Ela que passa

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça... É ela que passa, num doce balanço, a caminho do... (Epa, ela está voltando. Deve ter visto algum conhecido dentro do bar). A caminho do mar. (Não, agora é a caminho do bar. E na minha direção!) Moça do corpo dourado do sol de Ipanema, o seu balançado é mais que um poema... (Ela está falando comigo!)

Verissimo, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h06

- Tá cantando pra mim?

- Não, não.

- Como, "não"? Está sim. Aliás, toda vez que eu passo aqui você me chama de coisa mais linda. Fala do meu corpo dourado, do não sei mais o quê. E que história é essa de poema?

- É pra rimar com Ipanema.

- E todos os dias é a mesma coisa. Você não tem mais o que fazer, não? Fica o dia inteiro neste bar, cantando, e mal, pras mulheres que passam? Não tem profissão? Não tem outra vida?

- "As mulheres", não. Você.

- E por que nunca foi falar comigo? Me convidou prum chopinho, sei lá. Eu não mordo, viu? A não ser em ocasiões especiais.

- Não. Entende? Falar com você derrotaria todo o sentido da música, todo o clima, que deve ser meio melancólico, meio depressivo. Conhecer você, saber o seu nome, chamar você para um papo e um chopinho, acabaria com o encanto.

- Meu nome é...

- Não me diga! Não quero saber nada a seu respeito. É importante que você não tenha nome, nem CPF, nem família, nem passado, nem futuro. E que passe. Que não fique. Você é um símbolo do inatingível, do amor impossível, de tudo que passa e não conseguimos ter, a não ser em sonho.

- Quer dizer que o encanto depende da distância. Que de perto tudo se desmancha.

- Mais ou menos isso.

- Sabe que você não deixa de ser um homem atraente? Meio estragadão e péssimo cantor, mas nós poderíamos ter uma relação. Ou uma relaçãozinha. Ou só uma amizade. Pelo menos me convide para sentar.

- Não, você não pode ficar. Você precisa passar. Quando você passa o mundo inteiro se enche de graça - mas você precisa passar!

- E se nascesse amor entre a gente? Um amor de verdade?

- Pior. Amor de verdade desmancharia o amor de sonho, o amor idealizado com a moça que passa, e que nunca saberei quem é.

- Então tá. Deixa eu pegar minha praia. Tchau, hein?

- Tchau. Amanhã, não deixe de passar.

Ah, por que estou tão sozinho? Ah, por que tudo é tão triste?

Tudo o que sabemos sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.