Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Edu Lobo comemora 70 anos no Rio e em São Paulo

Shows terão participações de Chico Buarque e Maria Bethânia

Roberto Nascimento, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2013 | 02h12

RIO - "As melodias nunca vieram fácil. A vida inteira tive de correr atrás delas", conta Edu Lobo sob a meia-luz de seu estúdio caseiro em São Conrado. A frase diz muito sobre a fértil obsessão musical que nos trouxe Beatriz, Pra Dizer Adeus, Choro Bandido e Valsa Brasileira, entre outros diamantes do cancioneiro nacional; sugere o intenso garimpo, além do constante estado de fluxo, perpetuado por Edu na elaboração de seus milagres, muitos dos quais serão mostrados nesta quinta-feira, com a participação de Chico Buarque, Maria Bethânia e Mônica Salmaso, no show que o compositor faz no Theatro Municipal, do Rio, para comemorar seus 70 anos (uma outra apresentação está marcada para o Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em 13 de setembro).

"Eu sou virginiano, detalhista. Experimento muito antes de achar que cheguei no ponto certo", conta, após relatar um caso recente em que ficou de fazer uma composição para Nelson Ayres e tanto cutucou que começou a duvidar da música. "Cheguei a ameaçar deletá-la. Apontei o dedo, mas alguma coisa me segurou. Dei vinte dias e, quando fui ouvir de novo, pensei: 'como é que eu tô com vergonha de mandar isso? Ela tá bonita!'", diz.

Eis um retrato do vagaroso processo com que Edu destila suas melodias, uma forma de compor que não dá pontos sem nó e ecoa na precisão do produto final. Basta ouvir algo como Valsa Brasileira para compreender que seus lampejos de gênio nada devem a um Lieder de Schubert, ou uma Valse Triste, de Sibelius. De acordo com o próprio, o enfoque meticuloso começou a ser parte de seu processo à medida que amadureceu. "Acho que isso foi piorando com o tempo. Quando você é jovem, faz coisas de que mais tarde se lembra, e pensa 'como'?", diz, em tom de brincadeira e autodepreciação. A maturidade chegou na segunda parte dos 30 anos, no final dos anos 70, início dos anos 80, época em que começaram a surgir as canções mais substanciais, muitas delas feitas para o teatro em parceria com Chico Buarque, sob influência indireta de Tom Jobim.

A amizade com Tom não é atrelada a uma influência direta na forma de compor, mas os conselhos e as colaborações do maestro são lembrados por Edu com um carinho quase religioso. Durante a composição de O Corsário do Rei, com Chico Buarque, nos anos 80, Edu encafifava com a segunda parte de Choro Bandido (que, diga-se, é tão estonteante quando a primeira). Em suas palavras "não estava honrando a primeira". Edu então mostrou-a para Tom, que já tinha feito a não menos respeitável introdução à música e respondeu: "Para com isso. Vai descansar".

"O Tom gostava de implicar", conta. "Era uma implicância completamente afetiva. Às vezes parecia maldosa, mas não era. Quando ele gostava de uma música sua, ele ia pro piano imediatamente. Queria aprender, como uma criança. Dali a pouco, ele surgia com um acorde novo, já bem melhor do que o que você tinha pensado. Ele fez isso com Pra Dizer Adeus, que tem dois acordes lindos dele, além daquela introdução maravilhosa. Então, dias depois, ele pedia para você tocar a música de novo: 'Toca Pra Dizer Adeus aí'. Eu tocava e. quando chegava na hora dos dois acordes, os dois que ele tinha mudado. ele dizia: Edu Lobo, você é um craque (risos)".

Mas esta forma de composição semicoletiva, feita em pingue-pongue com seus contemporâneos tornou-se praxe para Edu Lobo. Hoje em dia, é até responsável pelo estado de fluxo que o compositor confere às suas canções.

Beatriz, por exemplo, a mais conhecida canção do brilhante O Grande Circo Místico, feito em parceria com Chico Buarque, em 1982, está finalizada, mas há sempre um detalhe, um novo acorde, que faz o compositor acreditar, em suas próprias palavras, que "uma música nunca está pronta". "Em Beatriz entraram acordes que eu nunca fiz. Há um diminuto do Nelson Ayres ali no começo que ficou lindo. Não é meu, mas virou parte da composição", explica.

Em conversa sobre a canção, o repórter aponta que suas maiores obras têm uma qualidade clássica, como se fossem feitas por um conhecedor de harmonia e contraponto. Edu rebate: "Nunca estudei música. Eu consumo música clássica. Sou um ouvinte completamente obcecado. Tenho o prazer de ouvir a música, acompanhando-a pela partitura. Se você chama isso de uma forma de aprendizado, não sei. Mas imagino que deve entrar em minha música de algum jeito".

E, se entrou, as influências foram das mais variadas. Um amor pela Sagração da Primavera leva um Edu Lobo empolgado ao piano para mostrar o acorde que Stravinski concebeu para as endiabradas síncopas da primeira parte. Uma menção a Leonard Bernstein basta para Edu Lobo entrar em um discurso sobre os pontos altos de West Side Story, e como é fantástico que algo de tamanho alcance popular tenha sido feito por alguém com um pé tão firme no mundo clássico. O lendário arranjador Gil Evans é uma de suas maiores paixões. Gustav Mahler é imbatível.

Quanto ao septuagenário Edu Lobo, como muito dos mestres ao lado dos quais será mencionado cada vez mais nas décadas seguintes, o compositor mostra ter os pés no chão: "Meus sonhos são muito pobres, vagabundos, de quinta categoria. Não valem nada. Quem dera sonhar com música e acordar com ela pronta. Uma vez aconteceu isso, e, quando fui ver, a música já havia sido feita", diz.

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