Einstein na era do pop

Einstein in the Beach, do início da carreira de Robert Wilson e Philip Glass, volta à cena 20 anos depois

JOHN ROCKWELL, THE NEW YORK TIMES / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2012 | 03h12

Algumas obras de arte tornam-se míticas porque são importantes ou porque poucas pessoas realmente as conhecem. Einstein on the Beach, ópera de quatro horas e meia ininterruptas de 1976, de Robert Wilson e Philip Glass, qualifica-se nas duas condições. Quando Einstein estrear para temporada na Brooklyn Academy of Music, no dia 14, será a primeira vez que Nova York a vê em 20 anos.

Perguntas não faltam: um clássico do passado, cheio de referências à cultura pop, não poderia parecer obsoleto hoje? E os que amam a obra em suas encenações anteriores, em que medida as apresentações com elenco renovado no Brooklyn testarão a força de nossa nostalgia? Criadores e alguns intérpretes estavam se reencontrando de novo com a obra, desde que começaram os preparativos para a atual temporada, no fim de 2011. Glass e a coreógrafa Lucinda Childs, colaboradora fundamental, nunca mais viram a obra desde que a interpretaram.

Einstein on the Beach representa o ápice da primeira fase da obra de Glass e Wilson. Glass tornou-se talvez o mais prolífico e popular de todos os autores contemporâneos, com particular paixão por ópera; o sucesso de Einstein levou empresários europeus a encomendar-lhe outras óperas, como o termo é mais entendido, a começar por Satyagraha, na Holanda, em 1979. Wilson já estava começando a transcender o amadorismo do SoHo. Einstein selou sua transição para diretor e designer internacional, que combina obras originais com encenações estilizadas e controversas de óperas e peças clássicas. Além disso, ele atua, desenha móveis, faz videoartes extraordinárias, coleciona objetos de todo o mundo e supervisiona seu ambicioso Watermill Center em Long Island.

Einstein foi talvez o produto de maior orgulho do fabuloso cenário de artes cênicas de Lower Manhattan dos anos 1970. Sua beleza onírica, pictórica; as durações místicas; a música hipnótica; as alusões aos brilhos e perigos da obra de Einstein sem nunca parar a mera narrativa de uma história: tudo falava a uma geração que ainda exerce uma poderosa influência nas artes de vanguarda americanas e globais. Einstein foi chamada de ópera porque Wilson gostava de chamar de óperas todas suas peças grandes (The Life and Times of Joseph Stalin, Deafman Glance e outras). Não foi composta para orquestra, mas para o Philip Glass Ensemble, que consistia de dois teclados elétricos, três instrumentos de sopro e uma soprano solo sem palavras, tudo amplificado por uma mesa de som estilo de rock. Havia um coro, mas não cantores líricos.

A peça foi encomendada por Michel Guy e o Avignon Festival e teve suas primeiras cinco apresentações ali. Seguiu depois para um tour por seis cidades europeias e desembarcou nos EUA em 22 e 29 de novembro de 1976 num Metropolitan Opera House lotado. Não porque o Met tivesse uma antevisão da sua importância. Ele alugou a casa por duas noites de domingo em que esta estaria desocupada. Wilson e Glass ganharam prestígio, mas perderam muito dinheiro. Wilson ficou endividado e Glass voltou a dirigir um táxi pouco depois de agradecer diante da cortina do Met.

Em 1984, Harvey Lichtenstein e a Brooklyn Academy produziram um revival. A ideia era fazer uma turnê, mas esta não ocorreu. Houve outro revival em 1992, de novo na Brooklyn, e dessa vez em seis cidades europeias, mas em nenhum outro lugar dos EUA.

A turnê atual levou alguns anos para ser montada. Houve entendimentos em 2001, mas os ataques em 11 de setembro desse ano em Nova York enterraram o assunto. Linda Brumbach, agente Glass, conseguiu montar um ambicioso itinerário para 2012. O elenco foi formado e começou a ensaiar no Baryshnikov Arts Center em Manhattan, mas a turnê na verdade começou em Montpellier, França, em março, e continuou em Reggio Emilia, Itália; Londres; e Toronto. Após o Brooklyn vieram Berkeley, Califórnia; Cidade do México, Amsterdã e Hong Kong. Há conversas sobre estender as apresentações até 2014, em cidades como Melbourne, Los Angeles, Buenos Aires e São Paulo e talvez Bahrein, Berlim e Paris.

Nenhum esfoço foi feito para atualizar a peça. Ainda há muitas referências a eventos e à cultura pop da metade dos anos 70. Mas Wilson acredita que ela ainda funciona bem. "Estava curioso sobre como ela se sairia", disse. "Uma razão é que a estrutura é boa." Ele mesmo fez a dança solo frenética na penúltima cena da explosão nuclear, contrabalançando o violinista de cabelos crespos que aparece como Einstein. "Queria um visual demoníaco", disse Wilson. "Não o doce judeu velho no qual nos costumamos a pensar."

Glass e Wilson ainda gostam de trabalhar juntos; os dois realizaram vários projetos desde Einstein e há rumores sobre outro projeto para o Brasil, para o qual foram realizados workshops no centro de artes de Wilson em Long Island neste verão americano, mas sem revelar datas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIk

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