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Ignácio de Loyola Brandão
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Ele queria felicidade

Eu te vi, Gullar, certa vez, chegando à Flip como se fosse um super star

Ignácio de Loyola de Brandão, O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2016 | 02h00

A primeira notícia de domingo veio logo de manhã, em um e-mail enviado de Goiatuba, Goiás, por meu irmão João Bosco: Ferreira Gullar morreu. Não abri os jornais colocados na porta, nenhuma outra informação do dia me interessaria. Muito mais tarde, abri a Folha e recortei a última crônica do poeta, sobre Marx, os deserdados de Marx, os desorientados de Marx. 

Lamento ter conhecido Gullar pessoalmente muito tarde. Achava curioso seu pavor de avião, eu que não saio do ar. Muitos perderam sua presença, sua palavra, seu carisma, devido a este medo. No final, morreu na cama. Admirei seu último pedido à companheira Cláudia Ahimsa: “Não deixe me colocarem em aparelhos. Não prolonguem meu sofrimento, que me deixem morrer em paz”. Dignidade e nenhum medo da morte, que ele viu se aproximar. Quantos têm essa coragem?

Eu te vi, Gullar, certa vez, chegando à Flip como se fosse um super star, as pessoas enlouquecidas se atirando sobre você. Em busca de quê? Só podia ser da poesia. Como podia você, um homem magro, quase descarnado, cabelos escorridos, rosto arcado por todas as vicissitudes, se tornar bonito, transparente, atraente? 

De onde vinha esse teu charme? Aquela luz como um halo à sua volta no palco, subjugando aquela plateia exigente, talvez elitista, blasé, da Flip? Da poesia. Lembro-me de que, a certa altura, veio do público a pergunta “complexa” de um erudito de ocasião, um daqueles “sábios” que usam a plateia do outro para tentar brilhar, daquelas enrolações cheias de citações. Quando todos esperavam uma resposta difícil, filosófica, e tudo mais, você simplesmente comentou, debaixo de aplausos, gritos e risos: “Meu amigo, tudo o que eu quero hoje é a felicidade”. Conseguiu? 

Na manhã de domingo passado, enquanto as pessoas em quase todas as cidades brasileiras se preparavam para sair às ruas e dizer não a esse governo, não a essa Câmara abjeta, covarde, repulsiva, pusilânime, asquerosa, você nos deixava. Coloquei um CD de Fagner, ouvi Borbulhas. Algo me veio à mente, busquei até encontrar Noite Veloz, poesias suas de 1962 a 1975. Ali está o poema, escrito há tantos anos, que é o retrato (a profecia) do Brasil de agora, deste tempo de guerra entre Eles x Nós, com tantos desencontros:

Do fundo de meu quarto, do fundo

de meu corpo

clandestino

ouço (não vejo) ouço

crescer no osso e no músculo 

da noite

a noite

a noite ocidental obscenamente

acesa

sobre meu país dividido em 

classes.

Até um dia, Gullar. Não sei se aí há dias e noites ou o que há. Talvez até breve, nunca sabemos. Que sei eu de mim? Abrace por aí o Sábato Magaldi, o Moacyr Scliar, o Ubaldo Ribeiro, o Ariano Suassuna.

*

P.S. aos amigos, leitores: Amanhã, sábado, 18 horas, após sete meses o show meu e de Rita Gullo, Solidão no Fundo da Agulha, se despede do Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, Conjunto Nacional. 

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