Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE

Edmundo: ''sou um homem puro''

Ex-jogador contrata assessoria de imagem, faz terapia, fala do filho gay e do futuro como comentarista

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

Um cavalo. Esse é o bicho com o qual Edmundo, o Animal, se considera mais parecido. "Pelo vigor e por correr atrás das coisas", gaba-se. Mas se por um lado montou sua carreira de jogador a galope, por outro, o ex-craque se vê, aos 40 anos, recomeçando a vida com "um trabalho de formiguinha": quer se livrar do rótulo de brigão - fixado por repetidas confusões em campo e fora dele - e mostrar sua "essência". Esta não será a primeira vez que tenta virar o jogo. Só que agora contratou empresa para reposicionar sua imagem.

Aposentado dos campos desde 2008, está focado na carreira de comentarista esportivo, posição que ocupa na TV Bandeirantes há mais de um ano. Também quer dar palestras e escrever livro. Para tanto, o carioca está de mudança para São Paulo. Enquanto procura apartamento, mudou-se para um flat, onde recebeu a coluna vestindo terno Daslu Homem. Aqui, trechos da entrevista.

Por que decidiu se mudar para São Paulo?

Um: já tenho o trabalho na Band. Dois: aqui sou muito querido. Três: sem querer falar mal do Rio, lá tem uma galera que quer se aproveitar, e isso me incomoda. Sou um homem muito puro, aberto, transparente. Aqui tenho amigos mais bem sucedidos do que eu e que tentam me puxar para cima.

Por que contratou empresa para reposicionar sua imagem? Quero trabalhar em jornal, rádio, fazer comercial, palestra, livro. Não sei o caminho sozinho, sou ingênuo. No fim de semana me ofereceram para jogar um torneio de pôquer de graça. Mas nada é de graça, né? Estava à toa na praia e aceitei. Em dez minutos a notícia tava em um site. É bom? É ruim? Não sei.

Hoje você se considera uma pessoa mais tranquila?

Sempre fui "tranquilaço" no dia a dia, mas revoltado com o sistema. Nunca encontrei ninguém no meio do futebol que me ajudasse. Já aconteceu de não ter chuteira para jogar e ouvir do diretor: "Não tem chuteira, não joga". Fui crescendo no Vasco e pensava: "Cheguei pelos meus próprios méritos e dane-se todo mundo". No profissional, aqueles que nunca me ajudaram começaram a querer ser o pai da criança bonita. Me achava injustiçado. Entendi meio tarde que você não pode demonstrar suas emoções. E aí já estava com um rótulo muito forte. Agora quero mostrar minha essência. Claro que hoje é um trabalho de formiguinha, antes era para multidões.

Seus desentendimentos em campo reforçaram o rótulo, não?

É, tem isso, né, com certeza.

Você se arrepende de algo?

Não.

Nadinha?

Assim, me arrependo do que posso fazer diferente. E tem o outro lado da história. Sempre fiz tudo com muita vontade, determinação e amor. Fiz um monte de cagada com a camisa do Palmeiras. Mas a torcida sempre entendeu que era por eu ser dedicado, guerreiro. Cara, você joga para milhões de pessoas, pelo seu time, pelo seu trabalho e luta para que aquele resultado seja o melhor. É como se jogassem um prato de comida e... "primeiro eu", sabe?

O quanto o que acontecia dentro de campo influenciava na sua vida fora dele?

O contrário era pior. Eu levava a vida pessoal para o campo. Durante a maior parte da minha carreira convivi com a dependência química do meu irmão. Meus pais eram semianalfabetos mas, para eles, eu era o que sabia tudo. Sem saber nada. Aos 19 anos, virei pai dos meus pais. Já aconteceu de estar em São Paulo, véspera de jogo importante, e ter que ir ao Rio procurar meu irmão sumido há dois dias. Eu ia, achava, dava banho, leite, botava para dormir e voltava para treinar. Por isso eu queria ter mais dinheiro, mais fama, mais força para mudar a situação.

Isso atrapalhou no futebol? Psicologicamente, sim. Tinha ocasião de chegar numa roda, ver meu irmão cheirando (cocaína) e eu agarrá-lo pelo cabelo e levá-lo para casa. Ele sempre me respeitou. Depois notei que ele começou a mentir e que eu estava dando murro em ponta de faca. Me lembro bem de uma passagem. Era Dia das Mães. Chamei ele, meus pais e falei: "Olha, quero que entendam, a partir de hoje, vocês é que têm que tomar conta dele. Não aguento mais. Minha vida não vai para frente, minha profissão não vai para frente". E avisei: "Agora, só choro mais uma vez. E será quando ele morrer". O tempo passou, ele tomou jeito. Um ano depois foi assassinado. Não sabemos se foi assalto, como disseram, ou se foi dívida. Aí eu chorei pra caramba.

Você se deparou com muito oportunista?

Sim, e confesso que demorei a distinguir quem era quem. Sempre gostei pra cacete de mulher. Até mais do que deveria. Mas quando maria-chuteira se aproveitava de mim, eu me aproveitava dela também. Acho até que, de verdade, tive pouco filho fora do casamento. Eu era recém-casado com minha ex-mulher e, durante uma noitada, engravidei a mãe do Alexandre - hoje com 16 anos. Não tivemos um relacionamento, mas ela fez questão de mostrar a gravidez para aparecer. Ixi, "aparecer" é uma palavra pela qual ela pode querer me processar, porque tudo que eu falo ela me sacaneia. Bem, daí fui me afastando. Recentemente teve a história da agressão (em que Alexandre foi à delegacia denunciar a mãe, Cristina Mortágua, por maus tratos). Tentei apoiá-lo e me aproximar. Começamos agora a fazer terapia. Ele faz uma sessão, eu faço outra, depois fazemos juntos. Ele ficou surpreso quando falei: "Não tenho nada contra ela, acho que foi uma excelente mãe".

Acha mesmo?

Ah, o moleque está com saúde, não pode ser só coisa ruim. Fui ausente, não posso agora querer ser o salvador da pátria. Muito da coisa psicológica dele é fruto da ausência do pai.

Como soube que ele é gay?

Na verdade, ele nunca me falou: "Pai, eu sou gay". Mas claro que não sou idiota, ele tem aparência total. E vi a mãe dele falando na TV. Mas não muda nada. Respeito e admiro igualmente. Tenho muitos amigos gays. Mas é claro que quando é com o outro é mais fácil, mais legal. Quando é na nossa família fica mais difícil. Por mais que não seja preconceituoso, ninguém quer ter um filho homossexual, até pelo preconceito que ele vai sofrer. Respeito a opção, mas quero que ele tenha um comportamento íntegro na sociedade. Não que ser gay não seja íntegro, mas pô, comportamento nos lugares, né, porque não acho legal o cara afeminado com roupas extravagantes. Opção sexual é uma coisa, vestuário é outra.

Mas você brigava em público e isso não era bonito.

Mas não tô dizendo que eu sou exemplo. Até não sou contra você brigar pelos seus ideias. Ele pode ser gay, mas que tenha uma postura. Já viu quando você está numa festa e chega uma bicha querendo aparecer? Exagero não é legal. Mas é chato, né? Tem meus amigos homens que comentam.

Qual foi sua maior besteira?

Cara, foi ter feito de tudo para sair do Palmeiras e ir para o Flamengo. Só pensei na grana, porque tinha 15% para receber na venda. Foi um divisor de águas que me tirou de uma situação em que eu era feliz e não sabia, para um turbilhão.

Pelo seu atual estado de espírito, com que animal você se acha mais parecido hoje?

Um cavalo. Eu tinha muita força física, sempre fui muito de correr atrás das coisas. Acabou minha carreira de jogador mas eu tenho muito o que batalhar para o meu futuro como comentarista, jornalista, empresário. Só que agora eu não preciso cometer alguns absurdos. Quando eu parei, eu me olhava no espelho me via fino, magro, com cabeça boa e pensava: "Por que eu não consigo mais?". Sabe, assim?

Parou por não conseguir?

Não. Eu não era contratado para ser mais um jogador importante. E, sim, para ser estrela. Só que já não conseguia levar o grupo nas costas. Se eu pego um Santos, com Ganso e Neymar e me botam para fazer o feijão com arroz, jogaria até hoje.

Você é vaidoso? Seu cabelo é bem preto, você pinta?

Sou. Mas juro que não pinto. Só tomo finasterida para não cair.

Um dos efeitos desse remédio pode ser impotência.

Ainda não funcionou comigo, não (risos). Fiz clareamento nos dentes, passo uns creminhos, protetor solar. Já fiz botox acima das sobrancelhas porque eu tenho essa bosta aqui (apontando para cicatriz na testa). Era 90% menor. Tudo piorou em 99 quando, voltando da Itália, sentei com um cara que se apresentou como Artur Pororoca, cirurgião plástico. Viemos conversando e ele falou: "Vai lá no meu consultório que eu tiro isso para você". Só que infeccionou, criou uma fibrose e ficou essa coisa alta e feia. Vou operar de novo. Uma coisa importante a ser dita: sempre tive muita oportunidade de coisas grátis. E as coisas grátis sempre me ferraram (risos). /DÉBORA BERGAMASCO

Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

João Luiz Vieira joao.vieira@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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