Ela parece só ter lado bom

Aos 22 anos e já com 2 indicações para o Oscar, Jennifer Lawrence diz que sempre se sente insegura quando começa um novo filme

CINDY PEARLMAN , THE NEW YORK TIMES

03 Fevereiro 2013 | 02h10

"Sou a pessoa mais chata que existe", diz Jennifer Lawrence. "Eu jamais gostaria de me ver atuando num filme." A atriz indicada para o Oscar parece acreditar no que diz, mas é bem possível que esteja exagerando. Afinal, aos 22 anos, ela está no topo da lista principal de jovens mulheres de Hollywood, após o sucesso estrondoso de Jogos Vorazes, de 2012, uma franquia com pelo menos duas continuações à vista.

Ela já tem duas indicações para o Oscar no currículo, o de melhor atriz - aos 20 anos, a segunda pessoa mais jovem a disputar o prêmio - por Inverno da Alma, de 2010, e O Lado Bom da Vida, de 2012, em cartaz no Brasil e também concorrendo como filme.

O único obstáculo que ela enfrenta, parece, é o peso das expectativas: depois que Jogos Vorazes arrecadou mais de US$ 650 milhões em todo o mundo e, X-Men - Primeira Classe (2011), no qual ela fez a mutante Mystique, faturou US$ 350 milhões, Hollywood pode estar esperando que todo filme com ela seja um arrasa-quarteirão global.

Lawrence insiste, porém, que não sente esse fardo. "Não vejo isso como pressão", diz a nativa do Kentucky em 15 de agosto de 1990. "Com ou sem bilheteria, sou paga e tenho uma experiência fantástica." Mas há quem diga que são os profissionais que estão em volta dela que têm a experiência fantástica. David O. Russell, o escritor/diretor indicado para o Oscar, cujos créditos incluem Três Reis (1999) e O Vencedor (2010), está entre eles.

"Tínhamos nossa lista de atrizes", afirma Russell em entrevista separada. "Jennifer apareceu de última hora. Ela me ligou pelo Skype da casa dos pais e meu primeiro pensamento foi, 'meu Deus, quem é essa pessoa?'"

Mas esta não é uma pergunta que as pessoas façam muito hoje em dia. Com presença imponente com seu 1,73 m, aumentado por saltos altíssimos, blazer preto e calça jeans apertada, Lawrence está num nível de estrelato que torna difícil ela cruzar um saguão de hotel sem ter de parar a todo momento para dar autógrafo, posar para uma foto ou falar com algum fã. E ela para em todas essas circunstâncias.

Eis uma estrela de cinema que não reclama de ser rica e famosa. Sob todos os aspectos, está se divertindo pra valer. Ela acompanha as ruminações nervosas na mídia de que tudo isso pode ter lhe chegado muito rápido e cedo, que aos 22 anos ainda não está preparada para lidar com o brilho dos refletores que vem com o estrelato. A atriz insiste, porém, que isso tudo é muito barulho para nada. "Quando você recebe uma promoção no trabalho, você nunca diz, 'foi rápido demais'", comenta.

Em O Lado Bom da Vida, o ator Bradley Cooper faz Pat, um jovem professor desocupado depois de passar oito meses numa instituição de saúde mental. Após ser liberado, ele volta para a casa de seus pais (Robert De Niro e Jacki Weaver, ambos também indicados para o Oscar), para tentar se reconciliar com sua ex-mulher. O plano de Pat desanda, porém, quando ele conhece Tiffany (Lawrence), uma jovem perturbada que está tentando resolver seus problemas emocionais.

"Sempre quis trabalhar com David O. Russell", diz Lawrence. "Ele é um de meus diretores favoritos." Ela não teve dificuldade para fazer seu papel. "Não fiz nenhuma pesquisa. Pensei nela como uma cebola fascinante. Havia muitas camadas estranhas que foram evoluindo desde que começamos a filmar." Lawrence diz que viu a personagem no contexto de todas as outras pessoas que andam por aí sentindo-se incompreendidas. "Tive de encontrar esse lugar onde o restante do mundo não te aceita", informa. "Ao mesmo tempo, você se acha ótima, mas eles não. Fico pensando que isso é uma coisa muito triste." Mesmo as estrelas de cinema têm seus momentos de insegurança, relata Lawrence.

"Eu tenho uma cena de dança com Bradley e tive de fazer o dobro das aulas de dança. Sou uma péssima dançarina na vida real. Um desastre. Por sorte, contei com um professor de dança fabuloso, que trabalhou duro comigo." A relação com Cooper foi um problema bem menor. "Temos um senso de humor parecido. Nós realmente gostávamos de mexer um com o outro", lembra Jennifer Lawrence. "Eles têm uma química fantástica", analisa Russell. "Você não sabe como a química vai funcionar. Ela estava fazendo Jogos Vorazes quando começamos, de modo que não houve chance de ensaiar de verdade. Desde o começo, eles ficaram muito confortáveis um com o outro, e muito naturais." Apesar de ser a garota da hora em Hollywood, ela diz que ainda se sente intimidada quando começa um novo papel.

"O primeiro dia de trabalho é sempre carregado de adrenalina. É como o primeiro dia na escola. Eu ainda fico me perguntando 'será que todos vão gostar de mim?'" A Jennifer Lawrence real, acrescenta ela, não está visível em seus filmes.

Ela não é Katniss Everdeen de Jogos Vorazes, assim como não é Ree Dolly de Inverno da Alma, Raven Darkholme de X-Men - Primeira Classe ou Tiffany de O Lado Bom da Vida. "Nunca tenho muita coisa em comum com uma personagem", ela admite.

Quanto ao futuro, Lawrence está filmando atualmente Jogos Vorazes - Em Chamas, com X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido, a sair em breve. Entre essas sequências, ela espera continuar fazendo filmes independentes como Um Novo Despertar (2011), A Última Casa da Rua (2012) e O Lado Bom da Vida.

Lawrence cresceu em Louisville com os olhos voltados para a atuação. Aos 14 anos, passou um verão em Nova York, procurando trabalho como modelo e fazendo audições para filmes. Ela acabou gravando comerciais para a MTV e a H&M, e seu caminho estava definido. "Eu me lembro da primeira vez que cheguei a Nova York", ela recorda. "Eu a amei tanto. Tinha 14 anos e estava usando minhas botas Forever 21 novas em folha. Ali estava eu, palmilhando as ruas, sabendo para onde estava indo. Eu me sentia em casa."

Quando voltou a Louisville, ela convenceu os pais a se mudar para Los Angeles, onde terminou o segundo grau com dois anos de antecedência, e conseguiu um papel na sitcom The Bill Engvall Show (2007-2009). Pequenos papéis em The Poker House (2008) e Vidas Que se Cruzam (2009) levaram ao hit artístico Inverno da Alma, e sua indicação para o Oscar a colocou no radar para o início dos X-Men da Fox e depois para Jogos Vorazes da Lions Gate.

"Preciso dizer que quando ouvi dizer que estavam transformando Jogos Vorazes (o livro) em filme, meu primeiro pensamento foi, 'legal, está aí outro livro que Hollywood vai estragar'", admite Lawrence hoje. "Eu não poderia estar mais errada sobre Hollywood estragar este, porque nós não estragamos!" / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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