Efrain Almeida abre mostra enxuta em SP

Efrain Almeida é um artista raro.Com as pequenas e delicadas obras que realiza, associandoelementos suaves e repletos de simbologia, como a madeira e otecido, ele faz uma leitura absolutamente contemporânea douniverso cultural brasileiro. Numa época em que a pasteurizaçãoparece muitas vezes dominar o discurso plástico, que buscaampliar as fronteiras de experimentação, o trabalho de Efrainpropõe resgatar, de maneira absolutamente pessoal, o substratoartístico e cultural que marca sua visão de mundo e que tem umarelação profunda com a história do País.As obras expostas na Galeria Fortes Vilaça traduzem comperfeição o que Efrain define como uma forma de "potencializar,transcender o cotidiano por meio da arte". A montagem éextremamente enxuta e chegamos a desejar que ele tivesseaproveitado mais o espaço para expor mais peças. Mas seuobjetivo era exatamente o de explorar ao máximo a relação entreos trabalhos e a parede branca, levando o espectador aconcentrar-se, a deixar-se seduzir pelos trabalhos, fazendo comque a pequena escala potencializasse sua carga poética.São apenas cinco séries (ele trabalha sempre em séries,que abandona em alguns momentos e retoma mais adiante, numdiálogo constante com questões que povoam seu imaginário e suamemória). Logo na entrada da galeria, vemos duas pequenas mãossegurando passarinhos, ambos esculpidos em madeira. Há nessaobra uma ambigüidade muito presente em sua produção. Não se sabeao certo se as mãos amparam ou retêm os pássaros.Como sempre ocorre no trabalho de Efrain, as mãos são asdo próprio artista (ele utiliza constantemente a própria imagemcomo ícone, como um padrão visual a ser repetido, com suasimperfeições e mudanças). E como tal, carregam as feridasdecorrentes do processo de talhar. Mesmo que ele afirme queesses cortes não têm nenhum simbologia especial, eles são tãoreais que provocam no espectador uma espécie de agonia, umsentimento de comiseração. O que era sedução da forma, torna-sedor compartilhada.O mesmo ocorre com a série de trabalhos na paredeoposta. Lá vemos pequenas camisas feitas em tecido transparente,cingidas por coroas de espinho em madeira. A obra remete à sérieMarcas, que ele já expôs no mesmo local e que fala dos amigosque viu morrer na infância. Mas em vez da leveza desse trabalho(em que os "corpinhos" eram sustentados por mãos delicadas),essa obra literalmente tira o fôlego, reflete de forma precisa acontradição provocante da obra de Efrain.Afirmar a relação de suas obras com os ex-votos é algoque o incomoda, como uma atitude reducionista, que parecepretender limitar sua obra a um caráter folclórico. Mas isso nãoquer dizer que ele negue o repertório visual gravado na mente dogaroto que, mesmo tendo uma formação bastante erudita evanguardista, nasceu no sertão do Ceará, viu e conviveu com apobreza e que desde menino aprendeu a lidar e a refletir sobre aprofunda religiosidade e as tradições artesanais de seu estadonatal.Efrain Almeida. De terça a sexta, das 9 às 19 horas;sábado, das 10 às 17 horas. Galeria Fortes Vilaça. Rua Fradique Coutinho, 1.500, tel. 3032-7066. Até 8/9. Abertura amanhã às 20 horas.

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