''Ele acreditava numa verdade objetiva''

Jay Parinié professor de literatura americana e escrita criativa no Middlebury College (EUA) e autor de títulos de ficção, poesia e crítica literária. Sua obra A Última Estação, biografia romanceada sobre o derradeiro ano de vida de Tolstói, já foi traduzida para mais de 20 idiomas e ganhou adaptação cinematográfica. Atualmente, outro romance-biografia de Parini está sendo filmado: A Travessia de Benjamin, sobre os últimos momentos do filósofo Walter Benjamin. Seu livro mais recente, Passages of H.M., acaba de sair nos EUA (por aqui, a Record, editora dos outros dois, anuncia interesse em publicá-lo); trata-se de uma ficção sobre a vida do escritor Herman Melville. A entrevista a seguir foi feita no escritório de Parini, no Middlebury College.

Mario Higa, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Como nasceu o seu interesse pela vida e pela obra de Tolstói?

Durante a pós-graduação na Escócia. Por indicação de um de meus melhores amigos, especialista em Tolstói, li muitos livros dele e sobre ele. Até que descobri uma edição do diário de Vladimir Bulgákov, que vivera próximo de Tolstói no último ano de vida do escritor. Ele menciona que praticamente todos que viviam próximos do autor mantinham diários. Um dia tive um estalo: isso podia dar um romance, com muitos pontos de vista se sobrepondo. O que é a realidade? É algo construído por subjetividades. E o que eu tinha? Vários pontos de vista.

Qual foi o fato da vida de Tolstói que mais chamou a sua atenção?

Ninguém parece compreender o conflito entre ele e sua esposa, Sofia. Quando li os diários, era como um caleidoscópio: todos tinham sua versão para a história. Sofia era histérica? Ou apenas reagia às ideias radicais de Tolstói? Meu romance é um estudo sobre a percepção, encena uma busca, ainda que vã, pelo sentido da verdade. Outro aspecto que me interessou foi a dedicação de Tolstói à ideia de verdade. Ele acreditava na possibilidade de uma verdade objetiva; eu, não.

O sr. acredita que, ao escrever A Última Estação, o seu estilo sofreu alguma influência do estilo de Tolstói?

Creio que meu estilo é profundamente influenciado por Tolstói desde o início da minha carreira. Tolstói é tão direto... Lendo suas histórias, o leitor sempre sabe onde está. Por outro lado, possui uma visão do mundo que é muito sensorial. Tudo é físico em Tolstói. Eu tentei imitar isso também.

Sua Sofia Andrêievna me lembrou Anna Kariênina. Ambas são um misto de heroína e vilã. Você concorda que sua Sofia, nesse sentido, é bastante ''tolstoiana''?

Sim. Ao escrever, o modelo literário de Tolstói a que mais recorri foi Anna Kariênina. Repare que, como no romance de Tolstói, há no meu duas histórias em paralelo, a de um jovem casal e a de um casal mais experiente. Este está se separando, aquele está se unindo. Sob esse aspecto, eu moldei minha narrativa a partir de Anna Kariênina. E tentei fazer minha Sofia uma versão da personagem Anna Kariênina.

Em seu romance, há um conflito entre Tolstói e Sofia. Ele é magnânino mas não pensa na família. Ela é egoísta mas suas reivindicações baseiam-se em 48 anos de casamento. O leitor é convidado a tomar uma posição nesse conflito. Qual seria ela? Ou tomar uma posição seria simplificar a leitura de sua obra?

Eu diria que meu propósito não foi o de responder mas o de propor perguntas. Eu queria desconcertar o leitor. Eu mesmo oscilei entre os valores que Tolstói defende - paz, verdade, Deus - e os direitos que Sofia reivindica para ela e para sua família. Ao final, talvez o leitor deva concluir que a vida contém coisas maravilhosas mas também nos oferece muitas perguntas sem respostas.

Em A Última Estação, a sexualidade possui uma presença marcante. Por quê?

A sexualidade é um dos núcleos de minha obra. É também um dos aspectos centrais da condição humana. Somos criaturas sexuais. E Tolstói teve uma vida sexual muito ativa. Podemos negar isso? Que Tolstói era provavelmente bissexual? Creio que é nosso dever falar aberta e honestamente sobre sua sexualidade. Tolstói foi um homem em parte dominado pelo impulso sexual, e por isso no fim de sua vida condenou a luxúria.

MARIO HIGA É PROFESSOR DE LITERATURA LUSO-BRASILEIRA NO MIDDLEBURY COLLEGE (EUA)

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