Electro funk vezes dois

Dave 1 e a assimilação dos anos 80 no som do Chromeo

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2012 | 03h12

No que diz respeito aos nomes conhecidos, que garantem a receita, há boas opções escaladas para o festival Sónar deste fim de semana. Além de Kraftwerk e Justice, também tocam, entre hoje e amanhã no Parque Anhembi, Cee Lo Green e o duo canadense Chromeo. Herdeiros de uma estética kitsch calcada em electro oitentista, o Chromeo mescla pulsações com análises românticas que vão do confessional ao cafona, em suas canções. Há faixas sobre brigas (My Girl Is Calling Me) e outras sobre questões edipianas (Momma's Boy).

"Há um senso de humor quase pós-moderno em nossa forma de encarar as letras. Fazemos isso ao mesmo tempo em que nos baseamos em coisas dos anos 80. Ouvia muito Darryl Hall & John Oats, Prince, A-Ha e Phil Collins quando criança. Acho que vem daí", reflete Dave Macklovitch, ou Dave 1, o crooner da dupla. Dave, de descendência judaica, é melhor amigo do libanês P-Thugg. Os dois já brincaram em entrevista que o Chromeo é a única parceria de sucesso entre um árabe e um judeu na história da humanidade.

Os dois estiveram por aqui em 2010, para apresentaram-se numa festa patrocinada por uma marca de carros. Tocaram por menos de uma hora mas deixaram claro que, embora baseados em uma fórmula pop sem muitas nuances (o Chromeo trabalha com influências óbvias dos anos 80 - aquelas que sugerem ombreiras e brincos gigantes num piscar de olhos), o duo costura faixas para formar um set no qual é difícil manter-se inerte.

Na época da passagem vapt-vupt pelo País (Dave lamenta não ter feito um show aberto na ocasião), a dupla acabava de lançar o terceiro disco, Business Casual. Ainda é o mais recente trabalho dos dois, e a preferência por pop nostálgico central ao Chromeo é lapidada pela produção de Phillipe Zdar, colaborador de Phoenix, Rapture e Kindness, entre outros nomes que trilham as encruzilhadas entre o pop e a música de pista. O refinamento zdariano de Business Casual sugere o Daft Punk de faixas como Face to Face e Something About Us, do disco Discovery.

"É curioso que você tenha mencionado isso. Quando começamos, em 2002, nem tínhamos ouvido falar de Daft Punk", conta. Dave estreou no jogo da produção aos 20, arquitetando beats de hip hop para rappers de Montreal, cidade em que cresceu. "Levei isso a sério por alguns anos. Tinha uma loja de discos em parceria com o produtor Tiga (famoso por seu disco 'Sexor', de 2007). Ele gostava dos meus beats e me convidou para lançar um projeto pelo seu selo Turbo Recordings", conta. "Eu não sabia nada de música eletrônica, e pensei em chamar meu melhor amigo, P-Thugg. Então aprendemos algumas coisas sobre dance music e a música evoluiu a partir daí", completa.Mesmo assim moldar influências em algo original não é tão simples quanto parece. A estratégia de Dave é fazer "tudo menos a cópia direta. Se você senta ao computador para copiar um timbre de piano de Prince, a música não sai sincera. Eu e P nos submergimos completamente no tipo de música que tentamos produzir. Ouvimos tanto que o estilo acaba se registrando em nossa música por osmose. Também compramos pilhas de vinil em todas as cidades pelas quais passamos", diz.

O Chromeo toca hoje, às 2 da matina, no palco Sónar Club. Mais cedo, o Kraftwerk faz seu show em 3D, com clássicos de sua discografia, resumindo os oito shows que a banda fez recentemente no MoMA, em Nova York. Antes disso, o mesmo palco recebe o produtor escocês Hudson Mohawke e um live set de James Blake. Gui Boratto, o único brasileiro a se apresentar no palco principal, também toca.

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