Egos monumentais cabem na mesma tela

Alguém poderia fazer um filme sobre Diego Armando Maradona como Emir Kusturica? Ambos são barrocos, radicais, revoltados como garotos da periferia. Eternos meninos, embora tenham idade para serem avós, e maravilhosos em suas incongruências juvenis na (muito razoável) revolta contra as injustiças. Num mundo cheio de eufemismo, complacência e atitudes miúdas, os rebeldes são o sal da terra.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Havia o que se temer deste Maradona, de Kusturica. Poderia se transformar em embate estéril de personalidades, porque, geniais ambos, são donos de egos monumentais que dificilmente caberiam na mesma tela. Kusturica usaria Maradona para falar de si mesmo? Em certo sentido, sim. Há um processo claro de identificação do cineasta com o jogador. Não apenas pelo que pensam de semelhante a respeito de Thatcher, Reagan e Bush, mas pela proveniência e preferência pelos desvalidos do mundo.

De tal forma que, em muitas passagens desse documentário sobre Maradona, veem-se trechos de filmes do próprio Kusturica. Do povo que ele retrata e celebra. Dos pobres da região dos Bálcãs, dos ciganos, com sua agitação, sua musicalidade e prodigiosa capacidade de gozar a vida. Seres irmãos daqueles que encontramos no bairro de Fiorito, onde cresceu Diego em uma família de oito irmãos.

Esses paralelismos, no entanto, não reduzem o filme a uma trip egoica. Apenas deixam claro de que ponto de vista se fala. Kusturica não é o documentarista isento que faz um filme desapaixonado sobre um ídolo popular. Ele é um fã. E, mais que um fã, um irmão do retratado. São dois malucos geniais que se contemplam mutuamente.

Dessa atitude nada objetiva, sai um recorte apaixonado da trajetória de Maradona. Da pobreza da infância aos dias de glória no Boca Júniors, no Napoli e na seleção argentina. Essa trajetória é vista como ato de afirmação futebolística e artística. E também de rebeldia e revanche, expressas pelo futebol. Não por acaso, os dois gols contra a seleção inglesa na Copa de 1986 são relembrados à exaustão. Um, o gol da "mano de Diós", e outro, aquele que é considerado como o mais bonito das Copas, quando "el diez" dribla meio time adversário até marcar.

Era a revanche ? simbólica ? do massacre dos jovens argentinos nas ilhas Malvinas. Um gol, ilegal mas de pura malícia; outro, dentro da lei e estupendo. Apenas um gênio poderia construir essa dupla obra, e numa mesma partida. Maradona, o filme, é o registro desse gênio ? com seu lado frágil, humano e contraditório como pano de fundo.

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