Ele levanta a batuta e... sacode a poeira

Ele levanta a batuta e... sacode a poeira

Minkowski grava 12 sinfonias de Haydn, devolvendo a elas seu impacto original

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

A surpresa, principal componente das músicas improvisadas, não é sensação que costuma frequentar as salas de concerto, seja na plateia, seja no palco, onde as coisas são em geral previsíveis e o ritual parece burocraticamente imutável. A exceção fica por conta da música contemporânea, quando obras inéditas podem nos chocar para o bem ou para o mal. Isto é, surpreender-nos.

Quando o repertório é tradicional e arquiconhecido, até as brincadeiras e tiradas humorísticas ou de ironia dos compositores petrificam-se. O caso mais notório é o de Haydn, chegadíssimo em gozações cifradas - ou mesmo escancaradas. As suas 104 sinfonias são um viveiro delas. A Sinfonia n.º 45, dita do Adeus, termina com um presto desembocando num surpreendente adágio em que cada instrumentista sai do palco, até permanecerem dois solitários e infelizes violinos (os músicos estavam no palácio de verão, longe de Viena há meses, e queriam rever suas famílias na capital; foi um pedido musical ao príncipe Esterhazy).

Mas estamos carecas de conhecer sacadas desse tipo em Haydn. E o que fez o supercriativo regente francês Marc Minkowski com seus Musiciens du Louvre no ciclo das 12 sinfonias londrinas de Haydn (de 93 a 104), realizado em Viena em junho de 2009 e agora lançado pelo selo francês Naïve numa caixa com quatro CDs? Simples: reconstruiu a surpresa, devolveu às tiradas de Haydn seu impacto original. Todo mundo sabe que o suave primeiro tema do Andante da Sinfonia n.º 94, por isso apelidada de "Surpresa", começa pianíssimo e é interrompido de repente por um acorde fortíssimo. As más línguas presentes ao concerto de estreia, em 1792, em Londres, afirmaram que Haydn só queria "despertar as moçoilas cochilantes" da plateia. Ele não confirmou isso, mas admitiu que desejava só "surpreender com alguma coisa nova".

Para reconstruir o impacto da surpresa desejada pelo compositor, Minkowski foi obrigado a obedecer não às notas, mas ao espírito delas. Assim, na primeira vez um silêncio abrupto ocupa o lugar do costumeiro acorde fortíssimo; na segunda, a orquestra inteira solta um grito coletivo em vez de tocar; e só na terceira vez aparece o tradicional acorde fortíssimo. Que fidelidade inteligente, a de Minkowski.

Como escreve o dublê de jornalista, compositor e excelente blogueiro Greg Sandow, do baixo Manhattan nova-iorquino, "com que direito ele ousa mudar as notas que Haydn escreveu? Afinal, a missão do intérprete não é justamente seguir as intenções do compositor? Vamos supor que isso seja verdade (e aqui falo por mim, como compositor, que esta é uma ideia muito limitada de interpretação). Ora, a intenção mais importante de Haydn aqui é a surpresa. As notas são apenas o seu modo de concretizar a surpresa. Bem, se as notas não nos surpreendem mais... devemos mesmo honrar suas intenções, insistir na teimosia de tocar exatamente o que ele escreveu?"

Sandow mantém uma cruzada permanente em seu blog (acesse: http://www.artsjournal.com/sandow/) visando a tirar a poeira da música clássica de ontem e de hoje, inserindo-a no nosso dia a dia do século 21. Por isso enxerga na atitude de Minkowski, que há poucos anos fez um concerto memorável em São Paulo, uma maneira de fazer a música clássica pulsar viva hoje - mesmo que tenha sido escrita há mais de dois séculos, como estas maravilhosas 12 sinfonias compostas por Haydn especialmente para o público londrino.

O engessado mundinho clássico, no entanto, costuma torcer o nariz para liberdades desse tipo. O crítico David Treasher, da revista inglesa Gramophone, por exemplo, ao resenhar esta gravação, afirma que o truque "pode te surpreender duas vezes, por exemplo (ótimo quem sabe em concerto, mas em gravação a história é outra)". Ou seja, ele prefere execuções tradicionais, que, ao repetirem as notas já gravadas e tocadas zilhões de vezes em dois séculos, não mais provocam nenhuma surpresa no ouvinte.

Trazer a música clássica para o nosso tempo é devolver-lhe o poder de nos surpreender. E isso Marc Minkowski e seus excelentes 50 músicos historicamente informados fazem de modo notável neste ciclo. Você se sente na plateia que assistiu à estreia mundial dessas sinfonias, entre 1791 e 1795. Afinal, como dizia Einstein, emérito frasista, "aquele que já não consegue sentir espanto nem surpresa está, por assim dizer, morto".

Áudio. Trecho do movimento Andante da Sinfonia nº 94

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