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'Ele retratava as pessoas em horas extremas'

Christiane Kubrick, viúva do cineasta, está em São Paulo e comenta a exposição em homenagem a seu marido

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2013 | 02h06

Até a semana passada, Christiane Kubrick, viúva do diretor Stanley Kubrick, nunca havia visitado uma cidade da América do Sul. "Mas em apenas dois dias eu já estou vendo tanta coisa nova e interessante. Acabei de voltar do Mercado Municipal. E adorei ver como as árvores brotam com força do chão, como se a selva quisesse a vencer o concreto", comentou em conversa com o Estado. "É cinematográfica a natureza aqui. Majestosa."

Para a alemã, que foi atriz (conheceu Kubrick no set de Glória Feita de Sangue, em 1957), majestoso também foi o almoço no Mercadão. "Foi sanduíche de mortadela. Sinto como se nunca mais fosse sentir fome", brincou ela, que veio à cidade para a inauguração da exposição Stanley Kubrick, que foi aberta na última quinta e permanece em cartaz até janeiro de 2014 no Museu da Imagem e do Som (MIS).

Esta mostra, com mais de500 itens, foi inicialmente realizada pelo Deutsches Filmmuseum de Frankfurt, com curadoria de Hans-Peter Reichmann, e colaboração de Christiane.

Além da viúva do cineasta, o produtor e irmão de Christiane, Jan Harlan e Reichmann também estiveram na recepção para convidados, que reuniu ainda o diretor do MIS e idealizador da versão brasileira da mostra, André Sturm, a diretora da Mostra de Cinema de São Paulo, Renata de Almeida, e personalidades.

Desde sua estreia, em 2004, a exposição já passou por cidades como Berlin, Melbourne, Zurique, Roma, Paris e Los Angeles, sua última parada antes de São Paulo. Em cada cidade, ainda que a concepção original fosse mantida, uma leitura diferente dava conta de diversos aspectos da obra do cineasta.

Em Los Angeles, a curadoria agrupou os objetos de acordo com os anos de realização dos filmes e temas (sexo, violência, amor, ciência) e destacou o diálogo entre seus filmes (e seus símbolos) e as artes visuais.

Já em São Paulo, é a sensação que cada um dos grandes filmes de Kubrick provoca que ganha o primeiro plano. Ao percorrer os ambientes, sente-se a atmosfera de cada uma das tramas. "Ele era um diretor que retratava seus personagens em situações extremas. Queremos fazer com que o visitante sinta isso", explicou Sturm. "Esta não é uma atração só para os mega cinéfilos, mas sim para um público que quer entender melhor sua obra e o próprio cinema", completou o diretor do MIS, que contou com a parceira da Mostra para conceber a exibição e também outra grande atração: a retrospectiva completa da obra kubrickiana restaurada. Até quinta, o MIS vai exibir clássicos como Nascido para Matar, Barry Lyndon, Spartacus, Laranja Mecânica, Lolita.

"Quem vir os filmes, vai poder sair da sala de cinema e ter a chance rara de conferir as relíquias que ajudaram Stanley a contar as histórias, como a máquina de escrever de O Iluminado, as máscaras de De Olhos Bem Fechados, a bengala de Laranja Mecânica, os objetos de 2001", comentou Christiane. A atração é um aperitivo da 37ª Mostra, que começa na quinta e homenageia o cineasta este ano. Além da retrospectiva continuar durante o evento, será lançado o livro Conversas com Kubrick, de Michel Ciment (Cosac Naify).

Não por acaso, Christiane é convidada de honra da Mostra este ano. Pintora de longa data (alguns de seus quadros estiveram presentes em cenas de filmes do marido), ela foi convidada a criar o cartaz da 37ª Mostra, que também inspira a vinheta. "Fiquei muito feliz com o convite. O quadro original se chama Ensaio na Chuva e o pintei quando Barry Lyndon estava sendo filmado, nos anos 1970", conta.

E o que Kubrick pensaria da exposição no MIS? "Assim como eu, ele iria adorar. É muito original, muito sensível e a gente realmente sente a magia dos filmes quando caminha pelos ambientes criados. É fascinante como tiveram uma ideia totalmente nova sobre o universo dos filmes", disse. "Stanley não foi muito reconhecido em vida. Estou feliz. Ele também estaria."

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