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Ele está no meio de nós

O anonimato representa a dor que no passado deveria ser o medo da fome ou da guerra

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 05h00

Sala de espera, aeroporto de Orlando: nossa família, exausta após todo o processo de deslocamento e procedimentos de segurança, disputava as poucas poltronas disponíveis. Uns buscam água, outros conferem mensagens e todos concordam que as férias apresentam ônus de cansaços.

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De repente, como um raio de eletricidade no céu azul, os mais novos identificam uma revelação bombástica: Shawn Mendes está na sala! A frase chegou logo aos meus ouvidos. Ignorante incorrigível, pergunto: quem é? Pior, estando distraído quando a notícia surgiu, confundi o som e soltei: Shaolin? Não! Olham para mim entre piedade e irritação: S-H-A-W-N M-E-N-D-E-S. Agora sei o nome correto da presença ilustre, ainda que não faça a mais vaga ideia de quem seja. Ator? Pelo Mendes parece ser alguém de ascendência lusitana. Canadense! Corrigem-me com redobrada raiva! Ele tem zilhões de seguidores! É um sucesso mundial! 

Instigado pela divisão juvenil Karnal, levanto-me e vejo um rapaz magro, alto, cercado por um segurança e um possível empresário em um canto da sala de espera. Ao redor, muitos tentam fotos e o guardião parrudo ao lado dele libera apenas para algumas crianças. Simpático, ele recebe pessoas e troca escassas palavras. Uns tremem, outros exultam por terem dito seu nome ao que, agora sei, é um cantor muito famoso.

Uma senhora brasileira tentou e não conseguiu um autógrafo. Olha para mim, desolada, e me diz: não consegui com ele, você tira uma foto comigo? Sorrio como um prêmio de consolação resignado. Sinto-me como o antigo Hotel Glória do Rio, que, apesar das suas virtudes, hospedava aqueles que não conseguiam uma vaga no Copacabana Palace... Veio também à memória uma aluna famosa pelos deslizes sociais. Em um evento festivo, ela me apresentou a um conhecido. Para facilitar a conversa, afirmou que eu era famoso e ele não. Vendo a cara de desolação do jovem, ela consertou de forma magistral: “Mas... você é bonito”. Conseguiu ofender o feio e o anônimo com duas curtas frases...

Minha secretária não se conforma. Pergunta de novo se eu não conheço e eu pergunto a ela, na defensiva, quem foi Hector Berlioz. Ela diz que não sabe e eu faço aquela cara de “ema, ema, ema: cada um com seus pobrema...”. Não suponha o zeloso leitor e a diligente leitora que é um manifesto do tipo: nada sei de cultura pop. Pelo contrário! Conheço e acompanho muita coisa, porém, em geral, quando escuto música, quase sempre procuro autores de um repertório que conheço. 

Faço workshop pessoal como um exercício de compreensão. E se Elis Regina entrasse naquela sala, ressuscitada de alguma forma? Talvez eu tremesse e tentasse me aproximar ou, talvez, mais barroco teatral, beijaria os pés da voz mais cativante que já ouvi. 

O que a fama apresenta? Talvez, ela dê um significado superior à existência medíocre que geralmente levamos. A prima Luísa (de Eça) recebe um bilhete com elogios românticos do sedutor Basílio. A jovem se derrete em suspiros. As frases eu li no autor português, todavia a memória vem pela música Amor I Love You que Marisa Monte interpreta de forma brilhante (outra que eu tremeria ao encontrar) e Arnaldo Antunes declama sobre a infeliz portuguesa: “Sentia um acréscimo de estima por si mesma. E parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!”. Um dia ainda escreverei desse jeito...

Encontrar alguém famoso provoca o efeito “prima Luísa” em muita gente. Fornece assunto, conecta com um gosto, dispara seus likes nas redes, torna o momento único, comunga com algo maior e provoca uma espécie de comunhão com a celebridade. Nunca teremos certeza se nossas vidas valem a pena, se somos dignos de algo ou se deixaremos algum legado. A resposta a tais dúvidas vira um sim grande (e fátuo) ao lado da celebridade. Para continuar com meu exercício de compreensão do interesse pelo quase Shaolin, lembrei-me, em 1981, da emoção que senti ao ficar frente a frente com o papa João Paulo II em Porto Alegre. Eu era uma espécie de “prima Luísa mística” naquela ocasião. Soubesse então, como católico devoto, que ele seria declarado santo, eu teria levitado ou entrado em colapso completo!

A celebridade nos faz entrar na existência superior e retira, por alguns instantes, nossa consciência do charco modorrento dos fatos. Depois, sou livre para criar intimidade na narrativa: “Eu estava com meu amigo Mendes...”. Qual Mendes? Bradam os circunstantes. “O Shawn, claro” e então narro o encontro com relances dramáticos e certo ar blasé. No resto do tempo, só nós estamos no meio de nós e lá ficamos checando mensagens e lendo sobre gente famosa... O anonimato representa a dor que no passado deveria ser o medo da fome ou da guerra. E, por um instante, o cantor de regata branca com segurança ao lado parece interessado e nos tornamos, subitamente, interessantes. Boa semana com ou sem celebridades para nós. 

 

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