Ele ainda teima em antecipar o futuro

Ele ainda teima em antecipar o futuro

Aos 87 anos, Pierre Cardin revê em livro as seis décadas de criação futurista, pela qual foi chamado de ''louco''

Suzy Menkes, The International Herald, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

Já faz 60 anos desde que Pierre Cardin, o eterno futurista da moda, abriu sua casa de alta-costura em Paris; meio século desde que levou pela primeira vez suas criações ao desolado Japão do pós-guerra; e mais de duas décadas desde que abriu novos caminhos da moda na China, tornando-se um superstar cultural, visto por esta jornalista em Pequim, em 1993, enquanto era aplaudido e sufocado por montanhas de buquês de flores. Mas, cara a cara, Cardin não se estende sobre as lembranças dos casacos estilo Mao e sobre as bicicletas, e minimiza a histórica marcha de sua longa carreira.

Apenas um tema interessa a esse estilista de 87 anos: o que ele está fazendo para o mundo de amanhã? "Quando comecei, há 60 anos, a moda que eu desenhava era um pouco estranha. As pessoas diziam que eu era louco e jamais usariam meus vestidos. Minha vocação era criar algo para o futuro - ser jovem, ver a mulher livre. Queria dar a elas, nos anos 60, a chance de trabalhar, sentar, dirigir o carro com meus vestidos." A nova arquitetura que o estilista criou para expressar a emancipação física e mental feminina é ilustrada em Pierre Cardin, 60 Anos de Inovação, escrito por Jean-Pascal Hesse, seu colaborador de longa data, e publicado pela Assouline.

Liberdade. A roupa dos anos 60, cortada em linhas retas para dar liberdade ao corpo, mas com cortes circulares e mangas satélites girando ao redor dos braços, são ícones da era espacial. Os inocentes alienígenas, em capacetes de aviador, minissaias e meias coloridas, expressavam a explosão da nova cultura da juventude. A histórica coleção Cosmos de 1964, com túnica e meias para homens e mulheres, foi uma declaração sobre a roupa unissex. Ela antecipou o equilíbrio da moda masculina/feminina que predominou na segunda metade do século 20. Dela constam minivestidos de 1968 em cardine, uma das primeiras experiências com tecido tecno; capa de chuva circular de vinil de 1969; ou o chapéu envelope de feltro de 1971. Mas o mais fascinante das suas criações não são os ângulos marcados e os babados concêntricos e sim fato de todos eles poderem ir diretamente para a rua, hoje, sem parecer fora de lugar.

Os estudantes hoje parecem compreender Cardin. Na Semana da Moda de Londres, mês passado, houve predomínio de vestidos em 3-D com cortes angulares criados pelos formandos de 2010 da faculdade de arte e design Central Saint Martins. "Tenho respeito pelo design inglês, porque é provocador e, ao provocar, sempre fica algo depois", diz Cardin. Sua formação em moda foi um aprendizado convencional na alta-costura. Após a difícil infância, quando os pais fugindo do regime fascista italiano e se estabeleceram na França em 1924, Pietro Cardin aprendeu o ofício do alfaiate e depois trabalhou nas casas de Paquin, Schiaparelli e Christian Dior. Ele lembra o ambiente de trabalhou com o artista Christian Berard desenhando os figurinos para o longa de Jean Cocteau de 46, A Bela e a Fera.

Cardin nunca se sentiu à vontade numa concha de costura maneirista. Escandalizou o mundo a lançar o prêt-à-porter em 1959. E por esse gesto, foi expulso da Câmara Sindical, órgão regulador da alta-costura. A partir de então, ele foi considerado independente, criticado por criar mobiliário que parecia tirado de uma nave espacial (conta que "comprava a árvore, cortava a madeira e fazia o desenho"). Também foi criticado por construir um império vendendo licenças por seus produtos, das camisas masculinas a frigideiras, o que o tornou dono de uma fortuna, que investiu em mansões francesas, incluindo o castelo do marquês de Sade, em Luberon. Ali ele realiza todo ano um dos seus eventos culturais. "Em julho, quero apresentar a comédia musical Casanova na Praça San Marco, em Veneza", diz Cardin. "Em 2009 fiz Marco Polo na China. Tento tornar minha vida prazerosa." Ele se referia a um balé sobre as exóticas viagens de Marco Polo, interpretado pelo balé de Xangai para abrir o ano-novo lunar chinês.

Legado. O livro, com imagens do mobiliário colorido circular e da roupa esportiva masculina futurista de jersey com zíperes, é um monumento à obra de Cardin. Mas seu legado é sobre as visitas à China e a visão do dragão dormente da moda, que ele ajudou a despertar. Foi pioneiro ainda ao mostrar coleções para 200 mil espectadores na Praça Vermelha em Moscou, em 1991, e inaugurar uma casa no Vietnã, em 1993. Seu objetivo é sempre suscitar o apelo na próxima geração. A designer Louise Goldin, de 30 anos, formada na Central Saint Martin, encontrou a foto de um conjunto de Cardin, de couro, durante pesquisa para a sua coleção de outono de 2010. "É maravilhoso e ainda parece tão futurista - e é assim que eu venho trabalhando", diz a jovem. "Gosto de me impor desafios. Havia elementos em 3-D. Mas esse é o momento que vivemos. Suas imagens ainda parecem incrivelmente modernas."

QUEM É

PIERRE CARDIN

ESTILISTA

CV: Nascido na Itália em 1922 como Pietro Cardin, ele assumiu o novo nome depois de ter se mudado para Paris, em 1945. Lá, trabalhou com Elsa Schiaparelli e Christian Dior. Nos anos 1960, foi o primeiro criador de alta-costura a se lançar no prêt- à-porter, tornando seus produtos acessíveis a um público maior.

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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