''Ele suspeita da mediocridade''

Conheci João Gilberto em 1955, no Bar do Plaza, onde tocava Johnny Alf, e isso quando ele namorava Silvinha Teles. Seguidamente me chamava para uma área nos fundos do bar e, como sempre carregava um violão, me exibia uma maneira diferente de tocar músicas de Dorival Caymmi como Doralice.

Carlos Lyra / compositor, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Dava pra perceber que havia aprendido pela escola espanhola de Tárrega, onde o punho fazia um ângulo reto com o antebraço e o dedo polegar da mão direita se projetava para o lado esquerdo da mão. Só que, naquela época, ele postava a mão ao contrário, de forma que o indicador da mão direita pulsava a corda prima mi e o dedo mínimo da mão direita, por sua vez, pulsava o baixo ré, enquanto que o polegar funcionava como um contrabaixo. A batida já era aquela conhecida da bossa nova e o efeito resultava, no mínimo, insólito. Aquele esforço gerou uma espécie de neuropatia na mão que o obrigou a diversos tratamentos para controlar a dor, o que acabou por levá-lo a reinverter a posição da mão e a tocar na forma tradicional. Ao cantar, às vezes, escolhia também canções do estilo antigo como a que diz "eu sonhei que tu estavas tão linda?", de Lamartine Babo.

Muito antes de ele se tornar conhecido, João e eu nos tornamos amigos e, não raro, caminhávamos pelas ruas de Copacabana, às vezes pela praia, onde, do Posto Seis ao Leme, ele se exercitava assoviando ou emitindo uma nota, cantada com som de trompa, que mantinha por um longo tempo, prendendo a respiração durante o percurso. Conseguia, com isso, projetar o som para longe. Usava esse recurso para assoviar minha canção Maria Ninguém embaixo da janela de minha casa, no que minha mãe prontamente o recolhia e, mesmo quando eu ainda não havia chegado, o contemplava com um dos meus pijamas mais um colchãozinho pra dormir, lhe oferecia um chazinho e o abrigava até o meu retorno.

A partir de 1959 vieram as gravações do Chega de Saudade, etc. A personalidade de João sempre foi um tanto excêntrica e desconcertante. Isso tudo devido, possivelmente, ao perfeccionismo e profissionalismo exacerbados. Jamais admitia concessões e, talvez por essa razão, quando da gravação de seu segundo LP, ao escolher uma de minhas canções com Ronaldo Bôscoli, Não Faz Assim, tivemos um certo desentendimento.

Por essa época, estando eu afastado de Ronaldo por razões éticas e profissionais, sugeri que João gravasse a referida canção com outra letra, de minha autoria. João se mostrou irredutível. E eu também. Resultou que a música não foi gravada, mas imagino que o cantor, que levava horas, dias, ensaiando uma música, não poderia aceitar a troca. Eu, por minha vez, também possuía critérios éticos e estéticos definidos. E é por tal razão que (a exemplo de João) sempre me recusei a participar de festivais da canção. Isso por entender que arte, não sendo esporte, não compete.

João, com seu repertório, confirma aquilo que também sempre levei em conta: bossa nova não é só samba. Pode ser também samba-canção (as primeiras músicas de bossa nova eram sambas-canção), bolero, marchinha, marcha-rancho, toada, baião, valsa, chorinho e mais toda uma gama de ritmos brasileiros. No repertório de João estão vários sambas-canção: Caminhos Cruzados, Manhã de Carnaval, etc; boleros: Besame Mucho, Farolito; marchinha: Trevo de Quatro Folhas; toada: Maria Ninguém; baião: Baiãozinho (de autoria dele) e outras tantas.

Esse artista suspeita, profundamente, da mediocridade e dos interesses musicais escusos, não raro, manifestando esses sentimentos de viva voz. De uma feita, na casa de Nara Leão, me arrastou pelo braço até a janela e, apontando para as pessoas passando lá embaixo, na rua, me confidenciou: "Olha lá Charles, não adianta nada, eles são muitos...".

Essa personalidade curiosa gerou muita mística e numerosas lendas, que ele, na verdade, nunca endossou ou confirmou. A mim também pouco importam as lendas e a mística que, aliás, em contrapartida à personalidade reclusa que se recusa a frequentar festas e a dar entrevistas, servem-na, merecidamente, de marketing e publicidade. O que, afinal, mais me interessa e impressiona nesse excelente intérprete é, exatamente, a enorme capacidade estético-musical, o esmero profissional e a absoluta integridade artística.

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