ELEGÂNCIA DE UM ESTILO

O letrista Stephen Sondheim lança novo livro em que comenta as próprias canções

CHARLES ISHERWOOD , THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h08

"Mas, então, conheci James Lapine." É assim, num momento de suspense digno de um artista que nutre uma paixão pelos contos de mistério, que termina o primeiro volume das letras reunidas de Stephen Sondheim, publicado no ano passado e já muito folheado e debatido pela legião de apaixonados admiradores deste compositor e letrista - fãs cuja obsessiva dedicação fica atrás somente daquela demonstrada pelos Wagnerianos.

O segundo volume, Look, I Made a Hat, nos leva confortavelmente à conclusão do suspense, com a abertura de novas e intrigantes perspectivas para Sondheim, que descreve sua colaboração com Lapine como uma renovação artística vital após a turbulenta gestação de Merrily We Roll Along e o breve período que o musical esteve em cartaz na Broadway. As letras dos três musicais compostos por Sondheim em parceria com Lapine - Sunday in the Park with George (ganhador do prêmio Pulitzer), Into the Woods e Passion - consistem na formidável (e mais pesada) primeira metade do novo livro, junto com o igualmente significativo Assassins, escrito com John Weidman.

Apesar de ele confessar uma poderosa predileção pela composição de pastiches - canções que evocam intencionalmente estilos musicais anteriores -, as obras posteriores de Sondheim ilustram de maneira mais contundente o contínuo alcance de sua imaginação musical e lírica. Cada um destes quatro musicais é tão diferente dos demais quanto se poderia imaginar, e cada um deles exigiu de Sondheim que mergulhasse numa arriscada nova direção, mesmo quando, como no caso de Assassins, ele estava intencionalmente empregando formatos musicais conhecidos para atingir fins radicalmente diferentes.

Observação. Sondheim, que em ambos os livros transmite a impressão de analisar a si mesmo sem se perder em fantasias, faz uma reveladora observação a respeito da evolução do seu estilo de escrita sob a influência de Lapine. "Quando analiso retrospectivamente com o máximo de objetividade os espetáculos que compus antes de James e os comparo a Sunday in the Park with George e aos demais musicais que compus com ele", diz o autor, "me parece claro que o primeiro conjunto apresenta uma certa qualidade de distanciamento, enquanto o segundo grupo é informado por uma corrente de vulnerabilidade e ansiedade".

A inquieta angústia de Company, a visão gótica da iniquidade humana em Sweeney Todd e a desilusão explorada em Merrily We Roll Along não são exatamente transformadas no otimismo típico das manhãs ensolaradas visto no mentor de Sondheim, Oscar Hammerstein II. Mas, nos espetáculos posteriores, Sondheim de fato explora a humanidade dos personagens a respeito dos quais escreve, descobrindo até nos distorcidos corações dos assassinos presidenciais um idealismo e um desejo - por mais perdidos que sejam - que conferem a estes musicais uma ressonância emocional maior do que aquela vista nas obras dele compostas nos anos 70. É difícil imaginar algum dos personagens centrais de Follies, confinados em seus sufocantes casamentos, concordando com a ideia de que ninguém está sozinho (na canção No One is Alone), um sentimento culminante expressado em Into the Woods.

Talvez mais importante para os leitores do novo volume, um dos princípios há muito venerados por Sondheim ("O conteúdo dita a forma") levou a mudanças radicais no formato dos musicais posteriores. Lapine veio do clima mais aventureiro do circuito Off Broadway, no qual o regime da dramaturgia tradicional e da construção musical e teatral exerciam pouca influência, e os espetáculos compilados em Look, I Made a Hat dependem menos de divisões claras entre canção e diálogo (com a possível exceção de Assassins).

Muitas passagens consistem essencialmente em cenas inteiras interpretadas ao som da música, com letras que dependem menos de rimas que ficam na memória. Ler as letras sem o acompanhamento musical traz novos prazeres, mas também algumas desvantagens, é claro. Como destaca Sondheim, Passion praticamente exclui as formas tradicionais de canção, algo que "torna as letras menos estimulantes à leitura do que outras".

Mas é também verdadeiro que o contínuo fluxo musical - Sondheim escreve que imaginou o espetáculo como "uma longa e entusiasmada canção de amor" - significa que podemos de fato ler as letras (e o diálogo intercalado entre elas) como um "conto versificado".

Como ocorre em Finishing the Hat, o primeiro volume, boa parte da emoção de Look, I Made a Hat não deriva das letras em si, e sim dos novos textos: as detalhadas notas introdutórias descrevendo a gestação dos musicais; as explicações da criação (ou, em muitos casos, da eliminação) de determinadas canções; as revelações incidentais, como esta franca confissão de Sondheim: "Não me sinto tão arrebatado pela voz humana quanto gostaria de me sentir".

A parte mais incendiária do material do livro anterior - quero dizer, para aqueles que são fãs devotados dos musicais no teatro - estava na rigorosa e eloquente análise feita por Sondheim das qualidades e defeitos dos letristas da chamada Era Dourada do gênero. No novo livro, temos de nos contentar com avaliações mais breves de "autores azarões", letristas que ele gostaria que compusessem tanto para o teatro quanto o faziam para os filmes e as paradas de sucesso; e a "prodígios de um único sucesso" como Richard Wilbur e DuBose Heyward. A reverência de Sondheim diante das contribuições de Heyward para Porgy and Bess ficou clara na sua recente crítica às revisões consideradas para a próxima encenação da peça na Broadway.

Há também reflexões mais demoradas voltadas para a crítica teatral (algo a que ele lamenta não ter se dedicado mais) e a prática menos grandiosa das resenhas teatrais (que ele lamenta serem um mal necessário); o absurdo da distribuição irresponsável de premiações, que não contradiz os prazeres envolvidos em recebê-las; e os usos e abusos dos revivals, entre outros temas. Todas são ricas em termos de percepções e redação cuidadosa, como no caso da sua opinião franca a respeito do mérito de colecionar glórias: "As premiações têm três coisas a oferecer: dinheiro, confiança e quinquilharias".

O novo livro é, em resumo, mais variado do que o primeiro. Mas, mesmo assim, merece ser valorizado. Talvez Sondheim não se sinta tão arrebatado pela voz humana, na opinião dele, mas, como estes livros ilustram tão bem, ele se sente profundamente arrebatado pela vivência humana em toda a sua complexidade e complicação, e pela sua expressão por meio da forma de arte sobre a qual ele demonstra ter um talento tão genial. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.