'Ele foi tão importante para a ciência quanto para a música'

Para o diretor do Museu de Zoologia da USP, ele "trouxe olhar de vanguarda" para o campo no Brasil

HERTON ESCOBAR, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2013 | 02h08

Paulo Vanzolini foi um dos personagens mais importantes da história da ciência brasileira. Principalmente na zoologia, sua área de maior expertise, mas também muito além dela.

"Ele foi tão importante para a ciência no Brasil quanto foi para a música", resume o pesquisador Hussam Zaher, herpetólogo (especialista em répteis e anfíbios) tal qual Vanzolini e atual diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), instituição que Vanzolini dirigiu por mais de 30 anos, de 1962 a 1993, e à qual esteve intimamente ligado durante quase toda sua vida científica.

"O museu e a USP devem muito a ele ", afirma Zaher. "Era um cientista completo, que trouxe um olhar de vanguarda para a zoologia da época e que por muitos e muitos anos foi a maior autoridade em biologia evolutiva no Brasil."

"Ele foi o primeiro cientista a trazer as ideias da evolução para cá, depois de ter feito o doutorado em Harvard (na década de 1950)", conta o também herpetólogo Miguel Trefaut Rodrigues, professor do Instituto de Biociências da USP, ex-aluno de Vanzolini e ex-diretor do MZUSP. "Transformou completamente a zoologia no Brasil."

Até então, explica Trefaut, a zoologia nacional ainda era muito limitada à morfologia, à descrição anatômica de espécies. Vanzolini introduziu o conceito de que era preciso estudar a biodiversidade com um olhar evolutivo, e que para entender a evolução das espécies era preciso entender também a evolução das paisagens e os padrões de distribuição das espécies dentro dessas paisagens.

Em seu trabalho mais famoso, Vanzolini propôs que a diversidade de espécies da Amazônia tinha como raiz histórica uma fragmentação do bioma, causada por variações climáticas que criavam "ilhas" de floresta úmida cercada por um "mar" de floresta seca. Proposta que ficou conhecida como "teoria dos refúgios" e que continua a influenciar as discussões sobre origem da biodiversidade.

Com esse olhar evolutivo, ao longo de várias décadas de pesquisa e coleta, Vanzolini transformou o MZUSP no mais importante museu de história natural da América do Sul e influenciou na formação de mais de uma geração de importantes zoólogos brasileiros.

Além dos limites da zoologia, Vanzolini teve papel de destaque na construção das bases da ciência paulista e brasileira. Foi ele quem escreveu, por exemplo, o projeto de lei que criou a regras de funcionamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "O começo da Fapesp foi muito bem recebido e bem sucedido graças ao Paulo Vanzolini", diz o atual presidente da fundação, Celso Lafer.

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