Editoras lançam clássicos em linguagem jovem

Fausto vendendo sua alma ao diabo emlinguagem corriqueira. Uma mulher chamada Gemma Bovery que,entediada como a personagem de Flaubert, atira-se ao adultério.Um conto de Oscar Wilde narrado por personagens que são bichosda fauna brasileira. Exemplos de uma tendência - clássicos daliteratura mundial invadem as prateleiras das livrarias com novoformato e com textos mais atraentes, dispostos a captar aatenção do jovem leitor, cada vez mais rodeado por máquinaseletrônicas que proporcionam diversão. "Os mitos hoje estão maisacessíveis", comenta Christine Röhrig, autora de "Fausto 1"(Girafa, 76 páginas, R$ 29), edição adaptada especialmente parao público juvenil da obra de Goethe. "Nesse trabalho, eu mecoloquei como o primeiro contato com a obra do alemão." Todos os recursos são válidos para atrair a atenção. Olançamento de "Fausto 1", por exemplo, que acontece nesta terça-feira na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, vai reunir atores que farão uma leitura dramática do texto. O evento seráacompanhado ainda por manipulação de bonecos e um repentista,que cuidará da introdução e será o narrador da história. E aresponsabilidade geral será de Alvise Camozzi, que interpretouMefisto na versão de "Fausto Zero" dirigida recentemente porGabriel Villela. "Foi ele quem sugeriu a leitura dramática, umagrande idéia para desmistificar alguns fatos que rodeiam a obrade Goethe", conta Christine.Fausto, a história do hoomem que vende a alma ao diaboDe fato, a história do homem que vende a alma ao diaboem troca de sucesso, embora conhecida, sempre incentivou umrespeito até exagerado em relação ao original. "Goethe era jovemquando escreveu Fausto e, para surpresa de muitas pessoas, quesempre vêem poeira demais em sua obra, usou muito do humor e dapoesia em seu texto", explica. "Tanto que preservei diversostrechos do original, alterando apenas quando o texto parecia umpouco pesado para o público jovem de hoje. Fiz uma traduçãoantropofágica." Christine, que se notabiliza pelas recentes traduções daobra de Goethe, buscou também preservar o ritmo e não a rima dapoesia do autor alemão, para facilitar a leitura e provocar umafruição. Ela partiu de um princípio precioso: da mesma forma quehá diferentes maneiras de uma pessoa se aproximar de outra, hátambém formas distintas de se envolver com livros. "Goetheescreveu esse texto há quase 200 anos, mas ainda continua atual,a ponto de Fausto pertencer ao imaginário europeu nos diasatuais."Mesmo sabendo que pode contrariar os puristas, Christinedefende a utilização de adaptações como um dos caminhos para seiniciar na leitura, pois o primeiro contato com um livrovolumoso e sem ilustrações pode assustar. "Da mesma forma quenão é necessário ir até a Inglaterra para se conhecerShakespeare, os jovens leitores não precisam ler ´Romeu eJulieta´ original para descobrir as peripécias do amor."Fidelidade ao espírito da obraEis o ponto decisivo no trabalho dos adaptadores:fidelidade ao espírito da obra original, que é apresentada comuma roupagem mais condizente com o jovem leitor da atualidade."Foi uma tarefa árdua, em que tive de cometer algumas ousadias,mas com propriedade", observa Christine. "É preciso abrir umaporta de facilitação das grandes obras para os mais jovens."Essa certeza norteia o trabalho de editoras como a JorgeZahar, que lança em capítulos a grande obra de Marcel Proust,"Em Busca do Tempo Perdido", e da Berlendis & VertecchiaEditores, que recentemente lançou uma versão do conto de OscarWilde, "O Amigo Fiel", com um toque nacional: a fábula que põeem evidência o valor real da lealdade e da amizade é contada porpersonagens da fauna brasileira. Assim, a ingênua capivaraValentim e a esperta queixada Xicoqueixo têm condutas própriasdos seres humanos ao expor diferenças de princípios de ordemética e moral.A adaptação e as belas ilustrações foram feitas peloartista plástico e caricaturista Gonzalo Cárcamo. A prática,aliás, tornou-se rotineira - grandes nomes do jornalismo e dasartes visuais usam seu talento para apresentar os clássicos. Ainglesa Posy Simmonds, por exemplo, colaboradora regular dojornal The Guardian, inspirou-se em Madame Bovary, de GustaveFlaubert, para criar Gemma Bovery, lançado agora pela Conrad. Aoencontrar equivalentes contemporâneos dos personagens, do enredo da ironia e até mesmo das ferramentas literárias de Flaubert,Posy elaborou uma sátira deliciosamente inteligente aos yuppiesbritânicos e aos costumes contemporâneos, na avaliação do TheNew York Times.Versões em quadrinhosA Conrad, aliás, consagra-se como a editora que maisaposta nessa vertente. Assim, além de trazer grandes obrasestrangeiras, investe em trabalhos nacionais como na versão emquadrinhos de "A Relíquia", de Eça de Queiroz, que o cartunistaMarcatti finaliza para lançar nos próximos meses. Famoso pelotraço escatológico e, talvez por isso mesmo, um dos mais geniaisdo País, Francisco Marcatti Jr. logo se apaixonou pela cruelcaricatura apresentada por Eça. "O texto mostra toda acafajestada da burguesia do século 19 e o autor usa de muitapompa na linguagem para, na verdade, chutar o pau da barraca",diverte-se.Depois de decupar o texto, Marcatti elaborou um plano decriação de quadrinhos, em que várias cenas foram condensadas. Alinguagem também foi adaptada para os dias atuais quando ooriginal revelava-se castiço demais. Na verdade, Marcatti seguiuos preceitos de outros adaptadores: "Fui fiel ao conceito dooriginal." Fausto 1. Biblioteca Mário de Andrade. Rua da Consolação, 94, (11) 3129-3135. 3.ª, às 19 h

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