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Elas dão o Tom

Segunda parte do díptico, 'A Luz do Tom' ouve irmã e ex-esposas sobre o maestro

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2013 | 02h08

Em A Música Segundo Tom Jobim, Nelson Pereira de Santos usava apenas a arte do maestro soberano para mostrar sua importância para a cultura brasileira e mundial. O filme era imagem e som. Neste A Luz do Tom, que entra em cartaz nesta sexta-feira, 8,  quem complementa o retrato do músico são três olhares femininos muito especiais: o da irmã, Helena Jobim, e os das ex-mulheres Thereza Hermanny e Ana Lontra Jobim.

São elas que falam de Tom na infância e juventude (Helena), no início e auge da carreira (Thereza) e em sua fase rica final (Ana Lontra). Três pontos de vista femininos, que descrevem muito bem a história do nosso mais importante compositor moderno. A Tom devemos obras-primas como Chega de Saudade, Desafinado, Matita Perê, Águas de Março, entre muitas outras obras que tornaram nossa existência melhor, mais inspirada e amena. A Nelson, devemos esse retrato em duas faces, que faz jus à grande figura de Tom.

Nelson e Tom são artistas de mesmo porte. Aos 84 anos, Nelson é nosso mais importante cineasta, pai do cinema brasileiro moderno. Em 1955, cozinhou a versão brasileira do neorrealismo italiano com o seminal Rio 40 Graus. O filme abriu caminho para o nascimento do Cinema Novo, movimento ao qual se incorporou ("Fui cooptado", brinca). Membro do Partido Comunista, fez forte denúncia da miséria do Nordeste com Vidas Secas, adaptação do romance homônimo de Graciliano Ramos.

Na época da ditadura, driblou a censura com filmes alegóricos como Quem É Beta? e Como Era Gostoso meu Francês. Dirigiu o filme da abertura política, Memórias do Cárcere, também de Graciliano, e adaptou Jorge Amado (Jubiabá, Tenda dos Milagres). Documentou a vida de pensadores fundamentais como Sérgio Buarque de Hollanda e Gilberto Freyre e, por fim, chegou a Tom Jobim. Eleito em 2006 para a Academia Brasileira de Letras, Nelson sente-se feliz como um garoto. E cheio de planos, conforme contou no bate-papo divertido e informal com o Estado.

Qual a diferença do primeiro filme do Tom para este?

A ideia inicial era fazer um filme, acabamos fazendo dois, a mesma coisa que aconteceu no caso do Sérgio Buarque. Um para as ideias, outro para a vida íntima. Com o Tom, um para a música, outro para as pessoas que o conheceram bem. Então eu pensei em três pessoas que viveram a intimidade do Tom. A irmã e as duas esposas, Thereza e Ana Lontra. Elas toparam e assim foi feito. São três pessoas que têm doutorado em Tom Jobim (risos).

Como elementos visuais dominantes, a mata, a água, e o urubu. Nunca um urubu foi tão bem filmado como neste filme (risos)...

O Tom tinha mania de urubu. Você sabe que o Instituto Tom Jobim fica no Jardim Botânico, no Rio. Ele falava com eles. Cultivava esse negócio de urubu. A ideia é da narração, a fluência, a memória é mesmo um regato. Basicamente o Tom era um ecologista mesmo, não ecochato. A natureza vem do Tom, eu coloco no filme, simplesmente,

O depoimento da Thereza é muito divertido. Tem aquela história da canção Águas de Março.

Ele estava no sítio dele compondo Matita Perê, que é uma música muito complicada e tinha empacado, não saía do lugar. Então foi ficando cansado, com raiva, pegou o violão, e começou a cantarolar, "É pau, é pedra..." Sabe por quê? Ele estava irritado, tinha uma obra na estrada do sítio, cheia de pau, pedra e lama, porque chovia muito.

Projetos novos pela frente?

Eu vou fazer a cinebiografia de Dom Pedro II, a partir do livro do José Murilo de Carvalho, colega de fardão. Dom Pedro tem duas linhas de memória no roteiro: a primeira, tudo o que foi feito para acabar com a escravidão do Brasil. A outra linha é a recordação de uma mulata estupenda, a Condessa de Barral, baiana casada com um conde francês. E que foi preceptora das filhas de D. Pedro.

Nelson, sua trajetória é toda no Brasil, seu interesse é todo pelas coisas do País. Não teve vontade de fazer carreira no exterior?

Fiz dois filmes em coprodução com a França. Tive alguns convites nos EUA. Uma vez me deram um roteiro, quase topei. Filme policial, um pianista, apaixonado adivinhe por quem? Por Tom Jobim. O sonho dele era ir para o Rio e conhecer Ipanema. Roteiro de um americano. Aí aparece a oportunidade de ele embarcar como músico num navio que vai para o Rio. Só que na viagem começa a bandidagem, tiroteio, aquelas coisas. Caí fora.

Como é a vida de acadêmico?

Maravilha. A Academia é muito harmônica. É um grupo bom, já de certa idade, né (risos)? Relações muito refinadas. Papo agradável. Livros, poesia, romance. Filmes, etc. Eu dou graças a Deus por estar lá, porque saí do gueto do cinema. Nesse gueto, a conversa é muito chata: leis de incentivo, o exibidor que não liga para nossos filmes, todas as questões políticas do cinema. Voltei a ler poesia, que eu não lia desde a Faculdade do Largo São Francisco!

Mas como é a rotina?

Na terça, tem uma palestra ou uma mesa redonda às 17h30. Um ou dois acadêmicos fazendo palestra. Na quinta, é a reunião interna, das questões da Academia. Tem sempre uma efeméride, é muito interessante, com alguém falando sobre um antigo acadêmico, sua obra, a importância dele. Uma palestra, seguida de debate. Na sexta, eu faço o cineclube. É bem divertido.

São mais de 60 anos de carreira. O que resta por fazer?

Ah, falta muita coisa ainda.

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Tom jobim, Nelson Pereira dos Santos

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