Edward Albee atingiu seu ápice com 'Quem Tem Medo de Virginia Woolf?'

Devastador combate conjugal tendo como fundo as rivalidades e jogos de poder numa universidade de elite

Jefferson del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

25 de abril de 2014 | 03h00

Em uma noite de 1958, Edward Albee trancou-se na cozinha do apartamento em Nova York e até o amanhecer escreveu sem parar a peça Zoo Story, que o consagrou imediatamente. Tinha 30 anos e até então sua vida seguia o roteiro conhecido de gente criativa com passado de altos e baixos. Filho de família rica, mas problemática, excluído da academia militar, saiu cedo da casa paterna para uma existência errante e empregos ocasionais (até telegrafista como o futuro escritor Henry Miller).

Em São Paulo, Zoo Story foi interpretada por Raul Cortez e Líbero Ripoli Filho e mais tarde por Marco Nanini e Lorival Pariz (1934-1999). O enredo é lentamente brutal: um desconhecido, desajustado e agressivo na solidão nova-iorquina, aborda um pacato cidadão de classe média que lê em um parque. Há um crescendo de provocação que termina em morte.

Em seguida Albee escreveu Caixa de Areia, A Morte de Bessie Smith, homenagem à grande cantora negra de blues (1894- 1937) e Sonho Americano. Obras consistentes que foram logo encenadas nos Estados Unidos e na Europa.

Em 1965, ele atingiu seu ápice com Quem Tem Medo de Virginia Woolf, um devastador combate conjugal tendo como fundo as rivalidades e jogos de poder numa universidade de elite. No mesmo ano Cacilda Becker trouxe a peça para o Brasil. Foi seu penúltimo desempenho e quem a viu entende porque Cacilda merece a celebridade, a admiração e a lenda. O espetáculo denso de Maurice Vaneau tinha ainda Walmor Chagas em um dos seus melhores desempenhos e os jovens e talentosos Lilian Lemmertz e Fúlvio Stefanini. No ano seguinte o cinema apresentou esta guerra familiar centrada em Elisabeth Taylor e Richard Burton (há DVD).

Uma das características de Edward Albee é o efeito surpresa. O francês Michel Corvin em seu Dicionário Enciclopédico do Teatro observa o ritmo quase musical das suas peças. Há crescendo, pausas e os cortes abruptos. Em termos literários, lembra os romances de Patrícia Highsmith, sobretudo Águas Profundas, quando dois homens em convívio aparentemente amigável nadam na piscina de uma mansão. Subitamente, um deles domina e afoga o outro. Acerto de contas.

A crueldade ronda as personagens de Albee, seja por motivos psicológicos individuais, seja porque o contexto social conduz ao ódio. Esta crispação neurótica também o levou a ser incluído no teatro do absurdo. Não é bem o caso. Albee é político ao mostrar esta América que o mesmo ex-telegrafista Miller chamou de "Pesadelo Refrigerado".

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