Egberto e Hermeto ficariam mais do que envaidecidos

A missão parece das mais inglórias: trabalhar em cima do vasto legado já deixado - e que ainda vem sendo construído - por dois dos maiores revolucionários da música brasileira, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. E eis que diante de tal desafio, Hamilton de Holanda e André Mehmari conseguiram o que parecia improvável e engrandeceram temas de Egberto e Hermeto.

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2011 | 00h00

O duo, que já havia dado provas em 2007, no disco Contínua Amizade, de como fazer arranjos respeitosos, criativos e autorais para composições de nomes como Pixinguinha, Nelson Cavaquinho e Guinga, surpreende ainda mais em Gismontipascoal. O álbum tem pela primeira vez a participação de Egberto e Hermeto num mesmo disco. O primeiro tocou seu violão para seu tema Fala da Paixão. Já o segundo, como de costume, fez sua zorra do bem com teclado, chaleira, flauta, etc em Música das Nuvens e do Chão.

Em termos de qualidade sonora, o disco foi muito bem gravado, ficando à altura das composições e das interpretações inspiradas de Hamilton e Mehmari.

Mesmo estando em janeiro não é nenhum desatino afirmar que Gismontipascoal fatalmente já é um dos melhores álbuns de 2011. De Egberto, além de Fala da Paixão, o duo deu nova vida a clássicos do compositor fluminense, como Palhaço e Frevo, além das emotivas Memória e Fado, Lôro (composta e dedicada a Hermeto) e um dos maiores destaques do disco, Sete Anéis.

Já Hermeto, o Bruxo de Lagoa da Canoa, foi contemplado em temas lindos que reafirmam mais uma vez sua grandiosidade como melodista. Bandolim e piano enalteceram pérolas como Bebê, em velocidade absurda, O Farol que Nos Guia e as não menos emotivas e brilhantes São Jorge, Intocável e Santo Antonio.

O álbum também reservou espaço para composições de Hamilton e André. O bandolinista regravou desta vez a dolente Menino Hermeto, que ele fez inspirado em Menina Ilza (composta pelo multi-instrumentista quando da morte de sua ex-mulher). Já o pianista fez Chorinho pra Eles, uma colagem divertida de diversos temas da dupla de homenageados no disco. Mas o petardo mesmo fica por conta de Gismontipascoal, que batiza o disco, além de ser registrada em dois arranjos e comprovar que já está mais do que na hora de Hamilton de Holanda e André Mehmari serem respeitados não apenas como grandes instrumentistas, mas também como compositores de primeira linhagem.

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