Keith Meyers/The New York Times
Keith Meyers/The New York Times

Ele embrulhou prédios em tecido. Anos depois, sua arte ressurgiu do lixo

Trabalho de Francis Hines foi redescoberto quando um homem encontrou centenas de suas pinturas numa lixeira e, desde então, assumiu a tarefa de dar ao artista a atenção que merece

Amanda Holpuch, The New York Times

07 de maio de 2022 | 13h00

O prédio envolto em tecido se elevava sobre o East Village de Nova York feito um curativo de ferimento. Era maio de 1979 e o artista, Francis Hines, havia coberto um prédio abandonado de cinco andares com 3.500 metros de tecido branco, envolvendo agulhas de drogas e paredes desmoronadas.

Na época, disse um amigo de Hines, a instalação suave e ondulante trouxe “vida, beleza e possibilidade” ao East Village, naqueles tempos um emblema de negligência cívica.

Hines ganhou uma pitada de aclamação da crítica por embrulhar esta e outras estruturas da cidade de Nova York, entre elas o Washington Arch, antes de desaparecer do mundo da arte. Ele morreu em 2016, aos 96 anos.

Seu trabalho foi redescoberto um ano depois por Jared Whipple, um homem de Connecticut que encontrou centenas de pinturas de Hines numa lixeira e que, desde então, assumiu a tarefa de dar a Hines a atenção que ele acha que o artista merece.

Nos últimos cinco anos, Whipple, 40 anos, debruçou-se sobre os diários de Hines, correspondeu-se com amigos e parentes do artista e desenterrou imagens de arquivo. Seu trabalho como estudioso autodidata de Hines atingirá um marco nesta semana, quando algumas das pinturas encontradas na lixeira serão exibidas para venda.

A exposição individual estreia quinta-feira na galeria Hollis Taggart em Southport, Connecticut, e será acompanhada por uma mostra menor em Nova York.

A emersão de Hines da obscuridade começou em setembro de 2017, quando Whipple foi convidado para ver um celeiro decadente por um amigo que havia sido contratado para limpá-lo. Ele sabia que Whipple gostava de recuperar material descartado.

Numa lixeira do lado de fora, ele encontrou pilhas organizadas de centenas de telas embrulhadas em plástico e achou que eram obras de alguém que tinha um hobby.

“Quando começamos a abrir, foi aí que percebemos que talvez fosse algo a mais”, disse Whipple.

Whipple, mecânico que também faz manutenção de edifícios para igrejas, disse que foi atraído pelas representações coloridas de carros esmagados. Ele decidiu levar a coleção para seu armazém, onde passara mais de uma década construindo uma pista de skate coberta.

Whipple descobriu a identidade do artista depois de encontrar uma das pinturas assinada com seu nome completo, Francis Mattson Hines. Uma pesquisa online levou Whipple a um livro que a esposa de Hines, Sondra Hines, publicara por conta própria sobre o trabalho mais conhecido de seu marido: a instalação do Washington Arch. Em 1980, ele usou 8 mil metros de poliéster branco para embrulhar o arco como parte de uma campanha de arrecadação de fundos da Universidade de Nova York para restaurar o monumento.

Num vídeo que Whipple apresentou, uma ex-repórter e crítica de artes do New York Times, Grace Glueck, elogiou a instalação.

“Bom, acho muito bonito e, como já disse antes, acho excelente qualquer coisa que cubra o Washington Square Arch, que sempre achei espetacularmente feio”, disse Glueck.

Francis Hines, que trabalhava como ilustrador comercial, continuou a esculpir, pintar e desenhar depois dessa instalação importante, mas não conseguiu atrair atenção significativa dos galeristas.

Por décadas, ele enviou suas obras finalizadas para um celeiro em Watertown, Connecticut, que ele alugava para armazenamento e usou como seu estúdio principal na década de 1970, disse Whipple.

Na última década, os donos do celeiro pediram repetidas vezes para Hines tirar suas obras porque queriam vender a propriedade.

Ele nunca atendeu aos pedidos. Em vez disso, deixou as obras protegidas acumularem poeira, fuligem e fezes de animais, deixando o projeto para outro dia – ou outra pessoa. Depois que Hines morreu, sua família pegou as coisas que tinham mais significado para eles, deixando para trás o tesouro que Whipple encontrou.

Whipple tem um apetite insaciável por informações sobre o artista e entrou em contato com seus amigos e colegas, que compartilharam fotos, vídeos e cartas. Whipple passou dois anos procurando por um fotógrafo, Ken Hellberg, que o deixou vasculhar seu porão atrás de slides de 35 mm das obras de Hines.

O reverendo Alan Johnson, 78 anos, que conhecia Hines há décadas e o considerava um de seus amigos mais próximos, disse estar grato pela descoberta e persistência de Whipple.

Johnson era funcionário do United Church Board for Homeland Ministries, que patrocinou o projeto East Village em 1979, e foi entrevistado pelo Times em 1979:

“Francis Hines escolheu um lugar da cidade que está com problemas e trouxe algo de vida, beleza e possibilidade”, disse Johnson.

Ele e Hines compartilhavam seus sucessos e tristezas com um gole de uísque na White Horse Tavern e faziam visitas ao Metropolitan Museum of Art, que Johnson disse ser um dos poucos lugares que Hines frequentava ao norte da 14th Street em Manhattan. O artista sempre insistia que visitassem apenas a ala de arte africana.

“Ele descia, olhava os artefatos, aquelas belas peças e fotos, e dizia: ‘as pessoas fizeram isso com as mãos, fizeram coisas que eram funcionais e úteis’”, disse Johnson.

Johnson disse que Sondra Hines, que morreu em 2013, teria apreciado que a obra de seu marido estivesse ganhando novo reconhecimento. Num catálogo sobre seu trabalho, Francis Hines escreveu uma dedicatória a ela: “Sem seus talentos e dedicação, muito do que sou jamais teria visto a luz do dia”.

Johnson disse que Whipple era o guardião ideal da arte de seu amigo porque ele aborda os projetos com um estilo prático, seguindo a filosofia de Hines de que “fazer arte é resolver problemas”.

Jonathan Hines, filho de Hines, disse em comunicado fornecido por Whipple que era “destino” que uma figura de fora do mundo da arte descobrisse a obra de seu pai e que isso não teria acontecido se ele tivesse decidido guardar as obras, em vez de jogar tudo fora.

“O resultado final é que meu pai está recebendo o reconhecimento que merece”, disse Jonathan Hines.

A nova atenção à arte de Francis Hines atraiu comparações com as obras de Christo, o artista nascido na Bulgária que, com sua esposa e colaboradora, Jeanne-Claude, usou tecido para cobrir e criar estruturas, entre elas o Arco do Triunfo. Christo – que usava apenas seu primeiro nome – morreu em 2020.

A galeria de Connecticut que exibirá as obras de Hines a partir desta semana é especializada em chamar a atenção para arte perdida e esquecida. O proprietário da galeria, Hollis Taggart, foi apresentado à coleção Hines pelo historiador da arte Peter Hastings Falk.

Taggart disse que ficou impressionado com a forma como Hines preparava as telas e depois embrulhava as pinturas com tecido, algo que ele não tinha visto antes.

“No mercado de arte contemporânea de hoje, há um grande interesse por suportes alternativos, você vê muitos trabalhos feitos de tecidos, cerâmicas, tapeçarias, coisas assim”, disse Taggart. “O que ele estava fazendo com pinturas em tecido se encaixa no que muitos artistas estão fazendo hoje com o uso de materiais alternativos”.

Taggart disse que serão exibidas cerca de trinta peças de Hines, entre elas pinturas, desenhos e uma escultura. Ele disse que os preços irão partir de US$ 5 mil a US$ 8 mil pelas obras em papel, US$ 20 mil a US$ 35 mil pelas pinturas embrulhadas e US$ 55 mil pela escultura.

O lucro das vendas irá para Whipple, que disse que planeja usar a maior parte do dinheiro para renovar seu armazém em Waterbury, Connecticut, onde expõe trabalhos de Hines e artistas locais.

A exposição pode parecer o ápice do projeto de Francis Hines, mas Whipple disse que é apenas mais um passo na sua missão de angariar reconhecimento para o artista.

Ele também está trabalhando num documentário sobre Hines e espera ver o trabalho do artista exposto num grande museu de Nova York.

Whipple e Johnson admitiram que Hines era um homem do momento e não compartilhava preocupações sobre seu legado.

Numa entrevista ao Times em 1979, depois que alguém incendiara a instalação do East Village, corroendo uma parte do tecido transparente, Hines deixou claro que não era preciosista em relação ao seu trabalho.

“O que tiver que acontecer vai acontecer”, disse Hines. “É quase parte do processo. Seu trabalho fica sujeito a todo tipo de coisa, até mesmo intempéries e vandalismo”.

* Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Tudo o que sabemos sobre:
Francis Hinesartes plásticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.