Ele é carioca

Com obras espalhadas pelo mundo todo, Niemeyer tinha as montanhas do Rio nos olhos e na inspiração

Lauro Cavalcanti, especial para O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2012 | 09h33

Arquitetos são geralmente associados às cidades onde possuem suas obras mais significativas, a despeito de onde nasceram. Quem sabe que Antoni Gaudí é de Reus, Tarragônia, e não de Barcelona? O alemão Mies van der Rohe é associado a Chicago. Londres vem logo à cabeça quando pensamos em Norman Foster, filho de Manchester. A arquitetura do carioca João Filgueiras Lima, Lelé, traduz a Bahia moderna. Ninguém duvida de que o paranaense João Vilanova Artigas e o capixaba Paulo Mendes da Rocha sejam os mais importantes arquitetos paulistanos.

Oscar Niemeyer criou a arquitetura de Brasília, fez em Belo Horizonte um conjunto que é uma obra-prima da arquitetura moderna e tem em Niterói a maior concentração de obras recentes. E, no entanto, ele é carioca: o Rio de Janeiro, que é relativamente modesto em obras públicas suas, é, sem sombra de dúvida, a cidade com a qual estão profundamente ligadas sua pessoa e arquitetura.

O primeiro a enunciar tal coisa foi Le Corbusier: "Oscar, você tem as montanhas do Rio nos olhos." As curvas, na contracorrente das retas dominantes do modernismo, constituem, ao lado da leveza e arrojo estrutural, marcas registradas de sua linguagem. Ecos dos perfis cariocas, curvas da mulher preferida, nas palavras do próprio arquiteto, ou vestígios do barroco são explicações frequentemente acionadas. Serão elas pertinentes? Por vezes, as classificações geográficas, apesar de tentadoras e fáceis, mais obscurecem do que ajudam a aprofundar o conhecimento da produção arquitetônica. A clássica divisão entre escolas paulistas e cariocas separa, por vezes, arquitetos que possuem mais pontos de contato entre suas linguagens do que com aquela de profissionais da mesma cidade. Essa divisão mecânica esconde, por exemplo, o fato de que boa parte da arquitetura do carioca Sergio Bernardes aproxima-se bem mais da linguagem brutalista de Vilanova Artigas do que daquela de Niemeyer. A sobriedade exterior, o cuidado com os detalhes e com a disposição dos espaços internos permite aproximar as obras de Rino Levi, Oswaldo Bratke e Jorge Moreira.

Ressalvas feitas, peço que o leitor me acompanhe no exercício de supor que alguns traços físicos, sociais e psicológicos identificados com o Rio podem ser uma boa lente alternativa para examinarmos a produção de Niemeyer.

A paisagem carioca e a sua arquitetura partem da síntese de formas fortes e fáceis de reter. Corcovado, Dois Irmãos, Pedra da Gávea e Pão de Açúcar, mais que meras montanhas, são formas específicas e definidas na mente de quem as conhece. Assim ocorre com a maioria das obras de Niemeyer: Igreja da Pampulha, Marquise do Ibirapuera, Catedral de Brasília e Museu de Arte de Niterói. Além de outras evidentes virtudes, a síntese formal ajuda a entender o destaque e enorme popularidade do Niemeyer, dentre tantos bons arquitetos de sua geração.

Mesmo quando constrói em Niterói, a paisagem do Rio é uma forte parceira; o Museu de Arte Contemporânea se eleva do solo permitindo a visão da Baía de Guanabara e das montanhas cariocas, para os quais está voltado, tendo a linha de seu contorno paralela à encosta do Pão de Açúcar.

Surpreende às pessoas um dos mais perfeitos e dedicados profissionais de construção dizer que arquitetura não é importante e sim a vida. Um carioca, narciso antinarcisista, sem piscar, entende: "soa" indelicado falar com muitos detalhes de seu trabalho. Pior somente se gabar do esforço e sacrifícios despendidos em sua execução. Cariocamente, quase sempre que Oscar se alonga na descrição de algum trabalho seu, completa o relato com um sorriso doce-amargo e uma frase sobre a desimportância do ofício, face aos prazeres e misérias da vida.

Para cada habitante que passa pela orla do Rio é um exercício de autodisciplina diário renunciar ao mergulho no mar e ir para o trabalho. O escritório de Niemeyer oferece o ponto de vista mais fotogênico da curva da Praia de Copacabana, que, aliás, poderia ter saído da sua prancheta. A tentação, neste caso, não mora ao lado; invade os olhos através das vidraças. Justo para evitar a dispersão, Oscar ocupa a parte dos fundos do imóvel que dá para um sombrio e banal pátio interno e se separa do salão da frente por um biombo atrás do qual está sua pequena prancheta.

Brasília, parceria com o carioca de Toulon, Lucio Costa, tem no comprimento de suas asas a exata medida entre as extremidades das praias de Copacabana ao Leme e do Arpoador ao Leblon. Sério sem ser sisudo, o carioca não é bairrista no limite da arrogância. E, desse modo, o seu discurso é pleno de metonímias, tomando o Rio pelo todo.

Somente dois cariocas fariam, com todo empenho e crença, um brilhante plano que privaria sua cidade da condição de capital federal. Como diz a filha de um deles, Maria Elisa Costa, carioca nunca diz não, e nunca concorda. Não se presta à catequese e só obedece quando acredita no objeto da obediência. Liberdade é o ar que se respira e aquele que define e povoa a arquitetura, como bem demonstra a obra de Oscar Niemeyer.

LAURO CAVALCANTI É ARQUITETO,ANTROPÓLOGO E ESCRITOR

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