Eduardo Moscovis: atuação surpreendente nos palcos

Ator está em cartaz no Teatro Folha, em São Paulo, com a peça 'Por uma Vida Menos Ordinária'

Pedro Henrique França, da Agência Estado,

23 de novembro de 2007 | 15h49

"Para mim, atuar é meu motivo. Minha explicação de existir, por enquanto, está no que eu faço. Estou aqui, meio-dia, conversando com você numa sexta-feira de feriado por causa do meu trabalho. E o que me motiva estar aqui, feliz, é estar conversando sobre meu trabalho. Quando estou a minutos de entrar no espetáculo, em qualquer lugar que esteja, estou agradecendo por estar ali, de fazer aquilo que eu mais gosto na vida profissionalmente". O depoimento do ator Eduardo Moscovis à reportagem da Agência Estado, em pleno feriado, por si só bastaria. Ou, por outro lado, poderia até ser denotada como clichê, de alguém que está querendo apenas promover seu trabalho e sua profissão. Mas, neste caso, não. Ditas cara a cara, as palavras do carioca Du Moscovis transmitem verdade integral. É possível verificar isso, atualmente, em duas ocasiões. Moscovis está em cartaz nos palcos do Teatro Folha, em São Paulo, com Por uma Vida Menos Ordinária, e nas telonas com Sem Controle. Trata-se de dois personagens conflitantes, cada qual com sua obsessão e tormento: Adriano (Por uma Vida...) e Danilo, de Sem Controle. Na dobradinha, é notável o amadurecimento de Moscovis e a promessa de que esse carioca, de 39 anos, ainda vai mais longe. Em Sem Controle, primeiro longa dirigido por Cris D'Amato, o ator Du Moscovis representa um diretor de teatro apaixonado pela história de Manoel da Motta Coqueiro, um fazendeiro que dá origem à discussão sobre a extinção da pena de morte. "Ele fica obcecado em contar essa história, mesmo que todos que estão em volta dele digam que não vale a pena", conta. Os limites entre real e imaginário se confundem, e a história toma outro sentido quando Danilo é convidado a dar aula em uma clínica psiquiátrica e o coração passa a bater mais forte por uma das pacientes. Mas é em Por uma Vida... que a atuação de Moscovis chama mais atenção, muito provavelmente pela proximidade do ator com a platéia que os tablados proporcionam. No texto da revelação do cenário teatral carioca Daniela Pereira de Carvalho (que também está em cartaz com a peça biográfica de Renato Russo no Centro Cultural Banco do Brasil), a jovem dramaturga traça um panorama de uma classe média atual, de desejos perdidos e confusos e da busca pelas drogas como válvula de escape. "A Daniela propõe uma linha de crescimento da narrativa que me chama muita atenção e nesse texto ela discute essa engrenagem social em que estamos inseridos e que debatemos quase que o tempo todo", afirma. "A forma de trabalho dela também é algo que me instiga muito. A Daniela tem um processo que envolve todo o elenco. Ela espera os atores falarem, para começar a ouvir os personagens na boca dos atores. E é um método que eu acho muito generoso na concepção teatral". Um soco no estômago Como um soco no estômago, Moscovis, Liliana Castro e Joelson Medeiros interpretam, respectivamente, um casal de irmãos e o amigo policial. Trata-se de um músico em decadência e uma garota que abriu um bar e faliu. No meio da vida dos dois, o amigo policial, vivido por Joelson, que alimenta o vício de cocaína de Adriano. A irmã recorre ao álcool para abstrair suas frustrações e assiste com melancolia os excessos dos outros dois. Tudo culmina com um assassinato, em plena madrugada, numa das tantas noites regadas à cocaína, quando o personagem de Moscovis toma a arma do amigo e começa a brincar com ela na sala. A arma dispara sem querer, os amigos se assustam e voltam a dormir. No dia seguinte, a irmã pega o jornal, ironiza dizendo que é naquelas folhas que ainda restam alguma perspectiva, e lê a notícia de um assassinato por bala perdida ocorrido na rua do prédio. O autor do disparo fatal? Seu irmão. Em meio a esse tormento e a pseudo-sensação de culpa de Adriano, que revela a fragilidade da juventude de classe média, é inegável dar razão às palavras de Moscovis quando está nos palcos. É dele esta avaliação: "Na hora que estou interpretando, eu passo tudo aquilo que trabalhei para estar ali. E se você tiver na platéia e, por acaso, me eleger como foco de atenção você vai me ver vivendo o Adriano ininterruptamente e vai ficar comigo durante todo o tempo do espetáculo". É, de fato, verdade o que Moscovis diz quando comenta o seu trabalho. Além de um texto bem costurado, uma cenografia inovadora, um elenco afinado e uma direção correta, é possível observar em Por uma Vida... um ator que se dedica à arte cênica com uma entrega comovente. Nos gestos, na fala, no olhar - ali, como Adriano, a força de expressão de Moscovis não cessa um segundo, nem mesmo quando está fora do foco da cena. Adriano e 'Tropa de Elite' Ao falar de Adriano, aproveitamos para fazer uma relação da peça com o filme Tropa de Elite, de José Padilha. Moscovis concorda com a comparação e diz que a peça "tem muito a ver". Ironizo que o Capitão Nascimento do filme acusaria seu personagem de alimentar o tráfico, e ele compactua: "A classe média usuária faz parte, sim, ela alimenta o tráfico. Não tem como negar". Ele pondera, entretanto, que está na hora de uma discussão mais aberta sobre as drogas e questiona o fato de o álcool ser uma substância lícita. "Porque não existe uma recriminação da sociedade com o álcool? Essa hipocrisia tinha que cair, e depois ir lá, estudar, e até discutir, quem sabe, a legalização. Mas de uma forma aberta". Projetos Durante a entrevista, Moscovis não fala de vida pessoal, nem da relação com sua mulher, a apresentadora Cynthia Howlett, com quem está há três anos e já tem uma filha. O ator limita a conversa aos assuntos profissionais, mas não soa arrogante. Neste meio, como relata, os projetos continuam a todo vapor. Mas novela, por enquanto, ainda está fora de suas previsões. Em março de 2008, o ator entra no ar pela HBO com o seriado Alice, onde aparece em três episódios. O "mais relevante" da experiência, segundo ele, foi a possibilidade de trabalhar com o Karim Aïnouz (Céu de Suely) e com o Sérgio Machado, de Cidade Baixa. "Foi muito bacana e eu espero que renda mais frutos", diz. "É um universo que eu, como ator, venho perseguindo há algum tempo". Questiono-lhe se ele foi fisgado pelo mundo da sétima arte. Moscovis rebate: "Sou fisgado pela arte de representar". Disso, não tem como duvidar. Basta ir ao Teatro Folha e fazer sua constatação. Por uma Vida Menos Ordinária. Teatro Folha, Shopping Pátio Higienópolis, Av. Higienópolis, 618, piso 2, tel (11) 3823-2323. Sextas, às 21h30, sábados, às 21h, e domingos, às 19h30. De R$ 40 (sex. e dom.) a R$ 50 (sáb.). Até 23/12.

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