético, e não apenas desse. Uma obra-prima como O Encouraçado Potemkin, de Sergei M. Eisenstein; Terra, de Alexandre Dovjenko; A Mãe, de V. I. Pudovkin; e Um Homem com a Câmera, de Dziga Vertov. Este último conta a história da película, desde a entrada na câmera até a projeção sobre a tela. Vertov transformava a vida ao vivo em sinfonia visual. Não há como fugir ao cine-trem de Medvedkine. Mas Tulard tem razão - se Vertov se superou como autor experimental, a parte lírica de seu cinema envelheceu bastante. Ambos foram vítimas da burocracia stalinista, mas o lirismo de Medvedkine permaneceu intacto, como o de Dovjenko - Terra é o mais belo poema revolucionário do cinema, independentemente daquilo em que se transformou a revolução de 1917.

Algumas das mais belas imagens de Elegia a Alexandre mostram a euforia de jovens estudantes de cinema, na Rússia moderna, pós-comunista, descobrindo A Felicidade. O lançamento é caprichado, pródigo em extras (a história do cine-trem, reconstituição de filmes perdidos, comparações entre Medvedkine e Dziga-Vertov). Medvedkine pode ter perdido a sua batalha pessoal pelo comunismo. Mas a do cinema, ele venceu. Elegia é a prova.

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