Divulgação
Divulgação

Edward Lear, dois séculos de nonsense

Escritor e desenhista inglês, nascido em 1812, criou figuras surrealistas e uma literatura sem pé nem cabeça

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2012 | 03h10

O bicentenário do desenhista, pintor e escritor inglês Edward Lear (1812-1888) foi lembrado em junho com a montagem do musical Fora do Bumbo, apresentado no teatro da Cultura Inglesa, e ganha agora duas publicações: o livro de ensaios As Antenas do Caracol, que traz um estudo sobre sua obra da crítica Dirce Waltrick do Amarante, e Viagem Numa Peneira, livro traduzido por ela com seus limeriques (limericks), poemas e canções. Ambos publicados pela Iluminuras, são volumes preciosos. No Brasil, além do poeta Augusto de Campos (em O Anticrítico), da acadêmica Myriam Ávila e do escritor curitibano Valêncio Xavier (1933-2008), poucos se debruçaram sobre a obra do homem que consagrou o nonsense na literatura. E mais: que marcou definitivamente a linguagem de criadores como Lewis Carroll. Há um diálogo estreito entre as invenções linguísticas e os desenhos surrealistas de Lear com as criaturas bizarras de Alice no País da Maravilhas.

Viagem na Peneira é uma bela introdução à obra do desenhista e ilustrador, um dos principais da era vitoriana. Traz, entre outras produções, alguns "limeriques" publicados no livro A Book of Nonsense, versos breves escritos para crianças com ilustrações do autor, publicado originalmente em 1846. Custa crer que um século antes dos surrealistas, Lear já antecipasse (com humor) o imaginário alucinado de Dalí, criando moças de nariz comprido que contratam criadas para transportar o aleijão, ou garotas de queixo longo que tocam harpas douradas com a ajuda do mesmo.

O nonsense não era um gênero em voga quando Lear começou a fazer desenhos de aves por encomenda de uma sociedade mantenedora de um zoológico inglês. Contemporâneo de Lewis Carroll, ele se divertia, a exemplo do colega, criando neologismos e um bestiário fenomenal, além de uma botânica muito particular, em que predominam espécies como a "extranhaflora babylöides" (uma flor onde nascem bebês) ou a "muytagentia pontacabecia" que, como o próprio nome indica, é um pé de gente de ponta-cabeça. A tradução desses nomes impossíveis só poderia mesmo ter sido feita por Dirce Waltrick do Amarante, autora de uma tese sobre Lear e estudiosa das relações que James Joyce e outros autores experimentais tiveram com suas invenções literárias.

Nascido numa gigantesca família (eram 21 irmãos) de classe média, em Holloway, subúrbio de Londres, o ilustrador foi criado por uma irmã mais velha. Epilético, Lear evitava o contato social (em sua época, a doença era associada à possessão demoníaca). Tornando-se uma criança depressiva, ele procurou compensar os longos períodos de reclusão com viagens ao exterior, pagas com seus desenhos, pinturas e direitos autorais (seu primeiro livro, que traz ilustrações de papagaios, foi publicado aos 19 anos).

Suas ambições literárias, de certo modo, foram eclipsadas pelo êxito de seus limeriques. Lear gostava das aliterações da poesia de Tennyson, ancorada nos mitos gregos e nas lendas medievais. Planejava ilustrar seus livros, mas nunca chegou a concluir o projeto (alguns desenhos esparsos foram encontrados após sua morte). Isso não significa que Lear tenha produzido uma literatura menor. Por meio de seus neologismos, que contrastam com a forma do soneto tradicional, ele criou peças literárias de imenso apelo entre as crianças (como A Coruja e a Gatinha, uma da mais populares canções infantis inglesas até hoje).

A autora de As Antenas do Caracol diz em seu livro que a origem dos poemas cômicos conhecidos como "limeriques" foi o zoológico de lorde Stanley. Aos 18 anos, desenhando araras e periquitos, resolveu escrever poemas curtos, de quarto e cinco versos, que ele chamava de "nonsense", ou "old persons" (velhos). Ninguém sabe ao certo o porquê dessa denominação, segundo Dirce Waltrick. Ela pode estar relacionada ao ritmo dos poemas, eventualmente inspirados nas melodias ou danças populares do condado de Limerick, na Irlanda. A interação com o desenho mostra que Lear, antes dos poetas concretos, buscou uma correspondência visual para o verbo, capturado no momento de sua metamorfose e transformado em música pelo controle das rimas e do ritmo da poesia.

Nos limeriques de Lear, a primeira e última linha do poema de cinco versos terminam, de modo geral, com a mesma palavra-rima. Os personagens, claro, são excêntricos que usam as roupas das tias, colocam um lampião no narigão para pescar na escuridão, devoram um catatau em pé (e numa perna só), conversam com sapos no banhado, ensinam dança a patinhos e valsam com moscas varejeiras. Tanta excentricidade pode encontrar uma explicação na biografia de Lear. A canção A Coruja e a Gatinha, que ele escreveu para os filhos do amigo e amante John Addington Symonds, não disfarça o gênero dos bichos. Embora de espécies diferentes - e eventualmente fêmeas -, saem para passear num barco verde-limão, levando um pote de mel e um violão, que a coruja toca enquanto canta - literalmente - a gatinha, que, encantada, pergunta à ave quando, então, vão se casar.

No caso de Symonds, ele já era casado, mas sua mulher não parecia se importar muito com a amizade íntima entre o marido e Lear, segundo o biógrafo do último, Peter Levi. O fato é que Lear gostava mesmo de crianças. E elas, dele. Seus desenhos são despojados, falam a língua dos pequenos, instaurando o caos do nonsense. A lógica de Carroll é mais intelectual, comparou Aldous Huxley no livro On the Margin. "Lear, mais caracteristicamente um poeta, cunhou palavras apenas em razão de suas cores e sons", escreveu o autor de Contraponto. Ao contrário de Carroll, que inventou a "palavra-valise" em Através do Espelho - Humpty Dumpty a define como "uma palavra com dois significados embrulhados numa só palavra" -, os neologismos de Lear não têm significado. Seguem, enfim, o nonsense da natureza que observava no zoológico. Por que, afinal, uma arara tem penas vermelhas e um papagaio é todo verde? O nonsense de Lear, é, portanto, um elogio à diversidade, uma afirmação da liberdade criativa que conduziria a literatura a Joyce. E, por que não citar um brasileiro que segue tanto Carroll como Lear, o poeta Sérgio Medeiros, marido da tradutora Dirce Waltrick do Amarante? Ele acaba de lançar Totens pela mesma Iluminuras, que reúne dois livros, um deles, Enrique Flor, dedicado a um músico (Henry Flower), personagem do grande épico moderno, Ulisses.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.