ELA USA BLACK TIE

Os ventos levaram Blubell a um trio de craques que tirou sua voz da adolescência e a conduziu às alturas. O desafio agora é manter-se lá

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2012 | 02h08

A boca pequena sempre muito vermelha e o nariz atrevido saíram do palco de algum cabaré francês de 1950. Se o cabelo vem solto, ondulado nas pontas, os olhos reforçados no lápis e as mãos com luvas pretas que tomam seus braços até acima dos cotovelos, então, Blubell vira personagem de Wood Allen em Meia Noite em Paris. A voz sugere que seu tempo é outro, que talvez ela viva a flor de seus 35 anos de idade com uns 60 de atraso. Seria tudo isso uma prisão e Blubell só uma caricatura vintage se sua voz não invertesse a lógica da nostalgia. Em vez de transportar quem está aqui para o passado, ela refaz o presente com memórias afetivas modernosas e vestidas de fraque.

Seu maior salto se chama Blubell & Black Tie, álbum considerado pela própria um projeto paralelo dentro de sua carreira autoral que começou em 2006, com Slow Motion Ballet, e melhorou bastante em 2011, com Eu Sou do Tempo Em Que A Gente Se Telefonava. Mas ainda nada que chegasse perto do novo disco, um álbum de intérprete que pode levá-la a anexar novos territórios. "De fato, em algumas faixas ela lembra cantoras de jazz muito especiais dos anos 30 e 40, como a maravilhosa Mildred Bailey. Questão de timbre", diz o jornalista e pesquisador Zuza Homem de Mello. Um voo que ela não faz sozinha. Os ventos levaram Blubell a um trio de instrumentistas de primeiro escalão que responde por metade, ou até um pouco mais que isso, das vitórias que podem vir com o novo trabalho.

O Black Tie é formado pelo violista e arranjador Fabio Tagliaferri, pelo violonista e violoncelista Mario Manga e pelo violonista Swami Jr. Uma espécie de reedição estética do antológico Música Ligeira, excelente trio que já fazia nos anos 90 o que se chama hoje música pop de câmara, formado então por Manga (integrante também do Premê, ex-Premeditando o Breque, desde sua formação, em 1976), Tagliaferri e pelo cantor Rodrigo Rodrigues, morto em 2005. "O Música Ligeira foi mesmo a nossa inspiração", diz Swami Jr, diretor musical e produtor da cantora cubana Omara Portuondo . "É um conceito pelo qual tudo pode passar, uma música despojada, sem maiores pretensões, que funciona muito bem para o canto." Eis o fator sorte de Blubell. Os escudeiros que lhe caíram dos céus se entendem por telepatia e contam com maturidade suficiente para estendê-la um lençol de seda que arremessa sua voz ao alto e com classe. Apesar de terem bagagem para isso, ninguém ali quer aparecer mais do que Blubell.

O jazz pop camerístico que resulta do encontro liga tudo, até o que em sua origem não é nem jazz nem camerístico. O rock and roll My Generation, do Who, tem bateria de boca, violoncelo e violão feitos por Manga. Ben, de Michael Jackson, resvala na apelação mas vira o jogo, de novo, graças ao arranjo de ukulele, de Tagliaferri, violoncelo e baixo sem trastes.

O repertório é pessoal, quase biográfico. Era a mãe de Blubell que ouvia Celly Campello cantar Billy pela casa. E era ainda na infância que La Vie en Rose, conhecida com Edith Piaf; Love For Sale, de Cole Porter; ou Long, Long, Long, de George Harrison; soavam enquanto ela brincava. "Costumo dizer que eu brincava de Barbie ouvindo Ella Fitzgerald", já disse a cantora em entrevista à Revista TPM.

Há ainda um caminho a Blubell. O mesmo Zuza, que elogia a produção do disco, tem suas ressalvas. "Ela canta bastante bem, chega bem nas notas agudas embora não tenha, nem poderia ter ainda, a força interpretativa de uma cantora de peso (por exemplo, em Love For Sale). Sua voz não tem corpo mas tenho a sensação de que essa é uma marca das novas cantoras de jazz taxadas precipitadamente de novas divas. Suspiros é uma coisa, cantar é outra." Já Solano Ribeiro, produtor e criador dos Festivais da Record nos anos 60, que trabalhou com Elis Regina em seu início de carreira, ouviu a música The Fight In Café, do disco Slow Motion Ballet, e teve a impressão de que "falta útero" à sua interpretação. A hora de virar esse jogo é agora.

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