Guga Melgar/ Divulgação
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Ednei Giovenazzi completa seis décadas no palco

Ele diz que se identifica com o ator que vive em ‘O Canto do Cisne’

30 de dezembro de 2013 | 16h10

Há aproximações evidentes entre Ednei Giovenazzi e Vassíli Vassílitch Svetlovíd, seu personagem na montagem de O Canto do Cisne, que estreia nesta sexta-feira, no Espaço Sesc, em Copacabana, no Rio. Basta dizer que ambos são atores e pertencem à mesma faixa etária (Ednei tem 83 anos e Vassíli, 78). “Quando ele fala de seus 78 anos, eu revejo toda a minha vida. É claro que eu não sou o personagem. Mas tenho facilidade em compreendê-lo”, afirma Giovenazzi, que, com esse trabalho, comemora 60 anos de carreira.

O percurso de Vassíli é quase tão extenso quanto o de Giovenazzi. O personagem soma 55 anos de estrada, estágio em que evoca os instantes mais relevantes de sua trajetória profissional. O Canto do Cisne marca um novo encontro de Giovenazzi com a obra de Anton Chekhov, autor que o ator visitou anteriormente numa montagem de Jorge Takla para O Jardim das Cerejeiras. O projeto nasceu de um desejo de Edmundo Lippi de realizar um espetáculo a partir da junção de três textos de Chekhov.

No entanto, Giovenazzi, que produz com Lippi, preferiu concentrar os esforços em O Canto do Cisne. A direção ficou a cargo de José Henrique, que, durante o processo, trouxe fotos de atores da passagem do século 18 para o 19. Assim, ao mesmo tempo em que aproveitou a proximidade com o personagem inserindo, inclusive, textos que já montou (como O Mercador de Veneza, de William Shakespeare), Giovenazzi foi levado a entrar em contato com um registro interpretativo diverso do seu.

“Eu sou um ator contido, que procura expressar o máximo através da simplicidade. Sou influenciado por Stanislavski”, declara Giovenazzi, referindo-se ao diretor e ator que concebeu um método que revolucionou o ofício do ator no século 20. E Giovenazzi dedica o espetáculo a um artista que atravessou os momentos mais emblemáticos do teatro brasileiro na segunda metade do século 20: Sergio Britto, que planejava encenar O Canto do Cisne. “Sinto admiração por ele, que foi de uma dedicação absoluta ao teatro”, elogia.

Apresentado na recente edição do Festival Internacional de Teatro de Angra (Fita), O Canto do Cisne saiu de lá vencedor na categoria Prêmio Especial do Júri (para Giovenazzi, “por reafirmar sua paixão pelo teatro em O Canto do Cisne, de Anton Chekhov”) e concorreu em outras duas – ator coadjuvante (Pietro Mário, que interpreta o Ponto) e figurino (Samuel Abranches). A montagem fez temporada de um mês em São Paulo, no Teatro Eva Herz, programado pelo ator Dan Stulbach. “Ele soube da minha desesperada busca por espaço e conseguiu uma brecha na pauta”, informa.

Não foi fácil levantar a produção de O Canto do Cisne. Giovenazzi recebeu a providencial ajuda de seu sobrinho, Carlos Clementino Filho, que patrocinou o espetáculo por meio de sua empresa, a Engepar. “Este tipo de iniciativa é que torna possível a prática teatral. O governo não faz nada pelo teatro. Há uma fachada de auxílio, que, porém, não resolve. A Lei Rouanet salva a pátria. Em São Paulo, tive que abrir mão do meu salário. Eu pude fazer isto. Nem todo mundo pode – e nem tem obrigação”, realça Giovenazzi, que menciona a perda de espaços no Rio. “O Teatro Glória foi destruído pelo Eike Batista. E não entendo porque o Teatro Copacabana não reabre”, destaca.

Mas as dificuldades não ameaçam a resistência de Giovenazzi. Nos últimos anos, fez trabalhos de peso – Molly Sweeney, um Rastro de Luz, de Brian Friel (direção de Celso Nunes), e Mary Stuart, de Friedrich Schiller (direção de Antonio Gilberto), ao lado de Julia Lemmertz, com quem guarda vínculo inquebrantável. Giovenazzi era muito ligado aos pais de Julia, Lilian Lemmertz e Linneu Dias, e conheceu-a criança. “Eu não fiz teatro com os meus pais, mas, em compensação, dividi a cena com Giovenazzi. Eu o chamo de tio até hoje. Na nossa montagem, ele fez o papel do confessor, que foi do meu pai no espetáculo da companhia Teatro Cacilda Becker (TCB)”, lembra Julia Lemmertz.

Dentista. Giovenazzi foi o primeiro dentista de Julia. Formado em odontologia, exerceu a profissão durante um bom tempo. “Eu credito a ele o fato de nunca ter sentido medo de dentista”, diz a atriz. O ator traz à tona o período em que se desdobrou entre as atividades. “Eu tinha dez anos de consultório, conciliando com serviço público e teatro. Não por acaso, adoeci. Meu pai ficou preocupado. Ele perguntou: ‘o que é teatro para você?’ Eu disse: ‘paixão e amor’. Ele falou: ‘então, vá fazer o que gosta’. Na verdade, eu gostava de odontologia, mas ainda mais de teatro”, relata.

Paulista de Pederneiras, o ator construiu uma vida artística intensa. Na televisão, firmou parcerias com Janete Clair e Walther Negrão. No teatro, participou de montagens como Sorocaba, Senhor, a partir de Lope de Vega, sob a direção de Antonio Abujamra. No Teatro Oficina, substituiu Fauzi Arap em Andorra, de Max Frisch, e esteve em Os Inimigos, de Máximo Gorki, ambos sob o comando de José Celso Martinez Corrêa. Fez outras substituições, de Raul Cortez, em Zoo Story, de Edward Albee, montagem de Emilio Fontana, e de Paulo Autran, em Equus, de Peter Shaffer, encenação de Celso Nunes.

Também trabalhou com Martin Gonçalves numa versão de O Balcão, de Jean Genet. “Na época, eu gravava uma novela. Na estreia, pedi ao diretor para sair mais cedo. O dia passava e ele não me liberava. Fiquei tão nervoso que perdi a voz. No teatro, Carlos Vereza me deu um copo de leite morno e a voz voltou. Não foi o leite e sim o gesto”, frisa Giovenazzi, que também marcou presença em Hedda Gabler, de Henrik Ibsen, espetáculo de Gilles Gwizdek protagonizado por Dina Sfat, Descalços no Parque, montagem de Ricardo Waddington para a peça de Neil Simon, Capitu, versão de Marcus Vinicius Faustini para Dom Casmurro, de Machado de Assis, e A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt, com Tônia Carrero.

Nesta última, entrou para a temporada paulistana e recebeu auxílio da atriz Ivone Hoffmann, assistente de direção de Moacyr Góes. “Eu precisei fazer todos os personagens ao ensaiá-lo. Não deve ter sido fácil para ele. Mas foi uma experiência preciosa”, avalia Ivone, que conhecia Giovenazzi desde meados da década de 1960. 

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