'Ele nunca pôs sua obra a serviço de ideologias'

Em estudo inédito, pesquisador americano discute as relações do escritor alagoano com o Estado Novo

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h10

O americano Randal Johnson é um "distinguished professor" no Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia (Ucla). Ele é autor de um estudo sobre as relações de Graciliano Ramos com o Estado Novo, no qual rediscute a ideia de que o escritor fosse comunista antes mesmo de ser preso, em 1936. Também esclarece as relações de Graciliano com a elite política de Alagoas.

Por que Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere, não diz diretamente que se sente injustiçado, embora tenha sido e isso se explicita no próprio texto?

Em primeiro lugar, Graciliano nunca foi um homem de se lamentar. Chegou até a abordar a experiência na prisão com certo humor, embora às vezes um humor irônico ou amargo. Penso, por exemplo, no discurso que fez na ocasião da famosa homenagem feita no Rio de Janeiro em 1942, quando disse, entre outras coisas, que na cadeia os presos tinham "algumas vantagens: não íamos ao cinema, não concorríamos para homenagens indébitas a valores improvisados, não nos aborrecíamos com aluguel de casa, enfim, éramos forçados a cultivar a economia, a mais útil das virtudes agora". Mais importante, no entanto, é que mesmo sendo memórias, ele reconhecia que não era o único injustiçado, o único que sofreu nas mãos do autoritarismo, ou o único que foi jogado na abjeção dos porões do Estado Novo. (Sua filha) Clara nos diz que o Graciliano que saiu da prisão era outro Graciliano, que havia sido ideologicamente reestruturado por causa da experiência e do contato com outros prisioneiros de diferentes classes sociais. Graciliano mesmo relata, no livro, que havia feito o possível por "entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos os meus defeitos". Nesse sentido, Memórias do Cárcere representa um momento exemplar de autorreflexão, de reflexão sobre o outro, e de reflexão sobre o País num momento crítico da sua história.

Carlos Fuentes dizia que o compromisso do escritor é com a imaginação e com a escritura e que o compromisso político cabe ao cidadão, e não à obra literária. Até que ponto isso se encaixa na obra de Graciliano?

Quando Graciliano publicou o seu primeiro romance, Caetés, em 1933, havia, no campo literário, um debate sobre o papel social e político da literatura, o qual Luís Bueno analisa muito bem no seu livro História do Romance de 30. Era o momento das primeiras tentativas de se criar um romance proletário no Brasil. Graciliano nunca entrou nessa onda. Numa breve resenha que escreveu sobre Suor, de Jorge Amado, também publicado em 1933, Graciliano elogia alguns aspectos do romance, mas resiste no que vê como certo maniqueísmo e também os momentos mais politicamente didáticos, que soam falsos. Numa carta a Oscar Mendes, escrita em 1935, Graciliano é muito claro quando diz que acha que "transformar a literatura em cartaz, em instrumento de propaganda política, é horrível". O fato é que Graciliano nunca pôs a literatura a serviço de uma ideologia específica ou de um partido específico, o que não quer dizer que sua obra não seja política.

No contexto mundial, a obra de Graciliano se aproxima de algum escritor em especial? Fala-se em Camus, concorda?

Ora, Graciliano escreveu quatro romances, cada um diferente do outro. Portanto, é difícil falar de uma aproximação com apenas um escritor com o qual tenha afinidades. Sabemos que, desde a juventude, Graciliano expressou uma preferência pelo realismo. Em relação a Caetés, Eça de Queiroz é a referência quase obrigatória. Na ocasião da publicação de São Bernardo, falou-se mais em Machado de Assis e romancistas nordestinos, com referências ocasionais a Eça de Queiroz e outros escritores. Com Angústia, houve tentativas de associá-lo a Malraux, Blasco Ibáñez, Dostoievski, Dyonelio Machado, e até Proust, entre outros. Em relação a Vidas Secas, já há outras referências, que vão de Euclides da Cunha até John Steinbeck. Lembre-se que Graciliano traduziu A Peste, de Camus, mas pelo que entendo não o apreciava como escritor. Aliás, Ana Maria Bicalho fez um estudo muito interessante de Graciliano como tradutor de Camus, que ele "enxugou" de acordo com suas próprias preferências estilísticas. / U.B.

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