Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, encontro histórico

Músicos tocam juntos no 4.º Mimo, em Olinda, após 30 anos do antológico disco 'Dança das Cabeças'

Livia Deodato, do Estadão,

07 de setembro de 2007 | 16h58

A Igreja da Sé, fundada no século 16, foi palco de mais uma noite mágica, na 4.ª edição da Mostra Internacional de Música em Olinda. O multiinstrumentista fluminense Egberto Gismonti e o percussionista pernambucano Naná Vasconcelos voltaram a apresentar, depois de 30 anos, do antológico disco Dança das Cabeças, lançado em 1977, na noite de quinta-feira, 6. Abriram com Águas Luminosas, e continuaram, sobre ricos improvisos, com Aquarela, a música homônima ao álbum e a sensacional Gongo, onde Naná deu a base à flauta de bambu de Gismonti 'xaxando' sobre uma areia fina. "É um momento de celebração, de mostrar um Brasil que o Brasil não conhece", disse Naná dentro da sacristia que serviu de camarim, logo após o show. " Dança das Cabeças é despretensioso. É um trabalho de honestidade, de liberdade e de amizade. E isso faz muito bem ao coração, não acha?"A irmã Adélia Miranda, da Congregação Beneditina Missionárias de Tutzing, fez questão de cumprimentá-los após o espetáculo. Ela mora bem perto da Igreja da Sé e sempre comparece aos concertos da Mimo, desde a primeira edição em 2004. "O concerto foi espetacular, me senti enlevada. Gosto muito de Gismonti, ele tem uma expressão musical muito forte, que toca a alma da gente", disse, emocionada. O concerto seguiu-se com um solo improvisado no violão de Egberto e outro de Naná no berimbau. Pra deixar todo mundo boquiaberto e com os olhos vidrados. "Se um álbum que foi gravado há 30 anos continua sendo divertido, então é porque o nosso trabalho valeu a pena", declarou Gismonti. Uakti Os mineiros do Uakti também se apresentaram na quinta, 6, às 18h30, dentro da Igreja de N. S. da Graça. Eles mostraram um apanhado de canções de seus álbuns, como Águas da Amazônia (1999) e Oiapok Xui (2005), utilizando seus intrumentos peculiaresque vão desde marimbas de vidro a tambores de PVC. Se por um lado a acústica da igreja onde se apresentaram é perfeita, por outro a visibilidade é péssima: para conseguir enxergar a performance dos músicos instalados num palco baixo em frente ao altar, o público era obrigado a brincar de 'vivo ou morto'...  Os interessados em conhecer mais sobre a história e técnica do grupo fundado no fim da década de 70 puderam participar na manhã desta sexta-feira, 7, de um workshop gratuito - e aí assim conhecerem de perto o funcionamento da Iarra, uma espécie de violoncelo, e da Torre, largo tubo de PVC giratório que, quando tocado com um arco, produz um som mágico.  Programação de hoje A programação desta sexta-feira continua intensa com o violino de Jerzy Milewski e o piano de Aleida Schweitzer, às 16h, no Convento de São Francisco; Carlos Prazeres, assistente de Isaac Karabtchevsky regendo a Camerata Petrobras na Igreja do Rosário, às 1830; uma homenagem a Ariano Suassuna e seu Movimento Armorial por Inez Viana e Grupo Gesta no Seminário de Olinda, às 18h30; e termina com os instrumentistas Czech Chamber Solists, da Filarmônica de Brno, na Igreja da Sé, às 20h30. Amanhã tem João Donato e Paulo Moura no Seminário de Olinda, às 18h30, e domingo, Hamilton de Holanda e Yamandú Costa na Igreja da Sé, às 20h30, entre tantas outras atrações.  Curso de regência Por falar no maestro Karabtchevsky, ele foi convidado especialmente pelo festival para oferecer um curso de regência inédito no Brasil - e gratuito, como o restante de todas as outras atividades. Os alunos tiveram a rara oportunidade reger 86 integrantes de uma orquestra profissional, a Petrobras Sinfônica, do Rio, durante três dias. Amanhã, às 11 horas, seis dos 12 regentes selecionados (de um total de 147 inscritos) vão apresentar o resultado do curso na Igreja da Sé. "Creio que estamos estabelecendo um marco no País graças à Mimo. Queremos transformar esse festival em uma referência para os regentes de todo o mundo", afirmou o maestro.  Os japoneses Koichiro Kanno, de 36 anos, e Nabuaki Nakata, de 32, são prova disso. Conheceram Karabtchevsky há três anos na Itália, durante um outro curso de regência. "Fiquei impressionado com sua música e sua técnica para conduzir uma orquestra", disse Nakata, considerado pelo maestro um talento nato a ser burilado. "Desde então, nós o acompanhamos anualmente e quando surgiu a oportunidade de vir ao Brasil não pensei duas vezes. Não tem preço."  A repórter viajou a convite da organização do festival

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