arquivo pessoal
Renata Dunshee de Abranches, que tinha fobia de cães, adotou um filhote para o filho durante a pandemia e venceu o medo arquivo pessoal

Ela tinha pânico de cachorro e venceu o medo ao adotar um animal na pandemia 

Traumas na infância podem explicar receio; saiba o que fazer também com os pets com fim do isolamento social

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 05h00

Por anos, Renata Dunshee de Abranches teve medo de cachorros. Quando era criança, tinha verdadeiro pânico e atravessava a rua para não passar pela mesma calçada que tivesse um. “Quando eu tinha uns 10 anos, fiquei uma vez o dia inteiro dentro de um carro em um churrasco num sítio. Tinha um cachorro solto lá, pequenininho, mas eu ficava morrendo de medo e não conseguia sair do carro. Meu pai pensou que, se eu ficasse dentro do carro, uma hora eu ia sair e ia perder o medo do cachorro”, lembra.

A psicóloga Carolina Jardim, especialista em comportamento animal, explica que muitas pessoas que têm medo de animais passaram por eventos negativos. “Pode ser algum trauma, muitas vezes vivido na infância. O papel dos cães na nossa sociedade ao longo dos anos mudou muito. Na minha infância mesmo, os cães ainda viviam em quintais, alguns deles acorrentados durante o dia, pois a função era cuidar da casa à noite. E esses cães não eram bem socializados, não tinham suas necessidades básicas atendidas, e, por isso, muitas vezes, acabavam tendo comportamentos inadequados. O que, por consequência, aumentava a probabilidade de acidentes e possíveis traumas para os envolvidos”, analisa.

A fobia de Renata a acompanhou ao longo da infância. O sentimento só foi diminuindo com o tempo. “Fui crescendo, amadurecendo, e esse pânico foi diminuindo. Passei a ter uma convivência ‘amigável’ com o cachorro. Tipo, se eu chego na casa de alguém e o cachorro vem cheirar, eu deixo, mas não fico ali brincando. Não gosto de cachorro pulando. Não suporto cachorro na minha cama, no meu quarto, não tenho essa coisa de querer cachorro dormindo comigo. Não é da minha própria vontade ter um cachorro de estimação. Isso só acabou acontecendo por uma influência externa, no caso, meu filho”, afirma Renata.

Os pedidos de Guilherme, hoje com 14 anos de idade, começaram há sete anos. O garoto insistia em adotar um cãozinho, mas a mãe dava um jeito de escapar. “Ele sempre pediu muito e eu sempre disse pra ele que não dava, porque ele estudava em período integral na escola, eu trabalhava e ficava 10h fora de casa e não dava conta de um cachorro. E, no fundo, eu não estava com a menor vontade de ter e falava que ele só poderia ter um quando fosse maior e pudesse arcar com os trabalhos de ter um cachorro. Quando fosse sozinho para passear com o cachorro, limpar as coisas, aí ele poderia ser dono de um. Eu havia combinado com ele que isso seria quando tivesse uns 10 anos”, conta. 


E adivinha só? Guilherme completou 10 anos e a primeira coisa que fez foi lembrar a mãe sobre a promessa. Mas algo inesperado aconteceu. “O Guilherme perguntou: ‘Mãe, e aí?’. E eu falei: ‘Que tal um irmãozinho em vez de um cachorro?’ (risos) E aí tive meu segundo filho. Falei pra ele que cachorro agora só quando seu irmão crescer”, afirma Renata.

A grande chance de Guilherme aconteceu neste ano, em março, no início da pandemia do novo coronavírus. “Eu já estava praticamente cedendo e, no que veio a pandemia, achei que seria mais importante ainda ele ter um cachorro. Ele está em aula em casa, o dia inteiro sozinho, porque estou no banco trabalhando normalmente. Pensei que seria legal adotar um filhote e que também estaria precisando de alguém. Aí, na primeira semana da pandemia, adotamos”, revela. 


Ainda parece cedo para dizer se Renata venceu completamente o receio dos cachorros. Porém, ela já dá sinais de que está mudando o sentimento em relação aos pets. “Ele tem sete meses, então, ainda é uma avaliação baseada por um filhote (risos). Ele dá muito trabalho em casa, tem uma energia altíssima, precisa passear muito, brincar muito, de muita atenção. Mas aí nisso tudo, na pandemia, acabei descobrindo que gosto muito de sair pra passear com ele. Em casa, ele me deixa mais estressada e acalma meu filho, mas na rua ele me deixa mais calma e, pra passear, meu filho não gosta muito. Eu adoro ao aterro do Flamengo com ele, passeios ao ar livre. Sempre gostei de caminhar na rua e tenho adorado ele poder ir comigo e fazer essas atividades. Cada um tem um ponto positivo com o cachorro”, confessa.

A psicóloga Carolina Jardim, especialista em comportamento animal e treinadora de cães, ressalta que alguns indivíduos têm medo de cães porque não foram habituados à eles. “Além disso, muita gente não conviveu muito com cães e não se sente confortável perto deles. Outros tiveram experiências negativas com cães que os atacaram na infância e isso gerou algum tipo de trauma que, por não ser tratado, acaba se transformando em uma fobia”, diz. “Não tenho mais medo de cachorro como antes. Isso realmente com o convívio mudou”, conclui Renata Dunshee de Abranches.


A psicóloga Carolina Jardim aconselha as pessoas a se abrirem para os benefícios incríveis e únicos que a relação com os cachorros pode trazer. “Os cães, em princípio, tendem a confiar nos humanos, sempre. A espera por receber algo bom da gente é algo instintivo dos cães, pois está totalmente ligada à domesticação. É por isso que eles têm essa capacidade incrível de ler os nossos micro sinais a ponto de saberem quando vamos sair de casa, quando vamos comer, etc. Essa aprendizagem é evolutiva e os cães evoluíram junto com os humanos. Eles foram a primeira espécie a ser domesticada e essa convivência de aproximadamente 16 mil anos traz muitos benefícios para ambas as espécies”, garante a especialista em comportamento animal. 

A relação com um cãozinho é de troca, conexão e única. Quem tem essa experiência garante que não consegue mais viver sem a presença dos pets que, muitas vezes, ocupam um lugar de afeto que é insubstituível.

Adotei um cão na pandemia e estou voltando a trabalhar: e agora?

Muitas pessoas adotaram um cachorro em meio à pandemia do coronavírus. Foi assim com a professora Patrícia Tavares Gonçalves, que sempre quis ter um animal de estimação, mas, como não via espaço e tempo na vida para se dedicar a um, achava que não seria capaz. “Dou aula em duas redes municipais e ainda tenho um estúdio de beleza, a minha vida é uma loucura! No início da pandemia, terminei um relacionamento e aí, ao mesmo tempo, vi o amigos publicando filhotes que haviam encontrado e precisavam de um lar. Me cortou o coração e resolvi dar um lar temporário. Seria temporário, afinal, não havia tempo pra um animal nesse meio. Então resolvi pegar um filhote pra dar amor e cuidado enquanto teria esse tempo em casa”, lembra. 

A empresária pegou uma filhotinha com todo apoio do Amigos da Mia. “Quando surgiu um novo adotante pra ela, não queria mais ter de dá-la. Eu trabalho o dia todo, tem dias que nem almoço, mas adotar foi a melhor coisa que fiz na vida. Sempre julguei quem tratava bicho como filho e hoje me vejo nessa situação”, diz. O desafio agora é fazer a adaptação da cachorrinha com o fim da pandemia.


Agora, com a flexibilização do isolamento social em algumas regiões do Brasil, os tutores estão com receio de voltar a deixar os pets em casa. Para dar dicas de como lidar com a situação, a reportagem do Estadão entrevistou o adestrador comportamentalista Thiago Barbieri, fundador da Cãocentrado Adestramento e Comportamento Animal. Confira: 

1 - Como as pessoas estão se preparando para o fim do isolamento em relação aos pets? Você percebe que muita gente está com receio de deixar o animal sozinho?

Não tenho como dizer que todas as pessoas estão fazendo isso, mas o que tenho orientado aos alunos é que se preocupem em treinar para os cães voltarem a ficar sozinhos. Com a pandemia, a rotina de todos mudou drasticamente, inclusive a dos cães, que passaram a conviver praticamente 24h por dia com suas famílias. Quando o isolamento acabar, o impacto será muito sentido para os pets, que de repente terão de ficar sozinhos novamente por oito, dez, doze horas. Isso pode gerar alguns problemas, como ansiedade por separação, insegurança e estresse. O ideal é que as pessoas iniciem o quanto antes uma readaptação gradual, criando momentos de independência e isolamento para os cães ficarem tranquilos.

2 - É possível adestrar o cãozinho para sentir menos os efeitos do retorno das atividades dos tutores?

Sim, claro. No adestramento positivo existem muitas maneiras de treinar os cães a ficarem sozinhos, criando condições ‘low stress’ para que tenham ferramentas emocionais para lidar com essas situações. E é fundamental que se respeite os limites de cada indivíduo, fazendo um trabalho gradual para os cães se acostumarem com períodos sozinhos em um ambiente enriquecido, acolhedor, seguro e com estímulos que promovam atividades mentais e sensoriais.

3 - Qual conselho daria para os leitores nesse sentido?

Aproveitem o período de quarentena para passar momentos com seus cães, tenham interações de qualidade e divertidas. Conheçam melhor seus pets. E ofereçam a possibilidade deles também serem independentes, seguros e que saibam ficar à vontade sozinhos em alguns momentos do dia. E procurem a ajuda de um profissional do comportamento animal para ajudá-los nessa adaptação.


 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Cães auxiliam em tratamentos de saúde e promovem bem-estar

Contato com animal ajuda crianças, idosos e pessoas que sofreram acidente vascular cerebral, entre outros

Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2019 | 05h00

Quem tem um animal de estimação sabe o quanto a companhia, o contato físico e a atenção recíproca fazem bem para a vida. O que é senso comum ganha cada vez mais força com estudos que comprovam os benefícios de atividades e terapias assistidas por animais para melhorar a saúde, promover bem-estar e facilitar tratamentos.

O animal auxilia no tratamento de diversas doenças e, por meio do tato e da interação com o humano, promove vantagens físicas, emocionais e acelera processos de recuperação. Especialistas afirmam que a técnica deve integrar uma abordagem interdisciplinar.

“O animal é sempre um facilitador para a gente chegar ao objetivo”, diz a psicóloga Karina Schutz. “A terapia com animais é um tratamento complementar, e isso não é só com psicólogo, mas também com fisioterapeuta. Animais dentro de consultórios promovem a geração de um monte de neurotransmissores e hormônios maravilhosos: endorfina, dopamina, ocitocina”, afirma.

A profissional é fundadora do Pet Terapeuta, organização de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, que leva animais para casas de permanência de idosos, hospitais e outros espaços onde os bichos podem ser benéficos. Em outubro, o Estado acompanhou a visita das cadelas Maria e Valentina à Casa Ondina Lobo, na zona sul de São Paulo, que foi facilitada por Karina em uma ação promovida pela Bayer.

O espaço é destinado à moradia de idosos, com média de 84 anos, e conta com o trabalho de voluntários para atividades como fisioterapia, reiki e aulas de computação. A instituição sem fins lucrativos é mantida com doações, seja financeiras, de roupas ou mantimentos. No dia em que os pets estiveram lá, de surpresa, o ambiente se encheu de sorrisos e estimulou a conversa entre os residentes.

“Nós temos 68 idosos, homens e mulheres, e a rotina é parecida com a de uma casa grande, com muitas pessoas. A quebra da rotina é muito importante e, independente do comprometimento, seja físico, social ou psicológico, os animais unificam o grupo, trazem um convívio gostoso”, conta Mariana Yamagushi, gerente da Casa Ondina Lobo.

Ela exemplifica como o cachorro pode servir de facilitador para propostas terapêuticas. “Na parte de fisioterapia, alguns idosos são resistentes para fazer exercício. Com o animal, eles deitam, levantam, se movimentam naturalmente. A adesão é mais fácil com o pet.”

Profissão: pet terapeuta

O cachorro é o mais utilizado na terapia assistida por animais porque é o que dá mais retorno imediato, segundo Karina, seja positivo ou negativo. O cão é treinado, por exemplo, para não avançar, mas sim se retirar, quando não gosta de determinada atividade.

“Precisa ser um animal calmo, que tenha controle dos impulsos, goste de dar e receber carinho e tenha certa autonomia”, explica a fundadora do Pet Terapeuta.

O perfil é escolhido de acordo com a proposta da atividade. Se a equipe médica precisa obter atenção de uma pessoa hiperativa, por exemplo, um pet mais calmo é o ideal. Em termos de saúde, o cachorro tem de estar com vacinas e higiene em dia, ter boa saúde bucal e estar com vermífugo e antipulga em dia.

Outras propostas de terapias envolvem gatos, aves, coelhos, tartarugas e até cobras e escargot. “São animais que não dão tanto retorno, mas também geram alguma sensação”, diz Karina.

Benefícios

Estudos avaliam a intervenção da terapia com animais em casos de pessoas com demência, que sofreram acidente vascular cerebral e crianças com autismo, por exemplo.

“A pet terapia é muito ampla, a gente consegue atingir a pessoa de diferentes maneiras por meio do animal. É muito fácil conseguir tirar o idoso de dentro do quarto para participar da atividade, porque ele tem um bichinho em que vai poder fazer carinho”, afirma Karina. “Ali se estabelece uma relação que gera benefícios terapêuticos.”

Prova disso é a influência do método em idosos hipertensos. Um estudo feito em uma casa de repouso em Vila Velha, no Espírito Santo, observou melhor controle dos níveis de pressão arterial dessas pessoas após quatro meses de intervenção. As sessões de terapia com cães e gatos ocorriam semanalmente, com duração de uma hora cada.

“Quando as pessoas interagem com os animais, falando com eles, acariciando ou manuseando, há diminuição da frequência cardíaca e pressão arterial”, afirmam os pesquisadores. Eles pontuam que a pet terapia proporcionou momentos de alegria, relaxamento e maior socialização entre pacientes e profissionais.

“Eu passei a mãozinha nele, já recebi a energia dele. O cachorrinho emite uma energia que muita gente não sabe”, reflete Antônio Tomás, que aos 104 anos é o morador mais velho da Casa Ondina Lobo. Maria de Lourdes Malheiros, de 80 anos, está há pouco mais de um ano na residência e deixou sua cadela aos cuidados de uma amiga. Quando recebe a visita dos cães, sente-se “muito feliz, muito leve”. “A visita dos cachorros faz uma diferença muito grande na sua mentalidade, mesmo quem não gosta”, afirma.

Karina explica que os benefícios para as crianças são semelhantes. Na fisioterapia, o animal estimula os movimentos ao precisar ter o pelo escovado. O pet também pode "mediar" a comunicação entre paciente e equipe médica. “[A criança] vai lá, sorri para o cachorro, faz um carinho e você consegue fazer uma atividade.”

São poucas as contraindicações para a realização da terapia com pets. A mais importante é a pessoa não gostar do animal ou se sentir ameaçada por ele, exemplos que a reportagem presenciou na casa destinada a idosos. Fora isso, a psicóloga cita os casos de alergia, aqueles em que o médico é contra, pessoas com baixa imunidade ou com doenças de pele. “Aí, a gente vai com mais cautela”, diz a psicóloga.

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.