Elas querem querer

Prezado Daniel,

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

Em junho do ano passado, você publicou a carta de uma leitora, Norma, que tinha visto a peça sobre Simone de Beauvoir com Fernanda Montenegro. Desde então ensaio escrever para você também, respondendo a ela. Na semana passada, assistindo a essa minissérie do Luiz Fernando Carvalho, Afinal, O Que Querem as Mulheres?, pensei: "Vai ser agora." Pois eu queria defender as mulheres do que a Norma disse em alguns trechos. Ela se queixou, por exemplo, daquele movimento dos sem-namorado, com mulheres que parecem sonhar com o "amor eterno", e das que desistem disso e passam a escolher homens por interesse, porque o sujeito tem dinheiro ou fama ou, pelo menos, faz rir. Eu, que tenho a mesma idade que a Norma, 33 anos (ela disse ter 32 então), embora seja casado, acho que elas são bem mais sutis que isso. Pelo menos as melhores.

Fui pesquisar sobre o título da minissérie, que é uma frase do Freud, numa carta em que diz que depois de 30 anos analisando a alma feminina ainda era incapaz de entender o que elas queriam. Como sempre fazem esses filósofos, remeteu o problema para as artes: "Se quiser saber mais sobre feminilidade, avalie suas próprias experiências ou recorra aos poetas ou espere até que a ciência dê informação mais profunda e coerente." Como a ciência ainda não avançou quase nada no tema e muitos poetas são homens exaltando ou chorando as amadas, prefiro me basear na minha experiência. Freud, por sinal, era um tanto careta nesse assunto: achava que as mulheres não gostavam de mudança e só tinham o objetivo de ser mães; e viveu de acordo com essas premissas. Mas, convenhamos, mais do que compensou ao mostrar o custo da repressão sexual.

É verdade que ainda existe nas mulheres muita idealização sobre relacionamentos, uma cobrança de perfeição que é difícil quitar, um impulso para colocar o homem no centro de sua vida - fingindo que não - e transferir para ele problemas que não pode resolver. Me pergunto se boa parte desse comportamento não é uma reação aos séculos em que ficou submissa, reprimida, no papel de reprodutora sem opinião. Ok, mais de 150 anos se passaram desde que Emma Bovary recusou esse papel, e as gerações seguintes poderiam ter aprendido que o troco à submissão não é querer que os homens realizem todas as suas vontades - as quais aumentam toda vez que são satisfeitas... Lembro aquela canção do Bob Dylan, It Ain"t me, Babe, em que ele diz que não é o cara sempre forte, protetor e gentil que a namorada quer, o cara que jura que nunca vai embora e morrerá por ela se preciso. Mas não é simples assim.

A Norma disse que invejava a experiência de vida da Simone, apesar de ela ter idolatrado um homem, Sartre, que nunca lhe deu o verdadeiro prazer sexual, que ela só foi ter com um escritor americano, Nelson Algren. Mas não disse que o problema também estava em Sartre ou mesmo no Algren, que não conseguiram dar a ela a mente e o corpo juntos! Esse nível de exigência das mulheres é muito bom para todos, Daniel, e sei que você sabe disso. Acho que foi Bill Cosby, o comediante de TV, que respondeu à pergunta de Freud dizendo que as mulheres querem é que os homens parem de fazer essas perguntas tolas... Quando uma mulher faz charme ou seduz para ganhar presentes, quando presta atenção em nossa conversa em busca de inteligência e humor, quando nos obriga a reinventar flertes e mostrar respeito, quem ganha é a civilização.

Nós, homens, somos como André (Michel Melamed), a quem Lívia (Paola Oliveira) chama de "patético" e abandona. Como ele, passamos horas tentando entender a complexidade virtual das mulheres com nossos mecanismos ultrapassados, como máquinas de escrever, gravadores de rolo e expressões de criança. Elas são em 3D e as olhamos sem óculos. São um dial inteiro e procuramos uma só sintonia. São um piano que tocamos com um martelo. Somos tão banais, Daniel, que se a minissérie se chamasse Afinal, O Que Querem os Homens?, com quase unanimidade responderíamos: queremos a Paola Oliveira. Freud e Sartre talvez dissessem que essa é a redentora objetividade masculina, invejada pelas mulheres, e de fato o que mais falta a elas é lembrar que a libido é fundamental para a liberdade ou, como diz um amigo, que mulher não deveria virar parente. Só que há muitos outros pontos na questão.

O homem mais enganado de todos será aquele que achar que isso tudo é porque elas não dissociam sexo e amor. Ao contrário, elas sabem, depois de abandonar o idealismo juvenil, que podem amar um homem por quem perderam a atração ou se sentir atraídas por um que jamais amariam. A maioria dos casamentos, por sinal, está num estágio ou no outro. Sim, pode até ser que em média os homens queiram transar mais vezes, mas uma média não define uma essência. Conheço muitas e muitas mulheres que estão desesperadas com a falta de vontade e criatividade dos maridos. Queriam um sexo tão intenso quanto o amor que sentem ou sentiam. Que mal pode haver nisso, Norma?

Falei dos poetas que cantaram suas amadas durante séculos, desde os trovadores provençais até Chico Buarque e Elvis Costello. Os cientistas e documentaristas mostram como na natureza é comum o cortejo e a competição dos machos por suas fêmeas. Mas as coisas mudam, as mulheres também, e uma das coisas que distinguem o ser humano dos outros animais é que não faz amor apenas para reproduzir ou confirmar laços afetivos. Nas últimas décadas, Daniel, o que tem acontecido? Cada vez mais são as mulheres que fazem canções para falar dos homens. Diana Krall, Madeleine Peyroux e Norah Jones começaram a compor, já não interpretam apenas. Björk, que é tão vanguarda quanto Radiohead, repete "Como pude ser tão imatura?/ Achar que ele substituiria tudo que falta em mim." Amy Winehouse confessa ter chorado no chão da cozinha, Lady Gaga diz que prefere um mau romance a uma amizade. Viva, elas estão se expressando!

Aos poucos, com todas as diferenças, encontro mulheres como a minha, Daniel, que entendem que os relacionamentos podem ser de vários gêneros: pode ser um romance clássico, cheio de capítulos e peripécias; pode ser um conto, com fim breve, nem por isso definitivo; pode ser um poema, que é mais breve que um conto e pode ser mais memorável que um romance; ou pode ser tudo isso, como um romance modernista, com ameaças de epílogos e rupturas, ziguezagues e recomeços. E nada mais próprio ao ser feminino do que essa noção aberta e móvel da vida. Elas querem poder, claro, e cada vez mais estão chegando lá. Mas elas querem, acima de tudo, querer. Sexo, amor, dinheiro, joias, risadas, talento, poder. Afinal, o que não querem elas sempre souberam.

Do seu leitor, Henrique.

De la musique. Por falar em canções para as mulheres, na semana passada mencionei Guillaume de Machaut, o poeta da Borgonha do século 14 (na Baixa Idade Média, não na Alta) analisado no livro de Johan Huizinga. E perdi a oportunidade de recomendar um CD que há tempos quero recomendar, Art of Love, em que o músico Robert Sadie adapta os poemas de amor de Machaut. Entre outros, tem a participação de Brad Mehldau tocando piano em várias faixas, de Romero Lubambo na guitarra e de cantores como Madeleine Peyroux e Milton Nascimento. Milton fez a versão Tu, Meu Sonho Vivo, que tem um verso característico do que Huizinga diz, "meu corpo treme de amor, desespero", em sua mistura de sagrado e profano, idealismo e melancolia.

Por que não me ufano (1). Da série perguntar ofende: é verdade que no Enem é possível optar entre fazer exame de inglês e de espanhol? No mundo ideal, ambos deveriam ser feitos; no mundo real, ao menos o de inglês deveria ser obrigatório, pois quem não lê em inglês pode ter sérios problemas de formação e atualização, ainda que no Brasil até controlador de voo possa ser monoglota.

Por que não me ufano (2). O fato de eleições para presidente e governador serem simultâneas deixa de canto muitas discussões importantes que deveriam ser feitas sobre administrações estaduais, responsáveis por itens tão fundamentais quanto a educação. Os adversários de Geraldo Alckmin falaram muito sobre o preço alto dos pedágios (o pior não é isso; é que se pague o mesmo por distâncias bem diferentes, o que não ocorre em nenhum país desenvolvido) e sobre o baixo nível do ensino (por mais que se ponha a culpa na heterogeneidade da população paulista). Mas haveria muito mais para falar. Um sistema à beira do colapso, como alguns técnicos já se cansaram de avisar, é o energético. O fornecimento elétrico em São Paulo está no limite, com frequentes oscilações e apagões, e não aparece ninguém para investir dinheiro - sem aumentar impostos - e racionalidade no sistema.

Por que não me ufano (3). Até aqui Dilma Rousseff só tem apontado para as continuidades, como a confirmação de Guido Mantega. A continuidade pode sair muito cara: as contas externas pioraram; a desindustrialização é um fato; os juros reais continuam altos e terão de subir porque a inflação subiu; não há marcos para atrair investimentos privados e estrangeiros suficientes para as obras de infraestrutura como as da Copa de 2014, a começar pelos aeroportos; a maquiagem do superávit fiscal não esconde o resultado medíocre de estatais como Petrobras e Eletrobras; a CPMF tende a voltar e o ambiente produtivo é um dos mais caros e lentos do mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.