''Ele antecipou temas de peças contemporâneas''

ENTREVISTA[br][br]Adolf Shapiro. DIRETOR RUSSO

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Ganhador do Prêmio Internacional Stanislavski, o russo Adolf Shapiro é especializado em Chekhov. Por conta disso, é convidado para diversas montagens no mundo - atualmente, está na Grécia, cuidando de uma versão de O Jardim das Cerejeiras. Em um intervalo, ele concedeu a seguinte entrevista ao Estado.

A literatura (a dramaturgia, em especial) de Chekhov seria impossível sem a noção dos problemas familiares?

Não há duvida. Nas peças de Chekhov, podemos encontrar o reflexo de muitas preocupações e dúvidas vivenciadas por ele. Às vezes, o escritor tenta "mascarar" o íntimo, esconde-o em diferentes personagens ou o ofusca por meio de ironia, humor, situações engraçadas. Mas, se olharmos com atenção aquilo que estava passando na vida do escritor e nos seus textos, verificamos uma ligação tão forte, capaz de cortar a respiração.

Chekhov era um humanista militante, a julgar pela busca em retratar a realidade com a maior verossimilhança possível?

Não. "Militante" está muito longe da essência da personalidade de Chekhov. Militância pressupõe combate, intransigência, falta de dúvidas. Chekhov está, por assim dizer, em cima de combate. É de cima dessa posição que ele pode apreciar toda a alegria e toda a amargura de vida. Ele é muito irônico para ter fé em ideias, quaisquer que fossem, e para se tornar escravo delas. O escritor esteve mais interessado no conflito de ser humano consigo mesmo. Certamente, a obra de Chekhov é muito humanista. Ele está preocupado com o futuro de homem - eu não diria que da humanidade, isso seria demasiadamente patético para o gosto de próprio Chekhov.

A comparação entre Chekhov e Pirandello é um paralelo clássico, pois foram dois grandes revolucionários da dramaturgia - na base das soluções dramáticas encontradas por ambos se construiu tudo o que veio depois no teatro. O que pensa disso?

Você tem toda a razão. Chekhov antecipou muito daquilo que seria realizado no teatro contemporâneo. O grande italiano Pirandello (talvez mais que todos os outros autores dramáticos) desenvolveu não a letra, mas a própria essência das lições de Chekhov. Pirandello, como um artista de verdade, continuou aquilo que Chekhov fez e não simplesmente copiou.

Chekhov falava da tecnologia a favor do homem. Cem anos depois, o ser humano já foi à Lua, quase "construiu" um homem novo por meio da clonagem, mas continua na mesma busca da felicidade. O que pensa disso?

Sim, ele pensou sobre o caminho do homem. Podemos ver o reflexo desses pensamentos de Chekhov no segundo ato de As Três Irmãs, no famoso debate de Verchínin e Tuzenbakh. Ele confrontou duas opiniões diferentes, sem dar preferência a nenhuma. Talvez ele próprio não tivesse opinião formada sobre o futuro do homem, surpreendente em sua imprevisibilidade.

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