Eduardo Coutinho, cabra sem internet

Diretor lança livro de críticas e fala de manifestações convocadas pela rede

ANTONIO GONÇALVES FILHO , ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2013 | 02h10

Entre 1973 e 1974, antes de trabalhar para o Globo Repórter, o cineasta Eduardo Coutinho escreveu dezenas de críticas de cinema para o Jornal do Brasil. Surpreendentemente, não só análises do cinema político que se fazia na época no Brasil, como musicais de Hollywood (Cantando na Chuva, por exemplo). Uma antologia desses textos chegou à 11ª Flip em versão condensada, a tempo de acompanhar sua palestra no evento. Publicado pela Cosac Naify, O Olhar do Documentário, com tiragem limitada de 200 exemplares, antecede a edição definitiva, que terá mais páginas, cujo lançamento deve acontecer em outubro, durante a 37ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Coutinho, talvez o mais conhecido documentarista do Brasil, autor de Cabra Marcado para Morrer (1964-84), Jogo de Cena (2007) e As Canções (2011), concedeu ontem uma entrevista coletiva para falar do livro, organizado pelo editor Milton Ohata. Dividido em duas partes, O Olhar do Documentário traz na primeira uma reflexão do cineasta sobre seu ofício de documentarista, texto escrito em 1992, e as críticas do Jornal do Brasil. Na segunda parte foram reunidos depoimentos do poeta Ferreira Gullar e dos cineastas Eduardo Escorel e João Moreira Salles. Eles contribuem para o entendimento da personalidade de um diretor guerreiro, que ainda assim quer entender o mundo, não destruí-lo.

"Comecei minha carreira jornalística como copy desk, revisor, o que explica minha tendência à correção." Como o diálogo interpessoal sempre pode levar a equívocos, ele preferiu usar a câmera como sua intérprete, justifica. O diálogo que ele trava com os espectadores de seus filmes por meio dela recorre a uma sintaxe enxuta, sem truques, em que personagens anônimos desfilam na tela contando seus dramas pessoais sem qualquer interferência de Coutinho, que, como bom jornalista de formação, aprendeu a ouvir antes de emitir qualquer juízo sobre o que vê. Aos 80 anos, ele conserva a sobriedade de um documentarista lúcido, capaz de tratar tanto da seca do Nordeste como do jogo de sedução que uma atriz exerce sobre seu interlocutor, a ponto de convencer o espectador como a protagonista de um drama real representado em Jogo de Cena, cruzando ficção e realidade.

A respeito do primeiro tema, Coutinho lembrou, na entrevista, como era mais fácil fazer jornalismo em plena ditadura numa emissora como a Globo do que hoje. "Em 1976, rodei um plano de três minutos com um flagelado falando sobre as várias espécies de raízes que comia durante as secas, o que seria impossível hoje, tanto por problemas formais como pelo conteúdo." É como se o drama fosse expurgado da televisão para dar lugar ao melodrama das telenovelas, duramente criticadas pelo cineasta como barulhentos produtos para consumo imediato das massas.

Isso não significa que Coutinho abomine o entretenimento, tanto na televisão como no cinema. O organizador do livro, Milton Ohata, observa que o cinema americano "merece de Coutinho as análises mais numerosas e variadas" no livro. Exemplo disso é a crítica de Cantando na Chuva, o clássico musical com Gene Kelly, em que o crítico identifica um tom paródico sobre o show business e uma brincadeira com os mitos criados pela sociedade de espetáculo.

Os últimos comentários da coletiva foram reservados para a relação entre fontes de informação nem sempre confiáveis, como a internet, e as manifestações de rua em todo mundo convocadas por meio da rede, inclusive no Brasil. "Elas foram importantes, mas uma coisa de classe média, pois a maioria da população nem tem acesso ao computador." E não apenas a massa. Coutinho diz que tampouco tem um e se considera um absoluto "analfabeto" na internet.

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