Efêmero

Gostei dela como você gosta quando uma mulher realmente o agrada. Ela provoca em você uma vaga impaciência. Incertezas. Ela o traz de volta à adolescência. Tira sua loquacidade. A experiência de anos se faz pedaços.

Antonio Skármeta,

10 de setembro de 2012 | 19h08

Tinha o modo soberbo de uma dama que esteve no mundo todo. Pronunciava as sílabas completas, altiva, com uma entonação perfeita. Parecia que acabara de inventar o castelhano e que desfrutava dos sons com um meticuloso deleite.

Eu, que venho de um país onde o "esse", o "cê" e o "zê" são a mesma coisa, senti-me instantaneamente fascinado e ao mesmo tempo um analfabeto.

Ela era uma jornalista madrilenha e eu pintor. Talvez por isso nunca soube usar as palavras com essa graciosidade.

Vendo-me assim como um inepto já devia ter se perguntado dez vezes porque sua revista a encarregara de me entrevistar: afinal, pintores existem a granel. Minha galerista havia me dito: "se cada uma das pessoas que pinto comprasse pelo menos um quadro a cada década, minha profissão seria a mais rentável do mundo".

Estávamos na varanda do hotel em Punta del Este, no Uruguai e, lentamente, ela limpava as lentes dos óculos com um feltro, sorrindo irônica à espera que eu sucumbisse ao lugar comum de lhe dizer quanto gostei dela para sorrir e colocar indiferente o meu elogio no seu amplo arquivo de lisonjas.

O balneário estava vazio: era pleno inverno, o mar turbulento e as respeitáveis ondas eram avaliadas com respeito pelos surfistas em sua roupa apertada.

Na mesa, duas pedras impediam que o vento levantasse a tolha da mesa e derramasse nossos martinis com suas respectivas azeitonas atravessadas por um palito de dente.

Mas, mais inquietante do que a bebida, era a chave ao lado da sua taça, do quarto 31.

- Então você é chileno - disse repentinamente.

- Sim.

- Que divertido.

- Por que?

- Um país assim tão grande, tão débil. Nunca estive lá, mas eu o imagino muito estreito. Deve ser incômodo.

- Às vezes. Mas tem uma grande vantagem. Milhares de quilômetros de mar. Ou seja, o infinito ao alcance da mão.

- Para que serve o infinito quando se é tão efêmero? - disse, depois de beber, melancólica, um gole do seu dry martini.

Não soube o que responder, mas como em êxtase tive uma visão total do azul mar da minha pátria e uma espécie de coragem delirante fez-me levantar da mesa. Tirei meu abrigo, minha calça e em poucos segundo fiquei apenas de maiô

- Um mergulho - anunciei, esvaziando de um gole só meu coquetel.

A jornalista envolveu o pescoço num xale negro e sorriu cética.

- Não vai conseguir.

Caminhei até a praia. Ao me aproximar dos surfistas, o que parecia mais velho olhou-me incrédulo.

- Não me diga que vai nadar!

- Fiz uma aposta - respondi, sentindo a água gelada roçar meus pés.

- Pobre. Já perdeu.

-Não, ganhei. Mas nem imagina o que está fazendo neste momento quem a perdeu.

Corri até a primeira onda e mergulhei com energia suficiente para que não me arrastasse de volta à praia. No começo uivei de dor: o gelo dava pontadas no meu rosto. Mas ao enfrentar, com êxito, a segunda onda, gritei de felicidade. Era terrivelmente efêmero, mas estava submerso no infinito. Isso era tudo.

Havia prometido um mergulho que desejava muitíssimo e saudei com minha ousadia esse deus que Saint John Perse chamou de "o mar de todas as idades e todos os nomes".

Corri de volta para a mesa para colocar meu abrigo. As duas taças estavam vazias e sob a chave do quarto 31 havia um papel dobrado. Parecia uma mensagem.

Tiritando, desdobrei e li:

"Chileno, parece que deixei na mesa a chave do meu quarto. Se a encontrar, pode me trazer?

Tradução de Terezinha Martino

 

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