Damon Winter/NVT
Damon Winter/NVT

Ego demolidor

A maior sensação do rap nos EUA tem o nome de Kanye West. Um fenômeno que, ame ou odeie, não acontece por acaso

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

1. "Nos Estados Unidos, as pessoas querem que você alcance metas grandiosas, coisas que só David Copperfield faria, mas não querem que você diga: "Eu sou grandioso.""

2. "Às vezes, a verdade não é modesta. As pessoas me pedem para borrá-la, mas não vou pedir desculpas pela minha grandeza."

3. "Dizem que tenho complexo de Deus porque falei que se escrevessem a Bíblia de novo, eu estaria lá. Lógico que estaria! Sou a pessoa mais importante do pop no momento."

4. "Tenho trabalhado isso que vocês chamam de humildade, mas não gosto. Não me parece natural."

5. "Assim que você vira uma estrela, assim que você não tem mais que lavar prato, você para de crescer. Outro dia estava procurando alguém para fazer cooper por mim."

Se Vinicius fosse do gueto nova-iorquino, teria dito que o rap é a vaidade que balança. Desde os primórdios do gênero, nos soundsystems jamaicanos dos anos 70, a habilidade de um MC é medida pela maneira com que consegue desmoralizar a concorrência com rasteiras líricas. Em rimas, a exaltação do materialismo, as rixas Leste-Oeste e a ascensão de estrelas como Jay-Z, traficante transformado em magnata da indústria que atende também por Jay H.O.V.A. (alusão a Jeová), dão o tom competitivo e narcisista do gênero de música negra mais popular dos últimos 20 anos.

Portanto, não surpreende que o novo disco do galáctico rapper Kanye West, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, lançado nos EUA esta semana e com previsão para chegar às lojas brasileiras na sexta-feira, seja um delírio ególatra de proporções colossais. Mas a maneira com que Kanye, que não dá entrevistas sem controlar a produção das matérias, tornou sua auto-obsessão em espetáculo pop, fundindo, em uma sequência de álbuns que culmina agora declarações megalomaníacas e controversas com o seu gênio para produção e rima, faz do trabalho a obra de arte popular mais relevante deste início de década. As críticas são quase unânimes: a revista Rolling Stone e o The New York Times encheram a boca; o respeitado site Pitchfork deu nota dez (coisa que não acontece com um disco novo desde 2002, quando Wilco lançou Yankee Hotel Foxtrot).

Opiniões à parte (elas já rasgam furiosamente pela internet) My Beautiful Dark Twisted Fantasy é um tratado impossível de se ignorar sobre o estado atual do firmamento pop, feito pela personalidade musical mais polêmica dos últimos anos. O prelúdio desta nova ópera Westiana teve início longe dos estúdios, no MTV Video Music Awards do ano passado, quando Taylor Swift, princesa do country pop e símbolo cacheado da virtude americana, levou o prêmio de melhor clipe feminino. Kanye subiu ao palco enquanto a garota de 19 anos agradecia, roubou-lhe o microfone e disse que o prêmio deveria ir para Beyoncé, que concorria com Single Ladies. West surfava na popularidade de seu disco 808s and Heartbreak, feito depois que sua mãe morreu de complicações cirúrgicas, mas uma avalanche de críticas tomou a internet no dia seguinte e o transformou em monstro da noite para o dia. O rapper pediu desculpas imediatamente mas nem Barack Obama o poupou: chamou-o de otário, em off, durante uma entrevista.

Kanye se exilou e, quando voltou, descobriu o Twitter e passou a compor a narrativa que antecedeu o disco deste ano: se desculpou inúmeras vezes e deu início ao lançamento das faixas, um vídeo de meia hora e os tweets megalomaníacos. Aos poucos, a internet começou a vibrar com os augúrios da vaidade perturbadora de Fantasy.

Mas se Kanye tem vocação para pária, sua complexidade se intensifica com seus momentos heroicos, como quando o furacão Katrina assolou New Orleans, em 2005. Na época, o rapper, já ultra popular, disse em TV aberta que George Bush não estava nem aí para os negros (maioria racial na cidade sulista), catalisando a frustração de uma parcela inteira da população americana. (Bush revelou há algumas semanas, aquecendo a antecipação a Twisted Fantasy, que a declaração de Kanye foi o pior momento de sua presidência). A verve de protetor dos oprimidos continuou em seu ótimo disco Late Registration, onde fez crítica contundente ao tráfico de diamantes e a exploração do trabalho infantil na África.

E aí entram os detalhes que fazem de Kanye o popstar mais interessante da década. Com um senso crítico certeiro, ele questiona: "Eis o conflito: está na alma de um negro ostentar o ouro, passar a vida atrás de diamantes. Como é possível algo tão maligno me fazer sentir tão bem?"

Língua solta. Além da produção refinadíssima de suas batidas, a auto análise dosada com a arrogância de MC (uma das frases do novo disco é "se Deus tivesse um iPod, eu estaria em sua playlist") é o que o separa da maioria. As raízes estão em sua infância diferenciada: filho de pai fotojornalista e mãe professora universitária, Kanye teve uma formação de classe média muito longe da "vida loka" do gueto americano. Por isso, seu materialismo é menos corrente de ouro, mais Louis Vuitton; menos Reebok, mais Marc Jacobs. Chegou até a um ponto curioso para melhorar seu senso de estilo: estagiou na Fendi enquanto se escondia do público depois do incidente com Swift.

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