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O maior cabo eleitoral das candidatas democratas é o atual presidente

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2018 | 03h00

O voto feminino é protagonista este ano, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O voto aqui não é obrigatório e eleição não é feriado, mais um desafio para tirar os americanos de casa para votar. Além disso, estados têm independência para organizar sistemas eleitorais. A reação à eleição de Obama e a militância do Tea Party ajudaram o Partido Republicano a recapturar maiorias legislativas a partir de 2010. Foi o que permitiu aos conservadores fazer remapeamentos tão esdrúxulos de distritos eleitorais, que era impossível disfarçar o objetivo: desencorajar o voto de minorias, especialmente negros, que votam em peso no Partido Democrata.

Mas os democratas são seus próprios piores inimigos, especialmente pela complacência demonstrada nos anos Obama. Em 2014, a eleição intermediária, quando não se vota para presidente, teve o maior índice de abstenção em 70 anos. Só 36,4% dos eleitores registrados compareceram às urnas.

No dia 8 de novembro, os americanos vão votar em 33 governadores de 50 estados, 35 dos 100 senadores e todos os 435 deputados. Os democratas têm chances de recuperar a maioria na Câmara. Com as pesquisas da semana passada e a maneira desastrosa como republicanos conduzem a crise provocada pela acusação de tentativa de estupro contra o juiz que esperavam confirmar hoje para a Suprema Corte, há analistas políticos desconfiando que a onda azul democrata poderia chegar ao Senado. Se isso acontecer, ela deve ser rebatizada de onda rosa, a cor associada ao movimento de mulheres que organizaram o primeiro protesto nacional contra o trumpismo.

Há um número recorde de candidatas mulheres concorrendo a cargos municipais, estaduais e federais. O maior cabo eleitoral das candidatas democratas é o atual presidente. O movimento #MeToo é, em parte, cria desta presidência. E a indicação do juiz Brett Kavanaugh, ultraconservador oposto a direitos reprodutivos da mulher, para um cargo vitalício na Suprema Corte, já mobilizava o voto feminino antes de ele ser acusado do ataque sexual pela professora da Califórnia, quando ela tinha 15 anos e ele, 17.

Enquanto a maioria republicana torcia para se livrar de um depoimento público da acusadora Christine Blasey Ford, a represa do autocontrole presidencial se rompeu, para desespero do assessores que temem pelo custo eleitoral da crise. Ignorando súplicas para não culpar a vítima potencial, o presidente escreveu, na sexta-feira, um tuíte sobre Ford que escorria sarcasmo e fez brotar outro movimento, o #WhyIDidn’tReport (Por que não relatei). Em 24 horas, milhares de mulheres de todas as idades foram ao Twitter e ao Facebook postar motivos para esconder sua experiência de estupro e abuso sexual, citando razões de partir o coração, especialmente nos casos em que os agressores eram parentes.

Desde que a professora Ford revelou sua identidade, no dia 16, e teve que se refugiar num hotel, ameaçada de morte, o país revive a memória de 1991, ano em que o conceito de ‘assédio sexual’ entrou na cultura americana.

Naquele ano, a professora Anita Hill depôs no Senado, acusando o ex-chefe e então indicado para a Suprema Corte, Clarence Thomas, de atormentá-la com convites para sair. Hill falou da humilhação de ouvir a descrição de inúmeros atos sexuais dos vídeos pornográficos que ele alugava. Clarence Thomas foi confirmado em votação apertada. O ano seguinte foi chamado de ano da mulher, com a eleição de seis novas senadoras e a derrota de vários senadores que votaram nele. Mais tarde, um livro revelou mais mulheres assediadas por Thomas. Em 1992, não havia rede social. A Casa Branca não era ocupada por alguém acusado de assédio sexual por mais de 12 mulheres. E, sim, a professora Ford deve contar sua história ao Senado, esta semana.

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