Editores de poesia fazem encontro melancólico

Um muro de lamentações - foi assim, entre irônico e melancólico, que ogrupo de editores de poesia comentou o encontro deste domingo do Festival de Poesia de Goyaz. Foi sob a sombra de problemas queparecem eternos, como dívidas, escasso interesse das livrarias e vendareduzida, que Jorge Viveiros de Castro (editora 7 Letras), Ricardo Corona(Medusa) e Plínio Martins (Edusp e Ateliê), mediados por Henryk Siewierski(Editora UnB), falaram sobre sua luta de lançar um tipo de obra queemplaca, cada vez mais, o título de maldita."A primeira condição de editar poesia é não enquadrar essa atividadecomo um negócio", disse Castro, ciente de que o editor deve representara ponte entre a arte e o público. "É por isso que os grandes livreirosnão se interessam por poesia, pois vivem do instantâneo, do best-seller,das vendas imediatas. Trabalhar com poemas é algo artesanal: as tiragensmuitas vezes não passam de 600 exemplares e mesmo assim não se esgotam."No comando da carioca 7 Letras há dez anos, período em que lançou maisde 300 títulos, Castro lembra que a sobrevivência da editora se deveu àdiversificação dos títulos - se inicialmente publicava apenas poesia,hoje é obrigado a se render a todos os gêneros. "Mesmo assim, a maiorparte dos originais que recebo por semana é de poesia, algo como seisentre dez."Mais radical em seu negócio, Ricardo Corona luta para manter viva acuritibana Medusa. Uma luta inglória. "Sou um editor fracassado, poisnão entendo como o livro de poesia não consegue entrar no fluxo devendas das livrarias", comenta ele que, ao invés de entregar os pontos,decidiu atacar pelos caminhos que conhece. Ao entender a edição de umlivro como um trabalho estético, Corona prefere não se preocupar com apressão externa, evitando a luta de mercado e utilizando de modernasferramentas como fonte de divulgação como os blogs. "Afinal, o livro depoesia é a última fronteira: não se trata de um trabalho comum, daí anecessidade de um cuidado diferenciado."Poesia vende tão bem quanto ficçãoMais experiente (trabalhou antes na Perspectiva), Plínio Martins revelouum realismo aterrador. Para ele, o negócio do livro é o pior do mundo."Se eu compro um carro avaliado em 20 mil reais, posso pagá-lo em até 24meses; agora se a edição de um livro me custa o mesmo valor, tenho depagá-la em, no máximo, 90 dias", explica que, há dez anos no comando daAteliê, só conseguiu equilibrar financeiramente a editora por publicarclássicos. "Meu best-seller é Gil Vicente", disse ele, com a certeza deque os lucros só serão desfrutados pelos herdeiros. "Trata-se de umnegócio a longuíssimo prazo e basta dar uma olhada hoje nos grandesgrupos editoriais brasileiros: com algumas exceções, quem está nocomando é o filho ou o neto do fundador."Martins tocou também em outro assunto delicado. Para ele, o livro depoesia vende tão bem quanto o de ficção. A diferença, acredita, está naresistência do público a aceitar um autor novo. "Por isso que tambémacredito que o investimento deve ser no autor e não no livro", comenta."Se a primeira obra não deu certo, tem de se insistir no segundo, noterceiro até que finalmente o escritor seja reconhecido." Nem que paraisso, reconhece, o autor tenha de mudar para outra editora, maior e maisbem equipada.Cético, Martins criticou entidades que deveriam se preocupar com odesenvolvimento do mercado editorial, como a Câmara Brasileira do Livro(CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livro (Snel). "Eles nãogostam do livro mas sim do negócio de livros: vivem mais preocupados emvender edições para o governo."Essa falta de proteção acaba permitindo ações maléficas como atransformação sofrida pela editora Ática: segundo Martins, ao passarpara o comando francês, a editora se desvencilho dos escritores quevendiam menos de cinco mil exemplares. E é o que pode explicar também adescabida diferença entre o número de editoras e o de livrarias -segundo dados recentes, existem no Brasil cerca de 4.200 editoras contra1.300 livrarias. "Mesmo assim, ainda tenho esperança ao notar que, narecente Bienal do Livro, durante o último fim de semana de seufuncionamento, mais pessoas pagaram ingresso para ver o livro que parair a um estádio de futebol. Com sorte, logo teremos pessoas pagandoingresso para comprar um livro e, quem sabe um pouco mais adiante, paraler um livro."O último dia do festival previa ainda a realização de uma mesa com opoeta piauiense Manoel Ricardo de Lima, a paulista Maria Lúcia Dal Farrae o crítico goiano Heleno Godoy. E as oficinas pretendiam explorar odiálogo da poesia com outras formas de expressão artística: Poesia eNovas Mídias, com o poeta goiano Marcos Caiado; Poesia e Tradução, com opoeta chileno Álvaro Faleiros; Poesia no Teatro, com o professor deliteratura André Gomes, da UnB; e Poesia Encenada, com o Grupo daUniversidade Estadual de Goiás.

Agencia Estado,

26 de março de 2006 | 14h16

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