Elegante como o pretinho básico

Sam Wasson faz novas revelações sobre o clássico Bonequinha de Luxo

Janet Maslin, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Em 1961, a Paramount Pictures tentou uma façanha: explicar por que Holly Golightly - a adorável heroína de Bonequinha de Luxo, uma mulher que ficava acordada a noite toda e cobrava por seus serviços US$ 50 de cavalheiros amigos - era na realidade uma criatura sem mácula. Essa e mais algumas contradições que cercaram o filme estão no livro de Sam Wasson, Fifth Avenue, 5 A.M. (Harper Studio, 231 págs., US$ 19,99). Entre elas se incluem os artifícios usados para manter a obra superficial, a sua bizarra mensagem feminista e o lugar inusitado ocupado por este duende, com seu traje de noite e seu bolinho das 5 da tarde na Quinta Avenida, na história do cinema americano.

Depois de lançar o livro A Splurch in the Kisser sobre Blake Edwards (o diretor de Bonequinha de Luxo), Wasson estava apto a escrever esta carta de amor a um dos projetos mais atípicos de Edwards. Conhecido na época por seu elegante estilo televisivo, o diretor acabou usando o gênero da comédia absurda exagerada, pelo qual seria aplaudido (os filmes da série Pantera Cor de Rosa) e vaiado (A Festa), para mascarar o que acontecia de fato até mesmo nesta versão insípida da história de Truman Capote.

Mas até essa trama virar filme muita coisa aconteceu. Ao ler o roteiro, o funcionário da Paramount decretou: "Não recomendado." O papel de Holly Golightly, com seu apelo sexual, foi considerado ofensivo para Marilyn Monroe. ("Ela não fará o papel de uma dama da noite", garantiu sua professora de interpretação, Paula Strasberg.) Em uma decisão ainda mais desajeitada, o diretor de produção da Paramount disse que Henry Mancini não estava à altura da tarefa de compor o tema do filme. Mas Mancini e o letrista Johnny Merce conseguiram pôr Moon River na trilha e ainda levaram o Oscar.

A obra de Wasson é tão bem-costurada quanto o pretinho básico que Bonequinha de Luxo tornou famoso. Aliás, há muito o que dizer sobre a influência do modelito. O público acostumado aos vestidinhos coloridos e comportados de jovens tipo Doris Day teve uma enorme surpresa, uma descoberta chique, quando Holly apareceu com sua elegante simplicidade.

Dor de cabeça. A atriz era fabulosa e a Paramount enfrentou muita dor de cabeça para tentar reduzir o impacto do filme nos seus fãs, acostumados à estrela com carinha de adolescente em papéis ingênuos, que veriam sua estrela na tela com um comportamento ousado para a época.

Sempre discreta e distante de escândalos, Audrey amadureceu depois de Sabrina, alvo de batalha entre o diretor Billy Wilder e o roteirista Ernest Lehman sobre se o romance entre os personagens de Hepburn e de Humphrey Bogart seria consumado.

Com certeza, em Bonequinha de Luxo a castidade não era uma opção. Tanto Holly quanto o seu parceiro vivido por George Peppard seriam, na melhor das hipóteses, absurdamente românticos. Ambos eram pagos por seus serviços e nenhum dos dois poderia ser considerado uma criança perdida na floresta. Portanto, a história acabaria numa única cena se seu enredo girasse só em torno da sedução.

Teria de tratar de duas pessoas que ansiavam por um novo tipo de realização pessoal, e isso tornou Bonequinha de luxo um novo tipo de comédia romântica, afirma Wasson: "Não é a história de duas pessoas dos anos 50 que evitam sexo antes do casamento, mas de pessoas modernas que, ao contrário, o adotam."

Além desses aspectos principais, Fifth Avenue, 5 A.M. está repleto de episódios irresistíveis. Edwards caiu realmente de joelhos para pedir aos produtores do filme que não escalassem George Peppard no principal papel masculino. Mel Ferrer, marido de Hepburn, com sua falta de entusiasmo teve um efeito um tanto deprimente para a produção em geral e sua mulher em particular. Depois de uma pré-estreia do filme com o qual ela se tornaria mais famosa ainda, ele teria observado: "Gostei do seu chapéu".

Apesar de todas as associações românticas com a cidade de Nova York, Bonequinha de Luxo precisou de apenas uma semana de filmagens em locação. A maior parte foi rodada na Califórnia, onde Hepburn - que na época havia acabado de dar à luz, apesar de sua silhueta de sílfide - morava. Segundo Wasson, "Audrey não se separava do tricô". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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