''Ele queria uma autobiografia sincera''

Rober Hirst, diretor do Mark Twain Project, diz que manuscrito foi encontrado fora de ordem e faltando várias páginas

Lúcia Guimarães / Nova York, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Leia trechos da entrevista concedida por Robert Hirst, que fala sobre o trabalho com o manuscrito da autobiografia de Twain e da relação do escritor com os leitores.

O senhor e a sua equipe passaram anos debruçados sobre o manuscrito. Houve um momento de eureka, quando entenderam que tinham uma autobiografia completa?

Foram dois dias até compreendermos a importância do achado. O manuscrito chegou às nossas mãos num desarranjo, faltavam páginas. Quando examinamos páginas datilografadas em 1906, com título, ordem de capítulos, vários prefácios, concluímos que estávamos diante de uma obra a ser resgatada e seguimos o plano de Twain.

Porque Twain decidiu exigir um período de cem anos de espera para a publicação?

Ele não queria cair no ostracismo, sabia que algumas opiniões não seriam aceitas. E não queria criar problemas para as filhas.

Como trechos da autobiografia foram publicados ao longo dos anos, o senhor vê no, primeiro volume, alguma grande surpresa?

Não acredito que a edição vá conter revelações bombásticas, a não ser pela franqueza da linguagem, especialmente em relação a religião. Twain era contra o cristianismo. Condenava a hipocrisia e a ganância da religião organizada em geral. Imagine se estivesse vivo... Não há nenhuma omissão das palavras do Twain no processo de edição.

Por que um homem que gostava de falar em público e não se esforçava para esconder detalhes de sua vida agonizou tanto para escrever sua autobiografia?

Desde 1876, ele já estava preocupado com o assunto. Queria que a autobiografia fosse abrangente e sincera. Até 1904, começou e parou várias vezes. Mas ao começar a trabalhar com Isabel Lyon, secretária de sua mulher, o projeto tomou impulso. Ele ditava e não se preocupava em editar mentalmente, foi uma liberação. Acho que o sucesso deste sistema se deve também ao fato de Isabel ter sido uma plateia. Para um homem que adorava se apresentar, isso foi um estímulo.

Quando lê ou ouve o que dizem os candidatos do Tea Party hoje, o senhor resiste a imaginar o que diria Mark Twain?

Acho que ele iria engajá-los em alguma forma de debate. Mas devemos nos lembrar que ele sempre ficou de olho em seu público. Havia um tipo de crítica agressiva que ele preferia não publicar porque não queria ofender seu público e também porque temia perder seu sustento. Eu me chateio quando acadêmicos o acusam de covardia porque é uma injustiça. O Twain sabia a diferença entre expressar uma opinião e publicar um livro. Escreveu o famoso ensaio United States of Lyncherdom, depois de ler sobre uma onda de linchamentos de negros no Mississippi. Pensou em expandir o trabalho na introdução de um livro mas não o fez. Sabia que ficaria completamente alienado de todo o público do sul americano.

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